4.12.12

aladino

[O universo tem um certo espírito de contradição. Passa tempos e tempos sem nos dar ouvidos, nem olhos, nem nada. Depois, um dia, sem razão aparente, lembra-se de nos dar aquilo que mais queremos. E já que se lembrou de nós, e estamos ali à mão de semear, não nos concede apenas um dos desejos, concede-nos logo dois ou três, para ficarmos satisfeitos e de barriga e espíritos cheios. A verdade é que, na maior parte das vezes, esses desejos não são conciliáveis, mas o universo não sabe porque andava distraído, e nós, que nunca achámos que as utopias pudessem ser reais, não doseámos os sonhos e as vontades. Deparamo-nos então com contradições de difícil solução. Ainda assim, antes tudo que nada.]

e há dias em que até as nuvens são bonitas! ;)

I have a thing for clouds

3.12.12

Passei o sábado no local de trabalho a trabalhar. Saí de casa cedo, como se de um outro dia qualquer se tratasse. Não tive que esperar pelo elevador e pude estacionar à porta do departamento. Cá dentro eu e só eu. Não pensei em mais nada, a não ser no capítulo que tinha para escrever. Não fui passear, não saí com amigos, não arrumei a casa. Tinha que ser naquele dia, que era o último do prazo. Ah, espírito português esse de deixar tudo para o último dia. Não, não houve mesmo tempo antes. Não foi porque não me apetecesse, não foi porque tivesse aproveitado mal o tempo. Foi simplesmente porque nas semanas anteriores não estive cá, porque há aulas para dar e trabalhos para corrigir, porque havia outros artigos para escrever. Organizei-me para que no prazo limite o capítulo estivesse escrito. Como me organizei para ter três dias, que terminam na próxima quarta, para acabar de escrever outro capítulo. Sinto-me a trabalhar numa linha de produção, tudo cronometrado ao minuto. 

Hoje de manhã recebi um mail a informar que o prazo que terminou no sábado tinha sido prolongado por mais 2 meses. Pára tudo. Senti que gozavam comigo. Eu dormi pouco, comi mal, passei um sábado e feriado no local de trabalho, enviei o trabalho dentro do prazo e afinal tinha até final de Janeiro para entregar o raio do capítulo? Serei só eu a sentir que há aqui algo de errado? Estarei a competir com pessoas que terão mais dois meses para escrever, enquanto eu, porque cumpri o prazo, não os tenho? Tenho outro trabalho para escrever até quarta, que poderia ter começado no sábado. Não o fiz porque este prazo terminava no sábado. Ah, não, afinal termina a 31 de Janeiro! Quem me conhece sabe o quanto eu sou exigente com horários e prazos e cada vez mais acho que tenho muita razão. Gente que não cumpre nem uma coisa nem outra, ide para um sítio que eu cá sei e não digo, porque tenho o espírito natalício na ponta dos dedos, e isso me coíbe de dizer palavrões.

natal é onde uma mulher quiser, nas unhas também!

Há um ano estava a viver um tórrido Verão e quando cheguei, menos de meia dúzia de dias antes do Natal, fui incapaz de me deixar levar pelo espírito natalício. O meu Natal não é feito de prendas, nem de religião. É feito de luzes, cor, boa disposição e pessoas que se querem perto. Este ano, envolvida em mil e uma coisas e com planos bem interessantes para poucos dias depois do dia 25, a vontade para me deixar envolver pelo espírito natalício andava na mó de baixo. Mas ontem fui possuída pela fúria de montar a árvore de Natal. Já há árvore, já há luzes, já há cor na sala. Talvez efeito disso as minhas unhas estão assim, a combinar com a estação.
xmas in my fingertips

(De manhã publiquei a foto das unhas natalícias. Ao almoço sou interpelada por alguém que me diz, entre sorrisos: "Conheço essas unhas!" Caso para ter medo ou ficar feliz por ser famosa pelas unhas? :D)

1.12.12

aaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhh

Já está!
Bem-vindo fim-de-semana!

de como se começa um fim-de-semana

É sábado. É feriado.
Estou na universidade desde as 9 da manhã.
O capítulo avança a bom ritmo.
Com sorte em vez de terminar isto às 23.59, ainda consigo terminar uns 3 minutos e meio antes.

30.11.12

acender uma velinha ajuda?

Quatro artigos submetidos no mesmo dia. O dia foi hoje. Estou semi-atordoada, mas viva. Um capítulo que deve ser submetido até amanhã. Sobre o capítulo devo dizer que sei qual o tema (melhor que nada) e confio que até amanhã à meia-noite serei iluminada por uma luz divina e tudo se resolverá.

29.11.12

(nem pareço eu)

green

A saber esperar, a dar tempo ao tempo, a saborear cada pequeno momento...

sinónimo de felicidade

Daqui a um mês estarei no meu lado preferido do mundo.

pessoas que quero longe de mim

feira de março

Ali está ele, aparentemente bem-disposto, conversador e amistoso. Imagino que é assim que os restantes o vêem. Eu conheço-lhe o lado lunar. Uma pessoa vingativa, mesquinha, sem carácter, sem princípios e sem limites. Fecho-me em mim e só me dou a quem me inspira confiança. Podem achar-me altiva ou insegura. Não me preocupo. Conheço as minhas razões e apenas isso me basta. Os mais atentos percebem-me, ainda que sem saberem as razões de eu (ou sabendo, sei lá), naquele momento, não ser eu. Assustam-me estas pessoas que se transfiguram, que são o Dr. Jekyll e o Mr. Hyde na vida real. Há um ano ele foi o Mr. Hyde e, para mim, é impossível algum dia voltar a ser o Dr. Jekyll.

28.11.12

living library

Tenho à minha frente um rapaz sérvio que me conta que com sete anos era acordado de madrugada pela mãe. A comida era racionada e só era dado um pão a cada pessoa presente. A mãe acordava o filho mais velho, uma criança na altura, e de madrugada juntavam-se à fila para poderem levar dois pães para casa. Depois disso ele ia para a escola e tudo se repetia no dia seguinte. Contou-me, também, de como uma vez na fronteira teve que fazer de conta que a mãe não era mãe, e de como a mãe lhe explicou que poderia ser aquela a última vez em que estavam juntos. Falou-me de como o pai nunca recuperou depois da guerra e de como a mãe se movimentou para que os filhos não passassem fome e estudassem. Ele, hoje adulto, é um doce. Sereno, com uns olhos azuis profundos e um riso original e contagiante. Quando lhe perguntei se aqueles anos de dificuldades, que se prolongam até hoje, lhe condicionam a felicidade, respondeu-me que sim, de forma sincera e sem dramas, com aquela calma que lhe conheci desde o primeiro momento. Eu, pouco dada a contactos físicos próximos com quase desconhecidos, tive vontade de o abraçar de cada vez que falámos e fiquei (ficámos) de lágrimas nos cantos dos olhos na hora de dizer adeus.

Lemos jornais e notícias na net, vemos documentários, mas ouvir as palavras alto e bom som e ver os olhos de quem as diz dá-lhes a dimensão real que lhes falta noutros contextos. E cada vez mais me questiono se aquilo que faço neste momento é efectivamente o que quero continuar a fazer (e já sei a resposta).

27.11.12

sem obrigações

Comecei a tirar fotografias por acaso e descobri que era algo de que gostava. Não tenho quaisquer ambições. Ando de máquina(s) na mão e na carteira porque me dá gozo congelar momentos e pessoas. Também porque a memória tem quase sempre prazo e de vez em quando gosto de olhar para a sombra dos meus caminhos, e as imagens facilitam-me essas caminhadas na penumbra.

Descobri, mais tarde, que tirar fotografias é o melhor quebra-gelo de que tenho memória e que é também uma arma de defesa perfeita. É uma espécie de camuflado que me protege e isola de situações que não me agradam e nas quais não me quero envolver. Ou melhor, envolvo-me, mas de forma diferente, enquanto observadora, com uma máquina em frente aos olhos.

Perguntam-me frequentemente se não quero rentabilizar a paixão. Mas eu acho que as paixões não se vendem. Encontram-se e tratam-se bem. Já tive um hobbie que passou a algo mais. Não vou dizer que foi uma má experiência, porque na realidade não o foi, mas as paixões deixam de ser avassaladoras quando passam a ser obrigações. Não tiro fotografias todos os dias, não tiro fotografias a quem não gosto, nem a sítios que não me despertem sentimentos, seja lá de que tipo forem. Descobri recentemente que gosto de fotografar pessoas (acho que também descobri que afinal até gosto bastante de pessoas e que não sou tão associal como imaginava), mas gosto de fotografar as minhas pessoas, aquelas que me provocam sorrisos, gargalhadas e lágrimas à mistura.

26.11.12

uma das preferidas da Sérvia

woman

(do outro lado)

Agora mesmo, na hora de adormecer o computador e continuar a escrita em casa, olhei para o calendário e cheirou-me ao ar quente e húmido de Timor, à chuva que se apanha com gosto nas noites que não refrescam, às caminhadas ao pôr-do-sol que se faz de tons diferentes todos os dias, aos farrapos que atravessam o céu naqueles breves minutos e que nos fazem acreditar que o mundo pode mudar de cor. Soube-me a sumo de abacate regado com chocolate e a arroz com gengibre, soube-me à manga mais doce que provei até hoje. Senti a temperatura da água azul e transparente que por cá não há e o sol que nos muda de cor em três tempos. E lembrei-me que há um ano não sentia borboletas no estômago porque toda eu era uma borboleta e ainda (quase) ninguém sabia. Há um ano trocávamos mensagens a uma velocidade que me parece impossível e contávamos os minutos para que a noite chegasse. Tanto que se passou entretanto e que me fez tão diferente do que era antes de partir.

muito mais que fazer anos

Fiz anos na Sérvia e tive direito aos parabéns cantados em já não sei quantas línguas diferentes. Houve bolo, beijos e abraços de quem estava presente e praticamente não me conhecia, e houve palavras doces de quem estava longe (uns já estão perto, outros continuam algures por aí). Houve reencontros com amigos com quem já não tinha contacto há demasiado tempo, houve marcações de encontros ao vivo e a cores para as próximas semanas. Estou ansiosa por tornar a ouvir o sotaque de alguém de quem gostei depois do primeiro olá (ainda te lembras da despedida naquela madrugada?). E é só por isto que gosto de fazer anos.

da Sérvia com saudades

like cotton

Se nos primeiros momentos desejei continuar na Suécia em vez de estar na Sérvia, depois esse sentimento desvaneceu-se e as diferenças que no primeiro impacto me deixaram de pé atrás foram, na verdade, o que mais me agradou. Novi Pazar é, pelo que percebi, uma região com características muito particulares no contexto sérvio. Num país maioritariamente ortodoxo aparece esta zona maioritariamente muçulmana, o que condiciona as regras e as vivências. Pequenos exemplos: piscina com horários distintos para homens e mulheres, discotecas e bares praticamente apenas frequentados por homens. As pessoas acabam por ser o que mais condiciona a minha apreciação dos sítios por onde vou passando. Os sérvios deixaram-me de coração a transbordar. Não é fácil encontrar tanta simpatia e tanta vontade de agradar de forma genuína. Os outros colegas de países dos balcãs foram surpresas repletas de inteligência, perspicácia e bom humor. O que eu gosto de encontrar pessoas com quem quase nem tenho de falar, com quem me entendo com trocas de olhares subtis (e outros nem tanto) e com sorrisos (mais ou menos marotos). Saudades, saudades, saudades e muita vontade de visitar um país que fica ali ao lado e do qual não sabia praticamente nada até há uma semana. Montenegro está na minha lista de sítios a visitar brevemente.

Agora é o regresso à vida real, às datas, às reuniões, aos artigos e aos capítulos, e às saudades de todos, mas particularmente de uma mão cheia de pessoas que por razões diferentes me fizeram sorrir e pensar muito.

13.11.12

telegrama

6 horas de avião + 6 horas de autocarro até Novi Pazar. O hotel fica num sítio isolado (pelo menos aparentemente, que cheguei cá já de noite e não faço ideia onde estou e só vejo escuridão), o que já vem sendo habitual nestas últimas viagens. O grupo é pequeno e aparentemente simpático, a ver vamos como isto corre.

12.11.12

agora na Sérvia

Depois da Suécia, a Sérvia. A um passo do Kosovo e a dois de Montenegro. Se há um mês me dissessem que hoje estaria a caminho da Sérvia faria um ar desconfiado. Espero que esta viagem tenha tanto de agradável como teve de inesperado.

daqueles alunos que se dispensam

Aviso os alunos que estou cá de tantos a tantos. Peço-lhes que me enviem as teses, relatórios e afins no início da semana portuguesa, para ter tempo de ler e enviar feedback. Tenho uma semana de cão com as tarefas esperadas e as inesperadas. Leio as teses que parecem não ter fim em quantidade e número de páginas, faço comentários, leio a versão número mil trezentos e quarenta e sete e as que se lhe seguem. No último dia em terras lusas, de madrugada, a ovelha negra do rebanho lembra-se de enviar a tese dela para que eu leia e corrija, como sua excelência faz questão de escrever no mail. Até que sou paciente e compreensiva, mas não quando me faltam muitas horas de sono e o cansaço já se apoderou de mim há muito. Respiro fundo e mentalmente ponho fita-cola à volta dos dedinhos para evitar mandar um mail à alminha a mandá-la para um determinado sítio.

10.11.12

Cansada. Tempo em contagem decrescente, tarefas que parecem não ter fim. Concentração em níveis que roçam o zero e a vontade também não está muito distante. Se me apanho dentro do avião até penso que é mentira.

9.11.12

ainda me lembro

Não te escrevi durante meses. Não porque não tivesse vontade, não porque não me apetecesse, não porque me faltasse inspiração ou não soubesse simplesmente o que te dizer. Ou talvez a razão seja exactamente a oposta: sabia tão bem o que te dizer. Não te escrevi porque tive de me defender. Obriguei-me a viver dentro de uma redoma que me afastasse de ti durante uns tempos, até que os ânimos serenassem e tudo fosse mais fácil, ou até que tudo fizesse parte do esquecimento e deixasse de ter vontade de te dizer fosse o que fosse, até que não me apetecesse contar-te dos céus estrelados e das paisagens planas a deixar de vista, até que não me apetecesse partilhar contigo o pôr-do-sol de todos os dias e o arco-íris que amanheceu comigo esta semana. Esse dia já devia ter chegado, mas não veio ainda. 

Há dias pus a redoma de lado por uns minutos e contei-te onde estava, o que estava a fazer, para onde ia e não precisei de te explicar porque te estava a escrever. Ambos conhecemos os porquês. Os mais próximos continuam a dizer que depois de ti houve atitudes que mudaram e que não voltei a ser a mesma. Eu sei que têm razão, mas limito-me a sorrir sem mais explicações. Não me apetece partilhar mais nada do que foram aqueles dias que contra duas vontades não vão ter repetição.

quase a ir (outra vez)

Há uns tempos ocorreu-me que seria interessante passar o aniversário em sítios diferentes, todos os anos. Infelizmente não nasci em meses que me permitam fazer isto facilmente. Ainda assim no ano passado fiz anos em Timor e este ano estou quase a partir para o sítio onde hei-de comemorar um novo aniversário.
Foi uma semana de completa desorientação, ainda não estou completamente reorganizada, ainda estou com a memória na Suécia e já é tempo de fazer a mala e tornar a ir por aí. Mas apesar de todo o cansaço, das poucas horas de sono durante esta semana e dos longos dias de trabalho, nada me agrada mais do que saltitar por aí.

7.11.12

Y
Voltámos há poucos dias, é natural que nos procuremos e falemos sob a forma de palavras escritas sempre que podemos. No entanto, este tipo de proximidade após a partida não é muito comum em gente crescida, ou pelo menos entre o tipo de gente que costumo conhecer em encontros de trabalho. É como se grande parte de nós antes de partir para a conferência deixasse a pessoa que é em casa e levasse só o académico que, vá lá saber-se porquê, se convencionou que é aborrecido e cinzento. Acho que tenho sido particularmente feliz nas últimas saídas de trabalho porque tenho encontrado e conhecido pessoas e não académicos, e também porque temos ido muito além do trabalho e temos partilhado experiências e opiniões sobre tantos assuntos que nada têm a ver com a academia. E, mais do que isso, temos partilhado sentimentos e emoções e temo-nos deixado envolver pelos outros, sem receios e sem preconceitos. Ando com as costas um pouco voltadas para o meu mundo, estou cansada de convenções e faz de conta. Apetece-me ser mais eu. Lamento (ou não lamento nada), mas não sou cinzenta, séria e chata, e não me apetece vestir esse fato apenas para agradar.

6.11.12

o meu computador é um felino

Não sou pessoa de andar com muita coisa na mão. Na viagem de regresso tinha um longo caminho pela frente antes de chegar ao aeroporto. Portanto, repeti o que já fiz várias vezes: portátil no bolso exterior da mala e quando chegasse ao aeroporto passaria o computador para a carteira. Assim, sempre eram menos umas horitas a carregar o computador. O livro, o cachecol e as luvas tiveram o mesmo destino. Chegada ao aeroporto trato do check in  e rumo à porta de embarque. Sento-me calmamente e penso para os meus botões "Estou a cair de sono, mas vamos lá ver se consigo ler um bocadinho." E foi aí que se fez luz, ou que vi a escuridão com a marcha fúnebre como música de fundo: o livro tinha ficado no bolso de fora da mala de viagem, assim como o portátil.

Pensamento número um: mesmo que não me tentem roubar o portátil e que o fecho não se abra e ele não caia simplesmente, o bolso não é almofadado e a bolsa que protege o portátil é relativamente fina; com o tratamento que dão às malas, o belo e esguio computador não vai resistir aos embates a que vai ser sujeito.
Pensamento número dois: o que é que eu tenho no portátil que não tenho em mais lado nenhum?

Bom, não podendo fazer nada, respirei fundo e não pensei mais no assunto. Quando mais de 12 horas depois voltei a pôr os olhos na mala, abri a medo o bolso exterior e pus as mãozinhas num computador inteiro e intacto. Pessoa de sorte, eu sei: tenho um computador com sete vidas.

pedaços de mim espalhados por aí

winter time
Há viagens inconsequentes e viagens que desmancham o nosso puzzle e deixam as peças fora de sítio, enquanto outras simplesmente se perdem. Timor foi como um furacão que não deixou peça nenhuma sítio, me roubou algumas e em troca me deixou peças aparentemente sem encaixe. Depois veio a Bulgária, aparentemente mais suave, mas que deixou marcas profundas e me mostrou, mais uma vez, que embora muitas vezes me sinta a viver uma realidade paralela quanto estou longe do meu ninho, this is also real life, com todas as consequências que daí advêm. À primeira vista, a estadia na Suécia reunia todas as condições para que nada corresse bem. Pelo contrário, e de forma surpreendente, tudo foi perfeito. Sinto que as peças do meu puzzle estão fora de sítio mais uma vez, mas ainda não sei explicar porquê. Ainda estou a processar tudo o que (me) aconteceu, as pessoas, as caminhadas, as partilhas, a intimidade genuína que estranhamente só se consegue com quem quase não se conhece. O que deveria ter sido só mais um curso, foi muito mais que isso. Agora estou de volta às minhas pessoas, aquelas que estão cá sempre de pedra e cal, mas faltam-me algumas das que nos últimos dias estiveram presentes quase 24 sobre 24 horas. Não foi por acaso que as despedidas foram breves, sabíamos que não seria fácil virarmos costas depois de tudo. Ontem, exausta, adormeci no sofá. Acordei de madrugada, olhei em volta e o meu primeiro pensamento foi "Onde é que eles estão?". E depois de olhar e tornar a olhar reparei que o espaço e a mobília me eram familiares. "OK, estou em casa, mas onde é que eles estão?", e só aí se fez luz e me lembrei que agora não havia mais nós nem eles, e estava cada um por aí algures. Acordada e ainda um pouco desorientada abri o mail e o que li fez-me sorrir "I can't sleep, I miss you".

sauna + lago

first sauna then swimming in the lake
Antes de ir aconselharam-me a levar biquíni, que havia um lago por perto e que iria dar jeito. "Suécia", "biquíni" e "lago" eram palavras que na minha mente portuguesa não combinavam. O dia em que cheguei foi o dia mais frio. Ou então estava a sofrer os efeitos do choque térmico e afinal não estava assim tanto frio. A verdade é que no dia seguinte tudo em redor amanheceu em tons de branco, e o gorro, o cachecol e as luvas me souberam muito bem. Capacidade de adaptação foi coisa que nunca me faltou e nestes poucos dias dei comigo a passear na floresta sem gorro nem luvas, e a não ter frio nenhum. Na última noite fizemos aquilo que nos primeiros dias nos parecia ser o máximo da loucura. Depois de uma bela meia hora de sauna (sauna com lenha, nada de saunas eléctricas como as que temos por cá; era uma espécie de lareira com formato de sauna!) saímos descalços, de biquíni ou calções, para os 2ºC lá fora, descemos as escadas e mergulhámos no lago. Sim, a água estava gelada. E, sim, gostámos tanto que voltámos à sauna e regressámos ao lago, uma e outra vez. Agora, já do lado normal das nossas vidas, comentamos entre todos o bem que nos sabia repetir a aparente loucura.

5.11.12

do calor que se gerou no frio

Os lugares são as pessoas, e este lugar junto à floresta com varanda para o lago era o que eu estava a precisar. Saudades dos olhares cúmplices, dos abraços, dos sorrisos.
glass plant frozen grass frozen morning

28.10.12

karma

Rosa faz todo o seu percurso de Portugal até ao lugar onde era esperada na Suécia sem se enganar, e depois do avião andou de metro, autocarro e comboio (alguns deles em dose dupla). Na hora combinada estava na paragem do autocarro à espera que a fossem buscar  e a levassem para o hotel junto ao lago. Foram buscá-la e enganaram-se no caminho para o hotel!

da Suécia em jeito telegráfico

Às 5 e meia da manhã estava no aeroporto. Às 6 da tarde tinha chegado ao destino. Às 7 já tinha jantado. Parece que a primeira reunião de trabalho é daqui a uma hora, mas estamos todos mais mortos que vivos. Vamos lá ver se nos aguentamos acordados até lá (e durante, vá, é capaz de dar jeito). Parece que a varanda tem vista para o lado, amanhã hei-de comprovar. Hoje quando cheguei era noite cerrada (o que eu gosto de sítios que anoitecem de manhã). Lá fora está um frio dos diabos (e o que eu aprecio o Inverno, hã?), mas tanto me assustaram com o frio que acho que estava à espera de pior! A cereja no topo do bolo é a cela, perdão, o quarto, onde vamos ficar. Sim, plural, tudo ao monte e fé em deus. A net é assim um bocadinho lenta. Enfatize-se que "bocadinho" é eufemismo. Perante isto, e depois de estar há poucas horas por estes lados ocorre-me dizer que tenho saudades do meu quarto de Timor (aquele que tanto maldisse quando lá cheguei). Lá tinha um quarto só para mim com o triplo do tamanho do que tenho agora repartido por vários.

E a primeira impressão da Suécia é esta, humpf!

Ah, esqueci-me de dizer que até agora os suecos foram todos muito simpáticos e que não me perdi em lado nenhum, o que para alguém que tem o sentido de orientação de uma anémona, é indicação de que tudo está muito bem sinalizado.

27.10.12

On the road

A viagem começa quando saio porta fora de mala na mão, independentemente de ir directamente para o destino ou não. Esta já começou.

Não sei se estou mais cansada por tudo o que teve que ser feito nas últimas semanas, se mais feliz por durante uns dias fazer um intervalo na vida comum. Tenho ainda umas horas pela frente antes de um longo dia de viagem. Conseguir chegar ao destino é o primeiro desafio desta viagem diferente.
No ano passado por esta altura fazia a mala para ir para o Verão, este ano é ligeiramente diferente.

26.10.12

quase de partida


- todas as teses e mais algumas lidas e corrigidas (estou assim, como dizer?, qual a melhor palavra? Não, cansada é pouco. Exausta. É isso mesmo!)
- capítulo revisto
- projecto lido e revisto, relatório idem idem aspas aspas
- candidatura 1 submetida
- candidatura 2 por submeter

Se não me engano, depois da candidatura 2 tratada, posso desligar o computador, pegar na tralha e ir fazer a mala. Há que procurar cachecóis, gorros e casacos que aqui não uso porque morro de calor. Não sou dada a climas frios e não sei se esta viagem me vai agradar. Corre entre os amigos que viagens a países civilizados é coisa que não me entusiasma. Não é totalmente verdade, mas também não é totalmente falso. Mudaram-se-me as preferências de há uns tempos para cá. Timor mudou-me para melhor e deixou cá dentro um bichinho que não me parece que tão cedo desapareça.

oh yeah


Há dias em que parece que tudo se alinha para sermos mais felizes. Não gosto de celebrar por antecipação, mas se as boas notícias de hoje se vierem mesmo a concretizar só vos digo que ficarei com um sorriso de orelha a orelha para tão cedo não desaparecer.

23.10.12

o lado bom

Almoço a correr no gabinete entre páginas de uma tese que se quer lida até ao início da tarde. Manhã passada em reuniões e correrias. Ainda é terça, mas sexta parece mais próxima que o habitual. Vejamos o lado bom dos dias que correm em ritmo acelerado: tenho uma janela só minha virada para o verde e o azul. Vejo o pôr-do-sol como poucos. De manhã muito cedo, naquela hora em que o andar de cima ainda é todo meu, tenho bandos de gaivotas a pousar e a levantar voo mesmo aqui ao lado. Continuo de manga curta e hoje trago corações a envolverem-me o pescoço. Tenho pessoas espalhadas por aí a recordarem-me de sítios e aventuras que agora me custa a acreditar que vivi. Tenho várias viagens na agenda até final do ano, todas a sítios onde nunca fui. Afinal o dia não está assim tão mal.

22.10.12

A minha estratégia sempre foi a mesma: ignoro, faço de conta que não existe, não quero saber o que faz, não quero saber onde anda, não quero saber com quem anda. Deixo de trilhar os caminhos habituais para que não nos cruzemos. Fico no meu canto e tranco-o a sete chaves. Não entras e eu não te procuro. Transformo-me num ser silencioso e invisível. Sempre fiz isto nos fins, quer naqueles que me impuseram, quer naqueles que eu quis. 

Não sou de meias medidas, nunca fui. Corto o mal pela raiz, sem deixar espaço para negociações nem aproximações. Se me queres longe de mim e eu te quero perto, não sei lidar com o ter-te ali ao lado e não te poder tocar. Se fui eu que me cansei e tu tudo fazes para te manteres no meu centro de movimento, fujo para longe também.

Até ao dia em que fugi e te queria ter por perto e tu me querias ter perto. Nem palavras escritas nem ditas, nem fotografias nem novidades. Depois do tudo o nada. Os olhos estranharam a tua ausência, os ouvidos quiseram tanto ouvir a tua voz (aquela voz). Resisti a tudo. Nem as fotografias revi. E uns tempos depois, do nada, meia dúzia de palavras que me levaram de novo até àqueles dias e noites, até às conversas intermináveis, até às confissões que não se podiam fazer. Tudo ali concentrado numa torrente de lágrimas que veio, aparentemente, do nada. 

...

grito mudo

É capaz de ser uma contradição, mas tive vontade de voltar a escrever numa altura em que até tempo para respirar me falta. Tenho ali um prazo a rebentar tipo bomba-relógio, tenho mil e uma pequenas coisas que me batem à porta a toda a hora, outras que me entram sem apelo nem agravo pela caixa de correio e tenho um telefone que insiste em tocar. Já o disse há muito tempo e continua a fazer sentido: escrever é um grito mudo. E penso que por isso, nestes momentos críticos em que se esperaria que não perdesse tempo com palavras no éter, escrever, nem que sejam frases sem grande importância, me ajuda a manter a sanidade mental e o equilíbrio. Em vez de abrir a janela e gritar alto e bom som, venho aqui, escrevo meia dúzia de linhas, e sinto-me muito mais leve e a acreditar que vou cumprir os prazos todos. Inspira, expira e continuemos a riscar tarefas da lista.

ou 8 ou 80

Há um ano fazia as malas para ir para o verão, este ano faço as malas para ir para um inverno a sério. Não, o nosso por agora não é a sério, pelo menos para mim. Bem que ouço outros a queixarem-se do frio, enrolados em malhas e golas altas. Continuo de manga curta e de casaco leve, e mesmo assim tenho calor. Os mais próximos recordam-me que sou conhecida por ter o termostato avariado e eu sou obrigada a concordar quando vou na rua e sou a única pessoa de manga curta. O ano passado punha o biquíni na mala, este ano ponho as botas de pêlo. Bom, o biquíni também vai. Parece que há um lago por aqueles lados onde é suposto tomar banho, enquanto a temperatura ronda os zero graus. Eu, que ponho o dedo grande do pé na água do mar da praia da Barra e fujo a sete pés, a tomar banho num lago rodeado de temperatura nenhuma. A ver vamos.

olhó passarinho

colorful street
Às vezes vou por aí sozinha, de máquina guardada na carteira, sem destino definido nem intenção. Pode ser só uma caminhada pelos arredores que só o são na geografia, já que conto pelos dedos de uma mão as vezes que por lá passo por acaso. Ou podem ser umas horas a fazer de conta que sou turista em terra própria. Nos dias em que me transformo numa forasteira caseira (re)descubro caminhos e paisagens, fotografo pormenores sem querer saber de quem passa e ignorando os seus olhares questionadores.
Estes são passeios solitários e só assim fazem sentido. O meu egoísmo trava-me certas vontades e movimentos. Não sei fotografar rodeada de gente, seja esta gente conhecida ou desconhecida. Tirar fotografias tem o seu quê de íntimo. É encontrar aquele ângulo que para mim faz mais sentido, é registar aquele conjunto de cores que me fazem sorrir, é estabelecer uma ponte invisível com os outros. Na verdade, penso que para mim tirar fotografias é ser apenas eu, sem subterfúgios, sem preocupações, sem receios. E eu não sei ser assim transparente rodeada de gente.