6.11.12

pedaços de mim espalhados por aí

winter time
Há viagens inconsequentes e viagens que desmancham o nosso puzzle e deixam as peças fora de sítio, enquanto outras simplesmente se perdem. Timor foi como um furacão que não deixou peça nenhuma sítio, me roubou algumas e em troca me deixou peças aparentemente sem encaixe. Depois veio a Bulgária, aparentemente mais suave, mas que deixou marcas profundas e me mostrou, mais uma vez, que embora muitas vezes me sinta a viver uma realidade paralela quanto estou longe do meu ninho, this is also real life, com todas as consequências que daí advêm. À primeira vista, a estadia na Suécia reunia todas as condições para que nada corresse bem. Pelo contrário, e de forma surpreendente, tudo foi perfeito. Sinto que as peças do meu puzzle estão fora de sítio mais uma vez, mas ainda não sei explicar porquê. Ainda estou a processar tudo o que (me) aconteceu, as pessoas, as caminhadas, as partilhas, a intimidade genuína que estranhamente só se consegue com quem quase não se conhece. O que deveria ter sido só mais um curso, foi muito mais que isso. Agora estou de volta às minhas pessoas, aquelas que estão cá sempre de pedra e cal, mas faltam-me algumas das que nos últimos dias estiveram presentes quase 24 sobre 24 horas. Não foi por acaso que as despedidas foram breves, sabíamos que não seria fácil virarmos costas depois de tudo. Ontem, exausta, adormeci no sofá. Acordei de madrugada, olhei em volta e o meu primeiro pensamento foi "Onde é que eles estão?". E depois de olhar e tornar a olhar reparei que o espaço e a mobília me eram familiares. "OK, estou em casa, mas onde é que eles estão?", e só aí se fez luz e me lembrei que agora não havia mais nós nem eles, e estava cada um por aí algures. Acordada e ainda um pouco desorientada abri o mail e o que li fez-me sorrir "I can't sleep, I miss you".

sauna + lago

first sauna then swimming in the lake
Antes de ir aconselharam-me a levar biquíni, que havia um lago por perto e que iria dar jeito. "Suécia", "biquíni" e "lago" eram palavras que na minha mente portuguesa não combinavam. O dia em que cheguei foi o dia mais frio. Ou então estava a sofrer os efeitos do choque térmico e afinal não estava assim tanto frio. A verdade é que no dia seguinte tudo em redor amanheceu em tons de branco, e o gorro, o cachecol e as luvas me souberam muito bem. Capacidade de adaptação foi coisa que nunca me faltou e nestes poucos dias dei comigo a passear na floresta sem gorro nem luvas, e a não ter frio nenhum. Na última noite fizemos aquilo que nos primeiros dias nos parecia ser o máximo da loucura. Depois de uma bela meia hora de sauna (sauna com lenha, nada de saunas eléctricas como as que temos por cá; era uma espécie de lareira com formato de sauna!) saímos descalços, de biquíni ou calções, para os 2ºC lá fora, descemos as escadas e mergulhámos no lago. Sim, a água estava gelada. E, sim, gostámos tanto que voltámos à sauna e regressámos ao lago, uma e outra vez. Agora, já do lado normal das nossas vidas, comentamos entre todos o bem que nos sabia repetir a aparente loucura.

5.11.12

do calor que se gerou no frio

Os lugares são as pessoas, e este lugar junto à floresta com varanda para o lago era o que eu estava a precisar. Saudades dos olhares cúmplices, dos abraços, dos sorrisos.
glass plant frozen grass frozen morning

28.10.12

karma

Rosa faz todo o seu percurso de Portugal até ao lugar onde era esperada na Suécia sem se enganar, e depois do avião andou de metro, autocarro e comboio (alguns deles em dose dupla). Na hora combinada estava na paragem do autocarro à espera que a fossem buscar  e a levassem para o hotel junto ao lago. Foram buscá-la e enganaram-se no caminho para o hotel!

da Suécia em jeito telegráfico

Às 5 e meia da manhã estava no aeroporto. Às 6 da tarde tinha chegado ao destino. Às 7 já tinha jantado. Parece que a primeira reunião de trabalho é daqui a uma hora, mas estamos todos mais mortos que vivos. Vamos lá ver se nos aguentamos acordados até lá (e durante, vá, é capaz de dar jeito). Parece que a varanda tem vista para o lado, amanhã hei-de comprovar. Hoje quando cheguei era noite cerrada (o que eu gosto de sítios que anoitecem de manhã). Lá fora está um frio dos diabos (e o que eu aprecio o Inverno, hã?), mas tanto me assustaram com o frio que acho que estava à espera de pior! A cereja no topo do bolo é a cela, perdão, o quarto, onde vamos ficar. Sim, plural, tudo ao monte e fé em deus. A net é assim um bocadinho lenta. Enfatize-se que "bocadinho" é eufemismo. Perante isto, e depois de estar há poucas horas por estes lados ocorre-me dizer que tenho saudades do meu quarto de Timor (aquele que tanto maldisse quando lá cheguei). Lá tinha um quarto só para mim com o triplo do tamanho do que tenho agora repartido por vários.

E a primeira impressão da Suécia é esta, humpf!

Ah, esqueci-me de dizer que até agora os suecos foram todos muito simpáticos e que não me perdi em lado nenhum, o que para alguém que tem o sentido de orientação de uma anémona, é indicação de que tudo está muito bem sinalizado.

27.10.12

On the road

A viagem começa quando saio porta fora de mala na mão, independentemente de ir directamente para o destino ou não. Esta já começou.

Não sei se estou mais cansada por tudo o que teve que ser feito nas últimas semanas, se mais feliz por durante uns dias fazer um intervalo na vida comum. Tenho ainda umas horas pela frente antes de um longo dia de viagem. Conseguir chegar ao destino é o primeiro desafio desta viagem diferente.
No ano passado por esta altura fazia a mala para ir para o Verão, este ano é ligeiramente diferente.

26.10.12

quase de partida


- todas as teses e mais algumas lidas e corrigidas (estou assim, como dizer?, qual a melhor palavra? Não, cansada é pouco. Exausta. É isso mesmo!)
- capítulo revisto
- projecto lido e revisto, relatório idem idem aspas aspas
- candidatura 1 submetida
- candidatura 2 por submeter

Se não me engano, depois da candidatura 2 tratada, posso desligar o computador, pegar na tralha e ir fazer a mala. Há que procurar cachecóis, gorros e casacos que aqui não uso porque morro de calor. Não sou dada a climas frios e não sei se esta viagem me vai agradar. Corre entre os amigos que viagens a países civilizados é coisa que não me entusiasma. Não é totalmente verdade, mas também não é totalmente falso. Mudaram-se-me as preferências de há uns tempos para cá. Timor mudou-me para melhor e deixou cá dentro um bichinho que não me parece que tão cedo desapareça.

oh yeah


Há dias em que parece que tudo se alinha para sermos mais felizes. Não gosto de celebrar por antecipação, mas se as boas notícias de hoje se vierem mesmo a concretizar só vos digo que ficarei com um sorriso de orelha a orelha para tão cedo não desaparecer.

23.10.12

o lado bom

Almoço a correr no gabinete entre páginas de uma tese que se quer lida até ao início da tarde. Manhã passada em reuniões e correrias. Ainda é terça, mas sexta parece mais próxima que o habitual. Vejamos o lado bom dos dias que correm em ritmo acelerado: tenho uma janela só minha virada para o verde e o azul. Vejo o pôr-do-sol como poucos. De manhã muito cedo, naquela hora em que o andar de cima ainda é todo meu, tenho bandos de gaivotas a pousar e a levantar voo mesmo aqui ao lado. Continuo de manga curta e hoje trago corações a envolverem-me o pescoço. Tenho pessoas espalhadas por aí a recordarem-me de sítios e aventuras que agora me custa a acreditar que vivi. Tenho várias viagens na agenda até final do ano, todas a sítios onde nunca fui. Afinal o dia não está assim tão mal.

22.10.12

A minha estratégia sempre foi a mesma: ignoro, faço de conta que não existe, não quero saber o que faz, não quero saber onde anda, não quero saber com quem anda. Deixo de trilhar os caminhos habituais para que não nos cruzemos. Fico no meu canto e tranco-o a sete chaves. Não entras e eu não te procuro. Transformo-me num ser silencioso e invisível. Sempre fiz isto nos fins, quer naqueles que me impuseram, quer naqueles que eu quis. 

Não sou de meias medidas, nunca fui. Corto o mal pela raiz, sem deixar espaço para negociações nem aproximações. Se me queres longe de mim e eu te quero perto, não sei lidar com o ter-te ali ao lado e não te poder tocar. Se fui eu que me cansei e tu tudo fazes para te manteres no meu centro de movimento, fujo para longe também.

Até ao dia em que fugi e te queria ter por perto e tu me querias ter perto. Nem palavras escritas nem ditas, nem fotografias nem novidades. Depois do tudo o nada. Os olhos estranharam a tua ausência, os ouvidos quiseram tanto ouvir a tua voz (aquela voz). Resisti a tudo. Nem as fotografias revi. E uns tempos depois, do nada, meia dúzia de palavras que me levaram de novo até àqueles dias e noites, até às conversas intermináveis, até às confissões que não se podiam fazer. Tudo ali concentrado numa torrente de lágrimas que veio, aparentemente, do nada. 

...

grito mudo

É capaz de ser uma contradição, mas tive vontade de voltar a escrever numa altura em que até tempo para respirar me falta. Tenho ali um prazo a rebentar tipo bomba-relógio, tenho mil e uma pequenas coisas que me batem à porta a toda a hora, outras que me entram sem apelo nem agravo pela caixa de correio e tenho um telefone que insiste em tocar. Já o disse há muito tempo e continua a fazer sentido: escrever é um grito mudo. E penso que por isso, nestes momentos críticos em que se esperaria que não perdesse tempo com palavras no éter, escrever, nem que sejam frases sem grande importância, me ajuda a manter a sanidade mental e o equilíbrio. Em vez de abrir a janela e gritar alto e bom som, venho aqui, escrevo meia dúzia de linhas, e sinto-me muito mais leve e a acreditar que vou cumprir os prazos todos. Inspira, expira e continuemos a riscar tarefas da lista.

ou 8 ou 80

Há um ano fazia as malas para ir para o verão, este ano faço as malas para ir para um inverno a sério. Não, o nosso por agora não é a sério, pelo menos para mim. Bem que ouço outros a queixarem-se do frio, enrolados em malhas e golas altas. Continuo de manga curta e de casaco leve, e mesmo assim tenho calor. Os mais próximos recordam-me que sou conhecida por ter o termostato avariado e eu sou obrigada a concordar quando vou na rua e sou a única pessoa de manga curta. O ano passado punha o biquíni na mala, este ano ponho as botas de pêlo. Bom, o biquíni também vai. Parece que há um lago por aqueles lados onde é suposto tomar banho, enquanto a temperatura ronda os zero graus. Eu, que ponho o dedo grande do pé na água do mar da praia da Barra e fujo a sete pés, a tomar banho num lago rodeado de temperatura nenhuma. A ver vamos.

olhó passarinho

colorful street
Às vezes vou por aí sozinha, de máquina guardada na carteira, sem destino definido nem intenção. Pode ser só uma caminhada pelos arredores que só o são na geografia, já que conto pelos dedos de uma mão as vezes que por lá passo por acaso. Ou podem ser umas horas a fazer de conta que sou turista em terra própria. Nos dias em que me transformo numa forasteira caseira (re)descubro caminhos e paisagens, fotografo pormenores sem querer saber de quem passa e ignorando os seus olhares questionadores.
Estes são passeios solitários e só assim fazem sentido. O meu egoísmo trava-me certas vontades e movimentos. Não sei fotografar rodeada de gente, seja esta gente conhecida ou desconhecida. Tirar fotografias tem o seu quê de íntimo. É encontrar aquele ângulo que para mim faz mais sentido, é registar aquele conjunto de cores que me fazem sorrir, é estabelecer uma ponte invisível com os outros. Na verdade, penso que para mim tirar fotografias é ser apenas eu, sem subterfúgios, sem preocupações, sem receios. E eu não sei ser assim transparente rodeada de gente.

21.10.12

mais eu

Abandonei este blog há pouco menos de um ano, por motivos de força maior, provocados por uma pessoa menor. Tanto aconteceu entretanto, tantas pessoas novas, tantos sítios desconhecidos e outros a que regressei à espera do mesmo, tendo sido surpreendida por muito mais. Os sentimentos trocaram-me as voltas e as sensações trocaram-me as vontades. Pouco menos de um ano depois volto eu, mas com o eu é diferente. Não totalmente diferente, que o cerne continua cá, mas o eu mudou. Penso que é mais genuíno agora, como se as camadas da cebola se tivessem soltado e o núcleo estivesse agora mais exposto, mais à vista, sem necessidade de se esconder. Acho que sou mais eu agora, é só isso.

olha eu, olha eu!

Tentei reabrir outra casa. Primeiro foi o raio da password, não me lembrava dela. Depois de a muito custo se fazer luz e conseguir entrar no blog abandonado há uns meses vi que estava tudo fora de sítio, uma espécie de casa com a mobília toda desarrumada e outra tanta a faltar. Apetece-me ter um sítio para escrever, mas falta-me o tempo para tratar das arrumações. Vai daí, voltei à casa anterior, que me traz tão boas recordações. 

Tinha saudades disto! Rosa e os blogs desde o longínquo ano de 2003.

29.12.11

Quando há umas semanas escrevi que esta viagem iria deixar marcas, nem eu sabia a extensão que estas iam ter. E, na verdade, acho que ainda agora não tenho noção das consequências. Mas sei que só não serão maiores se eu não tiver (criar) oportunidade de fazer o que bem me apetece agora. Não me apetece deixar esmorecer esta vontade de fugir à rotina. Dizem-me que não sou dada a emoções e sentimentos frios ou mornos. Já desconfiava, mas parece que hibernei por uns tempos e agora acordei numa espécie de explosão. Sempre disse que os climas quentes e tropicais despertam em nós sentimentos que desconhecemos ter e nos deixam mais sensíveis e abertos à descoberta. Parece que confirmo a teoria na própria pele.

O regresso tem sido cheio de trabalho, de pessoas, de (re)encontros e de dias preenchidos. Tenho agora uns dias para ocupar como muito bem entender, sem obrigações e com todo o tempo do mundo.

28.12.11

a descrição parece assustadora, mas a saia é um mimo

Mini-saia, padrão viperino, com folhos.
Em Dili dormia uma média de 4-5 horas por noite. Cheguei cá e passei a dormir ainda menos. Hoje foi a primeira noite em que dormi mais de 4 horas desde que regressei. E não, não me tenho sentido cansada, mas o que é que se faz quando se acorda às 5 da manhã e não se consegue dormir mais?

27.12.11

os preconceitos são tramados

Eu, pessoa que se considera de mente muito aberta, descobri que tenho preconceitos enraizados até ao tutano. Achava eu (mas porquê?, pergunto-me agora) que qualquer pessoa que usasse farda era desprovida de inteligência, sensibilidade e tacto. OK, crucifiquem-me que eu mereço. Vai daí, o destino que é matreiro e irónico, quem é que me oferece como companheiros e amigos numa terra longínqua e algo inóspita? Um grupo de militares. Tratamento de choque contra preconceitos parvos. E não é que foi um tratamento eficaz? Se foram escolhidos a dedo não sei, mas a verdade é que aquela minha ideia de que todos (sublinhe-se o todos) os militares são totós, caiu por terra em três tempos. Foram a melhor companhia que podia ter tido, fizeram-me sentir segura, trataram-me quando precisei, ouviram-me em noites de lágrimas e tristeza, lamberam-me as feridas, fizeram-me rir e fizeram-me sentir em casa quando estava do outro lado do mundo. Se há umas semanas alguém me dissesse que eu iria passar horas na cumbersa com um amigo militar que está do outro lado do mundo, e que me iria rir em frente a um computador enquanto partilhamos disparates saudáveis e pensamentos mais sérios, eu iria sem qualquer sombra de dúvida fazer um sorriso amarelo.

afinal tinha (tenho) saudades e não sabia

Do óbvio: amigos e família.

Do acessório: conduzir (eu que nem gosto de conduzir mal me sentei ao volante senti uma liberdade difícil de explicar), chá a escaldar (limão e gengibre continua a ser o favorito), cozinhar, iogurte grego (com mel, canela e framboesas), andar de botas, usar saltos, passar horas seguidas ao telefone, pintar as unhas, trocar a cor das unhas dia sim dia não, poder usar o roupeiro todo (e não apenas aquela meia dúzia de peças que levei comigo), écharpes, banhos de imersão que duram horas, usar aquela parafernália de produtos para o cabelo, usar os cremes todos e mais alguns, pintar os olhos, pôr rímel, ir ao cabeleireiro, ter net a uma velocidade normal.

Do que tenho saudades agora: os amigos que lá ficaram, o calor que sufoca, os sorrisos, sair de casa de hawaianas, ver carros da ONU, ter que olhar para a rua com mil cuidados com receio de cair num buraco (sim, é verdade, esteve perto de acontecer; não houvesse dois braços fortes de cada lado a agarrar-me e ainda hoje estaria em Díli, com todos os meus ossinhos partidos), os leitões e as cabras na praia, as festas privadas, os sumos naturais, o quarto 304, o beef and ginger fried rice, as viagens alucinadas de táxi, a mousse de abacate, as mangas, as conversas alucinadas, a praia dos Portugueses, o andar de cima da discoteca...

ninguém merece

No dia a seguir a ter regressado tive duas arguições, logo de manhãzinha, não fosse eu esquecer-me de como é o ritmo de trabalho por estes lados. Amanhã mais duas. Ainda estou a tentar acabar de ler uma das teses, mas não está fácil.

26.12.11

(tenho cá para mim que ainda é efeito do jet lag)

Alguém que me diga que não fui a única a chorar no último episódio da Anatomia de Grey.
Tão poucas vezes o chavão "ano novo, vida nova" fez tanto sentido.

No fim do ano, e sem pensar muito nas consequências, virei a vida do avesso.
A máquina fotográfica que podia mergulhar comigo morreu em Timor. Foi para debaixo de água e sofreu uma espécie de afogamento sem retorno. Este acontecimento foi uma boa desculpa para comprar um brinquedo novo, que já namorava há uns meses, e que foi a minha prenda de Natal de mim para mim. Agora só me falta encontrar uma oportunidade neste inverno para poder levá-la a mergulhar (ou bem que é na piscina ou bem que terei de me mudar para climas menos agrestes; está bom de ver que eu voto na segunda sem qualquer hesitação!). Enquanto essa oportunidade não surge vou-me divertindo a tirar fotos panorâmicas.

25.12.11

dos fins

Apesar dos aborrecimentos inerentes, dá-me sempre um certo descanso que, depois de um ponto final numa relação, o outro reaja de forma estapafúrdia. Caso tivesse alguma dúvida sobre a decisão que estava a tomar (coisa que não me lembro de alguma vez ter acontecido, não são decisões que tome de ânimo leve), essas dúvidas dissipar-se-iam depois das reacções impensadas, absurdas e ruins da outra pessoa.
Dia 24 já se foi e eu confesso que não foi um dia muito diferente dos outros. Os sonos trocados não ajudaram à festa e a quase ausência de espírito natalício deixou-me à margem dos sentimentos habituais da época. Parece que é preciso tempo e o ambiente certo para que esse espírito se entranhe em mim.

Vivi o antes do Natal com quase 40ºC, sem quase me lembrar que estava já em Dezembro. Era trazida para o calendário real sempre que me cruzava com uma árvore de Natal. Ria-me perdidamente sempre que tirava fotos em frente ao símbolo natalício de mini-saia e chinelos. Depois, fui retirada ao calor e ao sol e, quando dei por mim, estava de casaco e cachecol em frente a uma lareira. Ainda tive esperança que esta mudança abrupta tivesse algum impacto em mim, e me trouxesse instantaneamente pensamentos vermelhos, brancos e com flocos de neve, mas nada de nada.

Apetece-me agora pensar no balanço do ano e escrever o nome na agenda nova. Se no ano passado por esta altura tinha a sensação de que este ia ser um ano importante, nunca eu podia imaginar o que me esperava (parece que o encanto da nossa existência é mesmo esse, pelo menos para quem é dado a surpresas). Foi um ano cheio. Houve momentos muito bons, houve momentos que agradecia não terem acontecido. Houve momentos de espanto, de coração cheio, de lágrimas, de arrependimento, de saudade e de tanta coisa mais.

24.12.11

o presente que mais gozo me deu oferecer este Natal

Conseguir fazer chegar um bolo-rei quentinho ao outro lado do mundo.
[Já no aeroporto, disse-me ela que às vezes as pessoas que aparentam ser mais fortes são as mais sensíveis. Acrescentou que sabia do que falava porque era igual a mim. Eu, que estava a tentar controlar a respiração de forma a não deixar escapar nenhuma lágrima, tentei sorrir, mas não consegui e também não consegui acalmar o mar que se seguiu.]

feliz Natal :)

23.12.11

sequelas

Idealmente ninguém magoaria ninguém e tudo seria muito mais simples. Mas a vida é feita de encontros e desencontros e raramente a pessoa com quem queremos estar é a pessoa que quer estar connosco. De vez em quando o universo entra em sintonia e parece que a coisa se dá, mas é pouco frequente.
Já me lançaram minas dentro do peito que devastaram tudo, sem deixar ponta de sentimento onde me agarrar. Uma espécie de floresta totalmente queimada sem uma única erva daninha verde para contar a história. E é por ja ter passado por isso que sei o quanto custa a quem está do outro lado, quando somos nós que colocamos o ponto final. Também é por essa razão que nunca um fim meu é uma estratégia ou uma jogada. O meu fim é isso mesmo: um final sem margem para negociação. Não me venham com conversas de ser muito radical e de me estar pouco importando com o outro. Houve uma altura na minha vida em que era dada a paninhos quentes. Não resolvia o que havia para resolver no imediato, andávamos ali numa espécie de morte lenta e anunciada que nunca mais se dava. Magoava-me por prolongar o que não tinha hipótese de sobrevivência e feria o outro, enquanto lhe criava uma esperança falsa.

22.12.11

Não consigo colocar em palavras o que foi o meu último mês e meio. Por mais que escolha as palavras, que as ordene e reordene, não consigo explicar o que vivi.

Ontem, de volta ao meu mundo habitual, sentia que tinha vivido durante as últimas semanas numa realidade paralela ou numa outra dimensão, e que agora tinha sido de novo remetida à minha vida normal, sem apelo nem agravo. Isto no fundo foi uma espécie de Lost: caí na ilha sem saber ao que ia, estranhei, entranhou-se, saí da ilha e agora o que me apetecia mesmo era voltar.

O que eu gostava de ser uma pessoa menos complicada.

o regresso



(ilha de Jaco, Timor-Leste)

Andei, até há bem poucos dias, de top sem mangas, mini-saia e dedos dos pés de fora. Fui a praias paradisíacas e mergulhei em águas quentes. Chego cá e sou recebida com menos uns 35ºC. Não consigo sentir espírito de Natal nenhum. Numa tentativa desesperada, meti-me num centro comercial, na esperança de que se não fosse de outra forma, o consumismo do qual estive afastada durante estas semanas se apoderasse de mim, e eu sentisse, pelo menos, essa espécie de espírito natalício. Nada de nada. Não tive vontade de comprar nada, as filas nas lojas horrorizaram-me e o frio que sentia não passou. Não sou capaz de comprar casacos de lã quando o que me apetece é estar de braços ao léu sob um sol abrasador.

19.12.11

há sempre uma primeira vez para tudo

Chorei baba e ranho enquanto fazia a mala.

[correcção e actualização: chorei baba e ranho durante dois dias seguidos]

16.12.11

Não sou insegura.
Correcção: não sou normalmente insegura. Quando me sinto insegura sei que o meu mundo foi abanado por um sismo de intensidade considerável. Esqueço-me de quem sou, de quem já fui, daquilo por que já passei, dos risos, das lágrimas. Esqueço-me de tudo e sinto-me um ovo sem casca, ali à mercê da vontade de uma determinada pessoa. E detesto, oh como detesto, esta sensação de vulnerabilidade que nada tem a ver com a pessoa que (normalmente) sou. Reajo mal a esta insegurança que toma cada parte do meu corpo e torno-me agressiva e especialmente reactiva. Ai, que isto me passe depressa, que se há coisa que me desespera (e me espanta, e no fundo, me agrada; uma espécie de sabor agridoce) é sentir-me assim, sem ser capaz de ser racional. Vulnerável e frágil, com a vida assente em sentimentos perdidos no ar, sem saber se (aquele) alguém lhes dá a mão ou não. Como é que uma pessoa saída do nada, que nada sabe de mim, provoca esta devastação interior?

15.12.11

conflitos internos é comigo

[Devia virar costas, fazer de conta que me estou pouco importando, que sim, que sou aquela pessoa sem escrúpulos e sem preocupações que muito provavelmente imagina que sou, que não há mais nada além de uns momentos bem passados. E sim, concluo que é o melhor caminho, que esta postura me vai evitar dissabores maiores, que me vai evitar dois ou três dias de desespero maior (que eu conheço-me bem e sei a devastação que aqui vai estar daqui a meia dúzia de dias) e sabe-se lá quantos de desespero já à distância. Respiro fundo. Está decidido. Fazer de conta que não tem interesse é a melhor opção.

Depois vejo-o e cai tudo por terra. Fingir sentimentos não é para mim.]

14.12.11

Continuo admirada com as surpresas que esta viagem tinha reservadas para mim. Queria eu vir para cá para colocar mais um alfinete no meu mapa de viagens e juntar mais umas fotos ao álbum e sou apanhada de surpresa por uma torrente de novidades e emoções. A menos de uma semana do regresso estou semi-desfeita por dentro. Como é habitual em mim tento lidar com tudo de forma racional e visto a máscara de pessoa forte que não se deixa ir abaixo, mas debaixo da carapaça há lagrimazitas a querer ver a luz do dia. E se, apesar de tudo, enquanto estou deste lado estou bem, não consigo sequer imaginar o que vou sentir quando der por mim do outro lado do mundo.

12.12.11

ontem tive a viagem de táxi mais alucinante de que tenho memória

Éramos três. Perguntámos ao taxista se nos levava a um bar cá do sítio. Que sim, que sim, que levava. Depois do preço regateado (sim, há que regatear sempre o preço do táxi) entramos no táxi. Já sentadinhas no banco de trás vemos chegar um amigo do taxista, que se senta ao lado dele (não era a primeira vez que acontecia, já não estranhámos). Entretanto taxista levanta-se e sai. Ficamos as três no banco de trás e o amigo do taxista à frente. O amigo olha muitas vezes para trás, para nós, com um ar entre o espantado e o esfomeado. Esperamos pacientemente (eu sei que noutro contexto teríamos saído do carro, mas em Timor tudo é diferente e difícil de explicar a quem não conhece o ambiente!). Minutos depois o taxista regressa. Pensamos nós que se vai iniciar a viagem. Pensamento errado, claro está. Chegam mais dois amigos da taxista. Um abre a porta de trás e olha para nós com ar espantado. Depois de uns segundos de medição de forças com o olhar, o moço fecha a porta do carro e encaminha-se para a mala do carro. Nós dentro do carro sem saber o que pensar. Abre a mala do carro e deita-se. E foi aqui que eu comecei a rir para só parar uma boa meia hora depois. Fui às lágrimas de tanto rir (coisa que não é difícil em mim, mas que ontem foi quase imediata). Rapaz deitado na mala do carro fecha a mala. Entretanto o segundo amigo do condutor aproxima-se da bagageira do táxi, abre a dita cuja e salta lá para dentro. O que estava deitado na mala senta-se e eis o ponto da situação:

- 3 portuguesas a rir como se não houvesse amanhã no banco de trás do carro
- um motorista
- o amigo do motorista sentado ao lado dele
- dois amigos do motorista sentados na mala, que está aberta

Arrancamos. Música aos berros, como é costume nos táxis cá do sítio (quando voltar e tiver net a uma velocidade normal prometo partilhar um vídeo). O motorista e o amigo do lado por várias vezes puseram meio corpo do lado de fora da janela para falarem de forma mais audível com os dois moços que seguiam sentados em amena cavaqueira na mala do carro. Sempre que aparecia uma curva mais pronunciada o taxista acelerava e o carro gemia ruidosamente. A dada altura o motorista deve ter achado que ainda era pouca emoção para uma viagem de táxi e decide fazer pequenos "esses". Quanta emoção! Entretanto chegámos, sãs e salvas. Os moços da mala passaram para o banco de trás e seguiram viagem alegremente.

por aqui tudo isto é normal

Para mais tarde recordar:
- há alunos que afiam o lápis com uma catana (ninguém me contou, a coisa deu-se à minha frente);
- há um funcionário responsável por abrir as portas das salas de aula (é a única função do dito funcionário). Há dias o funcionário não apareceu de manhã e mais ninguém tinha a chave (aqui tudo isto é normal). Os alunos arrombaram a porta com um pé de cabra;
- uma professora pediu a uma funcionária que estava a varrer o corredor para varrer a sala de aula. A funcionária explicou que a função dela era varrer aquele corredor, e apenas aquele (e não salas de aulas).

o destino a tentar dar-me sinais

A única explicação que eu encontro para exactamente um mês depois tornar a torcer o mesmo pé quando passava precisamente no mesmo sítio é só uma: o destino está a tentar dizer-me alguma coisa e eu não estou a perceber o quê. Se alguém entender alguma coisa destes sinais do além é favor iluminar esta alma desorientada.