22.12.11

o regresso



(ilha de Jaco, Timor-Leste)

Andei, até há bem poucos dias, de top sem mangas, mini-saia e dedos dos pés de fora. Fui a praias paradisíacas e mergulhei em águas quentes. Chego cá e sou recebida com menos uns 35ºC. Não consigo sentir espírito de Natal nenhum. Numa tentativa desesperada, meti-me num centro comercial, na esperança de que se não fosse de outra forma, o consumismo do qual estive afastada durante estas semanas se apoderasse de mim, e eu sentisse, pelo menos, essa espécie de espírito natalício. Nada de nada. Não tive vontade de comprar nada, as filas nas lojas horrorizaram-me e o frio que sentia não passou. Não sou capaz de comprar casacos de lã quando o que me apetece é estar de braços ao léu sob um sol abrasador.

19.12.11

há sempre uma primeira vez para tudo

Chorei baba e ranho enquanto fazia a mala.

[correcção e actualização: chorei baba e ranho durante dois dias seguidos]

16.12.11

Não sou insegura.
Correcção: não sou normalmente insegura. Quando me sinto insegura sei que o meu mundo foi abanado por um sismo de intensidade considerável. Esqueço-me de quem sou, de quem já fui, daquilo por que já passei, dos risos, das lágrimas. Esqueço-me de tudo e sinto-me um ovo sem casca, ali à mercê da vontade de uma determinada pessoa. E detesto, oh como detesto, esta sensação de vulnerabilidade que nada tem a ver com a pessoa que (normalmente) sou. Reajo mal a esta insegurança que toma cada parte do meu corpo e torno-me agressiva e especialmente reactiva. Ai, que isto me passe depressa, que se há coisa que me desespera (e me espanta, e no fundo, me agrada; uma espécie de sabor agridoce) é sentir-me assim, sem ser capaz de ser racional. Vulnerável e frágil, com a vida assente em sentimentos perdidos no ar, sem saber se (aquele) alguém lhes dá a mão ou não. Como é que uma pessoa saída do nada, que nada sabe de mim, provoca esta devastação interior?

15.12.11

conflitos internos é comigo

[Devia virar costas, fazer de conta que me estou pouco importando, que sim, que sou aquela pessoa sem escrúpulos e sem preocupações que muito provavelmente imagina que sou, que não há mais nada além de uns momentos bem passados. E sim, concluo que é o melhor caminho, que esta postura me vai evitar dissabores maiores, que me vai evitar dois ou três dias de desespero maior (que eu conheço-me bem e sei a devastação que aqui vai estar daqui a meia dúzia de dias) e sabe-se lá quantos de desespero já à distância. Respiro fundo. Está decidido. Fazer de conta que não tem interesse é a melhor opção.

Depois vejo-o e cai tudo por terra. Fingir sentimentos não é para mim.]

14.12.11

Continuo admirada com as surpresas que esta viagem tinha reservadas para mim. Queria eu vir para cá para colocar mais um alfinete no meu mapa de viagens e juntar mais umas fotos ao álbum e sou apanhada de surpresa por uma torrente de novidades e emoções. A menos de uma semana do regresso estou semi-desfeita por dentro. Como é habitual em mim tento lidar com tudo de forma racional e visto a máscara de pessoa forte que não se deixa ir abaixo, mas debaixo da carapaça há lagrimazitas a querer ver a luz do dia. E se, apesar de tudo, enquanto estou deste lado estou bem, não consigo sequer imaginar o que vou sentir quando der por mim do outro lado do mundo.

12.12.11

ontem tive a viagem de táxi mais alucinante de que tenho memória

Éramos três. Perguntámos ao taxista se nos levava a um bar cá do sítio. Que sim, que sim, que levava. Depois do preço regateado (sim, há que regatear sempre o preço do táxi) entramos no táxi. Já sentadinhas no banco de trás vemos chegar um amigo do taxista, que se senta ao lado dele (não era a primeira vez que acontecia, já não estranhámos). Entretanto taxista levanta-se e sai. Ficamos as três no banco de trás e o amigo do taxista à frente. O amigo olha muitas vezes para trás, para nós, com um ar entre o espantado e o esfomeado. Esperamos pacientemente (eu sei que noutro contexto teríamos saído do carro, mas em Timor tudo é diferente e difícil de explicar a quem não conhece o ambiente!). Minutos depois o taxista regressa. Pensamos nós que se vai iniciar a viagem. Pensamento errado, claro está. Chegam mais dois amigos da taxista. Um abre a porta de trás e olha para nós com ar espantado. Depois de uns segundos de medição de forças com o olhar, o moço fecha a porta do carro e encaminha-se para a mala do carro. Nós dentro do carro sem saber o que pensar. Abre a mala do carro e deita-se. E foi aqui que eu comecei a rir para só parar uma boa meia hora depois. Fui às lágrimas de tanto rir (coisa que não é difícil em mim, mas que ontem foi quase imediata). Rapaz deitado na mala do carro fecha a mala. Entretanto o segundo amigo do condutor aproxima-se da bagageira do táxi, abre a dita cuja e salta lá para dentro. O que estava deitado na mala senta-se e eis o ponto da situação:

- 3 portuguesas a rir como se não houvesse amanhã no banco de trás do carro
- um motorista
- o amigo do motorista sentado ao lado dele
- dois amigos do motorista sentados na mala, que está aberta

Arrancamos. Música aos berros, como é costume nos táxis cá do sítio (quando voltar e tiver net a uma velocidade normal prometo partilhar um vídeo). O motorista e o amigo do lado por várias vezes puseram meio corpo do lado de fora da janela para falarem de forma mais audível com os dois moços que seguiam sentados em amena cavaqueira na mala do carro. Sempre que aparecia uma curva mais pronunciada o taxista acelerava e o carro gemia ruidosamente. A dada altura o motorista deve ter achado que ainda era pouca emoção para uma viagem de táxi e decide fazer pequenos "esses". Quanta emoção! Entretanto chegámos, sãs e salvas. Os moços da mala passaram para o banco de trás e seguiram viagem alegremente.

por aqui tudo isto é normal

Para mais tarde recordar:
- há alunos que afiam o lápis com uma catana (ninguém me contou, a coisa deu-se à minha frente);
- há um funcionário responsável por abrir as portas das salas de aula (é a única função do dito funcionário). Há dias o funcionário não apareceu de manhã e mais ninguém tinha a chave (aqui tudo isto é normal). Os alunos arrombaram a porta com um pé de cabra;
- uma professora pediu a uma funcionária que estava a varrer o corredor para varrer a sala de aula. A funcionária explicou que a função dela era varrer aquele corredor, e apenas aquele (e não salas de aulas).

o destino a tentar dar-me sinais

A única explicação que eu encontro para exactamente um mês depois tornar a torcer o mesmo pé quando passava precisamente no mesmo sítio é só uma: o destino está a tentar dizer-me alguma coisa e eu não estou a perceber o quê. Se alguém entender alguma coisa destes sinais do além é favor iluminar esta alma desorientada.

11.12.11

apresento-vos o melhor de Bali: o pôr-do-sol no Tanah Lot

Bali, Tanah Lot
Há pouco, enquanto percorria o caminho entre o aeroporto e o hotel em Díli, e no rádio do carro passavam músicas de Natal, deu-me um aperto cá dentro. Quando cheguei, esta viagem a Bali parecia tão longínqua. Comentávamos entre nós que depois do regresso de Bali já só faltaria uma semana de trabalho para voltarmos a casa. Fazíamos estes comentários como se o que mais desejássemos na altura fosse voltar a Portugal. Provavelmente porque esse regresso estava, ou parecia, muito distante. Hoje, encolhida num canto do carro caiu-me em cima a realidade: já só falta uma semana. Eu sei que para alguns do grupo ainda falta uma semana, mas para mim só falta uma semana. Como é que eu vou ser feliz sem este calor todos os dias? Sem o mar ao meu lado logo de manhã? Sem o calor deste mar? Sem a praia sempre que me apetecer e o trabalho o permitir? Sem aquelas pessoas que apareceram do nada e me preencheram (os dias)?

Estou para aqui de lagrimita no canto do olho e ainda sobram uns dias de paraíso. Daqui a uma semana vai ser bonito...

7.12.11

já volto

Vou então até ali a Bali e depois regresso a Timor para a última semana.

Por que é que o que é bom passa tão depressa?

6.12.11

E agora?

O que é que eu faço com o que tenho cá dentro?
O que é que faço com o que devia ter cá dentro e que já não tenho?

5.12.11

Se a oportunidade surgisse fazia orelhas moucas à minha quase eterna máxima "não voltes ao lugar onde já foste feliz".


3.12.11

do inesperado

Se há dois meses alguém me tivesse dito que hoje estaria em Timor eu não iria acreditar.
Se há um mês alguém me dissesse que eu me iria sentir em casa neste quarto de hotel eu não iria acreditar.
Se há um mês alguém me tivesse dito que eu não teria a menor vontade de sair daqui eu não iria acreditar.
Se há um mês atrás alguém me tivesse dito que eu iria tentar procurar forma de voltar cá rapidamente eu não iria acreditar.


1.12.11

notícias do outro lado do mundo

Tenho pena de não estar a escrever praticamente nada sobre a estadia em Timor. Sei que há episódios e momentos que se vão perder, mas apetece-me bem mais vivê-los agora, do que perder tempo a descrevê-los.
A chegada cá não foi fácil. O impacto do primeiro contacto com Díli foi duro e abrupto. Mas a sensação de receio e incerteza desvaneceu-se no segundo dia, quando fui à praia e me senti no paraíso. Tenho-me sentido em casa, e agora que o tempo que falta passar cá já é menos do que aquele que já passou, começo a pensar que este intervalo de mês e meio na minha vida normal vai mesmo chegar ao fim. E, honestamente, não me apetecia nada que terminasse já. Sim, aqui falta muita coisa. Sim, eu que adoro cremes e vernizes e sapatos e malas e não vi nada disto desde que aqui cheguei. E não sinto falta nenhuma. Encontrar uma coisa tão simples como uma máscara para o cabelo pode ser uma verdadeira odisseia. Mas todos os dias tomo o pequeno-almoço com vista para o mar, e isso vale mais que mil pares de sapatos. Saio do centro de formação e almoço a um metro da praia, de hawaianas e mini-saia em pleno Inverno português. Ontem tomei café depois do jantar enquanto ouvia as ondas e me caíam em cima pingos quentes de chuva. Se eu não tinha uma ideia bem definida do que era o paraíso, agora já tenho. É a praia aqui ao lado, é o calor que chega a sufocar, é a humidade que se cola a nós, são as festas em casa de desconhecidos, é o darmos por nós sem mais nem menos no meio de uma festa num consulado, são os bares australianos, são as pessoas deslocadas como nós que se conhecem e nos surpreendem, são preconceitos que caem, são acontecimentos inesperados. Também é a serenidade, bondade e forma de ser genuína dos timorenses, os sorrisos deles e a simpatia.
E agora vou continuar a aproveitar cada minuto da estadia no paraíso. Até já.

26.11.11

Por esta é que eu não esperava...
E agora o que é que eu faço?
Eu só vim para cá trabalhar, não era suposto isto acontecer...

11.11.11

prometo solenemente não tornar a dizer mal de militares

Ontem, uma das companheiras de aventura magoou-se num pé. Ora, cá no sítio, médico é coisa rara. Depois de nos informarmos com outros emigrantes temporários rumámos, meio a medo, ao aquartelamento da GNR. Explicámos a situação e fomos atendidas em menos de três tempos. Médico mais do que simpático e competente, enfermeiros igualmente simpáticos e preocupados. Hoje, enquanto subia e descia os obstáculos do centro de formação, torci o pé. Achei que não era nada, voltei à aula. Passadas umas horitas o pé tinha inchado de forma bem visível e doía que se fartava. Lá rumámos de novo em direcção à GNR já perdidas de riso pela coincidência de em dois dias seguidas magoarmos as duas o pé direito e termos de ir bater à mesma porta. Mesmo médico, mesmo enfermeiros, boa disposição e muito boa vontade.

Cá estou coxa e com gelo em cima do pé. Amanhã regressamos à GNR para verem se estamos melhor.

Prometo solenemente não tornar a dizer nem a pensar mal dos militares, de quem, até hoje, tinha uma opinião muito duvidosa.

4.11.11

trabalho só na quarta

De modo que por estes dias a minha vida tem sido uma canseira: praia e mergulho (senti-me dentro de um aquário: corais de todas as cores e feitios e peixinhos de cores exóticas. O Nemo e família cruzaram-se comigo e mandam-vos cumprimentos). Tivesse eu acertado o relógio quando cheguei a Timor e haveria fotos do mundo debaixo de água. Como fiquei no horário de Singapura e acordei tarde e a más horas, saí a correr do hotel sem tempo para ver se a máquina que tira fotos debaixo de água ia comigo ou não. Não ia. Temperaturas ao certo não sei, mas andaremos pelos 30 e muitos graus. Os efeitos do sol já se notam por estes lados: cara muito rosada e ombro vermelhusco. A água refresca, mas não muito. Se não derreter até lá começarei a trabalhar na quarta.


Timor

habemus net

Portátil fininho para não pesar nas viagens. Tão fininho que nada de sítio para ligar um cabo de internet. Chego ao hotel e quando peço a palavra-chave para ter acesso à rede sem fios pespegam-me um cabo nas mãos. Depois de torcer o nariz lá me lembrei que tinha um adaptador para o maldito cabo da net. Adaptador este que decidiu não funcionar. Inspira, expira, pede um portátil emprestado, tenta fazer o download do driver certo e eis que voltei a estar conectada com o mundo. A uma velocidade mais lenta que o habitual, mas ligada.

2.11.11

agora já posso dizer a um crocodilo:

"Já dei uma dentadinha num familiar teu." E gostei.

em Singapura

Em trânsito.
O tempo foi muito pouco, mas aproveitado da melhor forma: templo, Clarke Quay e jantar tradicional cá do sítio. Agora parece que convém ir dormir.

27.10.11

desespero

Imaginem que sabem com 9 dias de antecedência que vão para o outro lado do mundo. Passado o choque inicial planeiam mentalmente como vão distribuir as tarefas que têm mesmo de deixar terminadas antes de se meterem no avião. Até sábado trato do que tem que ficar tratado do lado de cá do mundo, depois de sábado trato do que tem mesmo de ser preparado para o lado de lá. OK, é um calendário apertado, mas consegue-se. A vida continua com tudo cronometrado ao minuto, mas sem grandes dramas. Agora imaginem que de um momento para o outro já não vão no dia que vos tinham indicado inicialmente, mas uns dias antes. Eu nem sou pessoa de desesperar, mas também tenho limites.

25.10.11

este ano...

... começou em Hong Kong e vai terminar em Timor.

Continuo em choque, que isto de se saber com semana e meia de antecedência que tem de se arrumar a vida para ir até ao outro lado do mundo é coisa para deixar qualquer pessoa ligeiramente desorientada. Sim, vou mas volto.

18.10.11

9 da manhã, Serpa

o sofrimento por antecipação é directamente proporcional ao tempo livre

Já sofri muito por antecipação. A primeira apresentação em inglês deixou-me com dores de barriga umas boas semanas antes de acontecer. Depois, com o passar do tempo e com algum traquejo acumulado, o tempo de sofrimento foi-se reduzindo, quase sem que eu desse por isso. Agora, olhando para trás, vejo que as semanas passaram a singular, e a dada altura passaram a ser apenas dias, que mais tarde se transformaram em horas. No meio do processo comecei a conseguir tomar o pequeno-almoço nos dias de maior nervosismo, porque se o ponto-chave tinha lugar às 11, às 8 ainda eu estava serena. Houve alturas em que meia hora antes ficava nervosa, e outras em que cinco minutos antes sentia um aperto no estômago.


Nunca antes tinha pensado nisto e por isso mesmo nunca tinha chegado à conclusão óbvia. Não é que actualmente não tenha razões para em determinadas situações estar nervosa; tenho e bem mais do que há uns anos atrás, porque as responsabilidades cresceram. O que me falta hoje é tempo para pensar e, consequentemente, para ficar nervosa.


Moral da história: o sofrimento por antecipação é directamente proporcional ao tempo livre de que dispomos.

17.10.11

radio killed the video star

Há uns tempos calcorreei meia praia com um jornalista e um repórter de imagem como companhia. Ria-me sempre que alguém olhava para mim de alto a baixo enquanto tentava descobrir quem era a pessoa importante (quanta desilusão!). Quando finalmente arranjámos um lugar considerado adequado (para mim era logo no meio da areia, com o mar ali ao lado) era ver as senhoras de meia idade aproximarem-se para saberem em que canal, dia e hora poderiam ver o evento que tinham presenciado. Eu estive estranhamente calma e totalmente a leste dos olhares curiosos. Amanhã há entrevista para a rádio. Pode parecer estranho, mas assusta-me bem mais do que uma reportagem para a televisão. A imagem distrai as pessoas das palavras. Na rádio ficam só as palavras, sem nada que afaste a atenção dos ouvintes. E falar de um hobbie não tem o mesmo peso que falar de trabalho. É rezar para que o discurso me saia escorreito e coerente. Se bem que com o cansaço que por aqui anda não se augura nada de muito bom.