28.3.14

do Verão passado

Enquanto preparo a próxima road trip algumas fotos da do Verão passado, sem nenhuma ordem específica.


I love clouds Algures em Espanha: foto-chavão de qualquer road trip que se preze.

  can you hear the music?
A primeira paragem: Salamanca. Tinha lá estado há mais de 10 anos. Soube-e muito bem começar a viagem a recordar caminhos com memórias.

  one day I want a house like this
A delicadeza das casas em Carcassonne, património mundial da UNESCO, em França.

  road trip: day 4Chegámos a Martigues (França) já de noite e a primeira impressão não foi boa. Pensámos que não tinhamos feito a melhor opção ao termos escolhido parar em Martigues. A manhã confirmou a nossa opção inicial. A parte bonita e interessante de Martigues é muito pequena, mas é também muito bonita.

  Colorful windowsNice é uma confusão: trânsito pouco fluido, muita gente na rua e muita gente na praia. Desconfio que tão cedo não devemos voltar. Não somos fãs de grandes ajuntamentos. (Sim, é verdade, tenho uma adoração inexplicável por portas, janelas e portadas.)

  end of summerNarbonne e a sua praia de sonho: pouca gente, silêncio quase absoluto, paz e sossego. É para voltar em breve!

  Road trip: day 3Mais uma daquelas que fazem parte do álbum de qualquer road trip. Algures em França.

  Road trip: day 1Ainda no primeiro dia de viagem, em Espanha. Esta já foi parar à capa de um documento de trabalho meu. Deu-me gozo quando colocaram a questão dos direitos da fotografia da capa e respondi "É minha!".

  Road trip: day 4Em Avignon, tive pena de não ter ficado por lá a deambular mais tempo.

  morningSan Sebastian, em Espanha, com a certeza de que temos que arranjar uns dias para circularmos por lá com mais tempo.

a receita do crumble salgado


Para o crumble propriamente dito:

100g de farinha
100g de flocos de aveia integral
100g de manteiga (cortada aos cubos)
100g de queijo ralado (usei grana padano porque era o que tinha)

Com as mãos misturei os ingredientes todos até a massa ficar com consistência de areia (grãos grandes de areia!).

Para a parte salgada:

2 courgettes grandes
tomate cereja (quantidade a olho, não faço ideia!)
milho (talvez 1/4 de uma lata pequena)
1 peito de frango já cozido e cortado aos cubinhos
sal, pimenta, azeite

Coloquei as courgettes em água a ferver. Deixei-as 5 minutos na água a ferver (a intenção é só que fiquem um pouco amolecidas). Retirei as courgettes da água e fatiei-as. Juntei o frango cortado aos cubinhos, as courgettes fatiadas, os tomates-cereja cortados às metades e o milho. Temperei com sal, pimenta e um pouco de azeite. Coloquei num tabuleiro/taça para ir ao forno. Por cima espalhei a massa do crumble com consistência de areia. Devo ter deixado no forno durante 40 minutos.

Buon appetito!

27.3.14

não são só os olhos que comem

Vivo em Itália há 10 meses. Neste período comi mais pizzas do que tinha comido antes em toda a minha vida! Ainda não comi pizzas más. Já comi algumas assim assim e outras que quase me fizeram babar, mas quase 10 meses depois começo a precisar de fazer uma pausa nas pizzas. E nas massas. Na cantina servem massa todos os dias. Adoro massa e pizzas, mas há limites! Já a lasanha não é assim tão frequente. Nem todos os restaurantes têm lasanha no menu, um atentado para alguém como eu que sorri enquanto saboreia uma boa lasanha. E a lasanha em Itália, há que o sublinhar, é excelente. Também os risotos merecem destaque. Adoro o risoto de cogumelos e mirtilos de um restaurante aqui pertinho de casa. Quando como fora de casa é difícil escapar às massas, às pizzas, à lasanha e ao risoto, de modo que em casa tenho tentado diversificar.

No Domingo passado foi dia do crumble: um doce e outro salgado. Não me perguntem de qual gostei mais porque não vos sei dizer. De um lado a acidez dos frutos vermelhos a contrastar com a doçura do crumble, do outro o sabor acentuado a queijo do crumble salgado. É quase como perguntar a uma mãe de que filho gosta mais! Para já ainda não me rendi à comida de passaroco, cheia de sementes, e aos sumos verdes com ar gosmento que tanto se vêem por aí.



22.3.14

queda da flor!

Bastou que estivesse sol durante dois ou três dias para que as cores Outono dessem lugar ao florido primaveril. As árvores floriram de um dia para o outro e circular por aí sem destino enche-me os olhos de alegria e esperança. 


(mesmo à entrada do sítio onde trabalho, em Itália)

20.3.14

as férias que se querem grandes

Este ano não haverá férias em Agosto. Em Agosto grande parte dos meus colegas estará de férias, havendo o ambiente ideal para trabalhar em sossego. Por aqui os dias são tórridos nessa altura do ano, de modo que apetece vir trabalhar bem cedo, sair ainda antes do meio da tarde e aproveitar o Sol, o lago e a praia privada que temos desde que mudámos de casa. Em Agosto, estando aqui, estaremos em férias mesmo sem o estarmos oficialmente. Guardamos as férias para mais tarde, para a viagem que planeamos agora e que, ou muito me engano, ou vai ser uma das viagens das nossas vidas.  Confirmo aquilo que já todos sabem: planear a viagem dá-nos metade do prazer de viajar.

19.3.14

daqui a um mês estarei aqui

Não faço ideia do que mais me espera em 2014. Pode vir por aí muita coisa má, mas também tenho a certeza que me cruzarei com muitas coisas boas. Daqui a um mês estarei num sítio onde sou sempre um bocadinho mais feliz. Já lá estive três vezes, duas há mais de meia vida e a última em 2011. Das duas primeiras vezes éramos mais de cem, em 2011 fui sozinha e este ano vamos os dois. Acaso, ou não, isto diz muito sobre a minha vida.

Desejos no templo de A-Ma em Macau. Em 2011 deixei lá pendurado um meu. Os deuses orientais foram amigos. Três anos depois posso afirmar que o meu desejo foi satisfeito. Desconfio que este ano lá ficará outro!
 
Templo do Buda Gigante, em Lantau, Hong Kong

18.3.14

dos passeios de fim-de-semana

Eu continuo a mesma pessoa, só que um bocadinho mais vivida. Continuo a ser sorridente, a gostar de descobrir novos recantos e, ao contrário do que possam pensar, a ser muito feliz.

Lago d'Orta e a ilha de San Giulio pela primeira vez, mas é para voltar com toda a certeza:

12.3.14

regresso aos dias comuns

(de ontem, na caminhada solitária e silenciosa junto ao lado)

Da outra vez saí do hospital após a curetagem, respirei fundo, dormi, e no dia seguinte voltei ao trabalho como se nada fosse. Desta vez achei que merecia dois dias de sossego e descanso para pôr as ideias em ordem. Passei pela curetagem mais uma vez, embora desta vez o meu corpo se tenha encarregado de libertar de tudo o que era já supérfluo. No dia seguinte caminhei muito, parei sempre que me apeteceu e entre as caminhadas e as pausas houve tempo para fotografar. Hoje, dia em casa, almoço no terraço ao sol e limpeza da casa em jeito de limpeza da vida. Amanhã regresso aos dias comuns, volto ao ponto de partida. Mora em mim uma espécie de vazio. Não é um vazio enorme que me ocupa totalmente, mas um desconsolo, um desamparo e muitas dúvidas. Não me deixo consumir por estas dúvidas, mas de vez em quando elas aparecem de mansinho e depois somem. Acredito que um dia vai correr bem, naturalmente ou com acompanhamento médico. Não sei é quão longo será este caminho. Já pensei muitas vezes que o primeiro aborto pode ter sido apenas um passo inicial de uma longa caminhada. Já li muito, muito, muito. Mesmo antes do segundo aborto confirmado li muito sobre perdas consecutivas. Conheço as percentagens, sei de cor a teoria, sei o caminho a seguir. Sou racional o suficiente para reconhecer que há que tentar procurar as razões das perdas, embora saiba também que posso não vir a encontrar resposta para o porquê. Mas o meu lado que corre riscos continua a piscar-me o olho, e apetece-me arriscar mais uma vez e tentar provar que tive azar duas vezes seguidas, apenas isso, mas que à terceira é de vez.

11.3.14

o post que eu gostava de não escrever


(neve este Domingo, não muito longe de casa - Monte Mottarone)

A minha mãe costuma dizer que "O diabo não está sempre atrás da porta", mas atrás da minha já esteve duas vezes. Exactamente na mesmo altura em que a outra gravidez tinha deixado de evoluir, esta seguiu-lhe o exemplo. Da primeira vez, só quase um mês depois do embrião ter deixado de se desenvolver é que fui confrontada com a realidade. Não houve sintomas nem indícios de nada. Conheci por dentro uma expressão que até aí nada me dizia: aborto retido. Desta vez foi diferente. Desde o início que houve pequenos nadas que me deixaram de pé atrás, a confirmação do desfecho menos feliz chegou à sétima semana acompanhada por um aborto espontâneo. 

Pode parecer estranho, mas lidei melhor com a certeza do fim da gravidez do que com as semanas de incerteza entre o positivo e o fim. Sempre soube lidar com situações difíceis, nunca soube lidar com areias movediças, e desconfio que já não devo aprender.

Ainda é cedo para dizer que marcas me vão deixar estas duas gravidezes com fim precoce, mas tenho a certeza que essas marcas existem e o tempo dirá com que profundidade me ficarão vinacadas na pele e nas entranhas. Sei que numa próxima gravidez andarei de coração nas mãos a toda a hora, mas isso penso que não há como evitar. Novo balanço: 8 meses, 2 gravidezes, 2 corações que bateram, 2 corações que deixaram de bater às 7 semanas.

26.2.14

:-)

(Lago Maggiore, há dias de manhã)

Achei, e continuo a achar, que lidei muito bem com o aborto de há uns meses. Ainda hoje penso que ter ido sozinha para o hospital na manhã em que me foi feita a curetagem, ter partilhado o quarto com uma grávida com contracções muito pouco espaçadas, ter saído de lá sozinha depois de uma anestesia geral, ter ido trabalhar no dia seguinte e não ter chorado uma lágrima em nenhum destes momentos não é para qualquer uma. Mas a verdade é que a gravidez não evolutiva me marcou. Desta vez não tomo a gravidez como algo garantido por 9 meses. Estou alerta a tudo e mais alguma coisa e, durante as primeiras semanas, tenho termo de comparação, o que nem sempre é bom. Da outra vez tive um cocktail de sintomas bombástico, era impossível não notar que estava grávida (embora o tivesse ignorado por algum tempo). Desta vez, e apesar das ainda poucas semanas, já tive sintomas e já deixei de os ter. Agora sinto-me "muito pouco grávida". Diz a médica que estou tão centrada no stress que nem me apercebo dos sintomas. É bem possível. Hoje posso relaxar um pouco mais. Para já nada de anormal. Esta semana, que durou uma eternidade, terminou com sorrisos. Uma barreira ultrapassada. Muitas mais se seguem, bem sei. Mas o primeiro susto foi ultrapassado e hoje é apenas disso que me quero lembrar e é isso que quero comemorar.

24.2.14

esperança

Os primeiros tempos não foram difíceis. Estava habituada a viajar constantemente para destinos diversos, ainda que por curtos períodos de tempo. Acho que saí de casa com as malas mais do que cheias, mas sem ter verdadeira consciência de que desta vez não ia para daí a uma semana voltar. É certo que joguei pelo seguro e ainda antes de ter posto os pés no avião para ir, já eu tinha comprado a primeira viagem de regresso para daí a 3 semanas. Fim-de-semana relâmpago em Portugal e poucas horas depois estava de volta a Itália. Andava com o coração embargado e pouco depois descobri que afinal não alojava só um coração, mas dois. Muitas novidades em poucas semanas. Mas apesar da parte menos boa desta história lidei bem com tudo o que me aconteceu. Descobri-me forte, inquebrável e sozinha. Era Verão. Os dias longos e quentes trazem-me uma energia e uma coragem que o Inverno me retira. O frio definha-me, suga-me a vontade e os sorrisos. Agora, 9 meses depois da primeira partida, estou cansada deste frio que parece não querer ir embora. Olho constantemente para o calendário à espera que as semanas passem e me seja devolvido o calor morno que me aquece por fora e por dentro e me faz acreditar que tudo é possível. Imagino que estes dias seriam muito mais difíceis de ultrapassar se estivesse sozinha. Felizmente já te juntaste a mim há meio ano. A tua presença faz-me sentir menos a ausência daqueles que achava que estariam sempre lá, apesar da distância, mas que desapareceram ao longo destes 9 meses. 9 meses é um número curioso. Estou em Itália há 9 meses. Se tudo tivesse corrido bem com a primeira gravidez, no início deste mês teríamos deixado de ser dois e teríamos passado a ser três. Quando em Julho soube da má notícia pensei que gostaria de voltar a engravidar até à data prevista do parto. Seria uma forma de sentir que afinal o que mais queria não me tinha sido retirado, mas apenas adiado. Não aconteceu. A data passou sem novidades. As novidades chegaram dois dias depois na forma de um traço cor-de-rosa que de tão ténue quase não se via. E poucos dias depois chegaram as dúvidas e os receios. Vários pequenos sinais que me passariam completamente despercebidos não fosse a perda do Verão passado. Pequenos factos, irrelevantes para a maioria, mas que me deixam em sobressalto. Nuns dias prendo-me às evidências e sinto que a história se repetirá mais uma vez, noutros dias sigo as sensações que me fazem crer que é desta. Tudo indefinido. E eu aqui nesta espera feita de dor e de esperança, conforme a altura do dia. Para já posso dizer que estou grávida, pela segunda vez na vida, pela segunda vez desde que estou em Itália, grávida pela segunda vez em nove meses.

(Lago d'Orta este fim-de-semana)

20.2.14

pausa na ansiedade

Hoje o dia é de sol e à hora de almoço consegui sair à rua sem casaco. Os raios de sol a entrarem-me pela janela do gabinete tornam o futuro mais claro e mais sorridente e até o tempo que uma semana demora a passar parecer ter encurtado. Há poucos dias fui apanhada de surpresa por uma notícia inesperada e boa, e há que me concentrar na parte feliz da história. A parte da incerteza não passará mais rápido esteja eu mais ou menos ansiosa. Esta incerteza não depende de mim sequer, de modo que enquanto não há mais notícias (espero bem que não venha a haver), há que esperar por um futuro cor-de-rosa e feliz. Hoje consigo pensar assim, amanhã logo se vê.

pink (cores de Burano, 2013)

19.2.14

não havendo alternativa: aprender a esperar

A espera que devia terminar hoje continua por mais uma semana. Dizem-me para ter calma e não me preocupar. Minha gente, são mais 7 dias, 168 horas, 10080 minutos de espera! Não há como ter calma! Bem sei que pouco mais há a fazer para além de esperar, mas eu nunca fui um bom exemplo de pessoa paciente... Podia, pelo menos, estar sol para me alegrar os dias. Mas nada disso, dia cinzento, aborrecido e sensaborão.

7 dias, são mais 7 dias!



(da janela da antiga casa, o lago ao fundo, o submarino a nadar em chá ao perto)

de Veneza

Fui a Veneza num fim-de-semana prolongado e gélido. As mãos não congelaram, mas quase. Nem as luvas me valeram de muito. Esse foi o único pormenor menos bom desta viagem. O frio foi compensado pelas poucas pessoas nas ruas, o que me permitiu sentir Veneza um bocadinho minha. Cheguei já era de noite mas, ainda assim, sair da estação e deparar-me com o canal teve qualquer coisa de mágico. Adorei os recantos, a falta de carros, as muitas escadas e os pequenos detalhes espalhados por toda a cidade. Gostava muito de voltar no Carnaval, mas não sei se tenho coragem e vontade para ser mais uma na multidão.

Venice was love at first sight Gondolas end of the day red stripes

17.2.14

de Burano (para tentar enganar a espera)

Veneza foi, como já seria expectável, amor à primeira vista. Mas Burano excedeu, em muito, aquilo com que contava. Uma espécie de mini-mundo colorido cheio de pormenores deliciosos. Os vasos coloridos nas janelas a mostrar o brio dos moradores, e os muitos entendais brancos a contrastar com o colorido das paredes. É para voltar, pelo menos uma vez por ano.

a espera

A espera é o que mais me custa. Custa tanto que chega a doer. As vivências passadas, por muito que não o queiramos, marcam-nos de forma indelével. Estivesse eu a viver os momentos presentes há um ano e toda eu seria felicidade e esperança. Mas agora estes sentimentos deram lugar à ansiedade e ao medo. Só faltam mais uns dias para saber se posso respirar fundo e saborear esta fase ou se é tempo de usar toda a minha força para ultrapassar mais um obstáculo pouco simpático e ter coragem para avançar. Faltam poucos dias, mas parecem faltar tantos.


(de Malta, uma estreia no meu mapa, já este mês)

13.2.14

viver no campo

Quando me perguntam onde vivo exactamente, em Itália, já desisti de dar respostas precisas. Dizer o nome da localidade onde trabalho não traz nada de novo a quem pergunta, de modo que me refiro à cidade mais próxima, acrescentando que do sítio onde vivo até lá demoro uma hora de carro. Claro que esta última parte da informação não fica na memória de quem me ouve e assumem que vivo em Milão. Não é coisa que me aqueça ou arrefeça, de modo que não confirmo nem desminto. Acham que estou mais citadina que nunca, quando na verdade nunca vivi tão no campo como vivo agora. Ontem, o cenário a sair do trabalho e a tentar chegar a casa foi este:



Tenho pena que na foto não se vejam os muitos burros que seguiam na frente do rebanho, nem os muitos cães de guarda que tentavam orientar as centenas de ovelhas.

31.1.14

um pé aqui, um pé ali

Quarta: Milão --> Lisboa
Quinta: Lisboa --> Milão
Sexta: Milão --> Porto

Para já é isto, mas a animação continua na próxima semana. Vou pôr mais um pino no meu mapa de viagens (um pino por cada país visitado). Corpo moído, garganta dorida, mas amanhã é dia de dormir até mais tarde e de rever as minhas pessoas. 

13.1.14

uma questão de tempo




Eu costumo dizer-te a rir que vieste com três anos de atraso. Tu respondes-me que demoraste, mas chegaste. Não tivesse eu vindo para Itália, desconfio que teríamos continuado de costas voltadas. Foi há quase um ano que soube que me mudaria. E foi quase há um ano menos um dia que te disse de novo "Olá", depois de três anos de silêncio, afastamento e de fazermos de conta que não nos conhecíamos, apesar de nos vermos quase todos os dias. No momento em que soube que iria virar costas quis resolver todos os meus assuntos. Queria começar uma vida nova sem pendentes nem pontas presas. Ao contrário do que esperava, vim para Itália contigo completamente desarrumado, sem saber o que fazer comigo cá quando tu continuavas onde sempre estiveste. Se antes, quando tivemos todo o tempo só para nós, acabámos um para cada lado, achei que desta vez o resultado não poderia ser melhor. Há muitos anos que acredito que a realidade supera frequentemente a ficção. Este foi mais um desses casos e, embora seja avessa a mimimimis e conversa cor-de-rosa, devo admitir que temos aqui um belo argumento para uma comédia romântica. Até já temos o cenário, é só atentar na fotografia tirada um destes dias.

9.1.14

1º de 2014

Não houve resoluções de ano novo. Houve apenas alguns momentos de pensamento mais reflectido nos últimos tempos sobre o que pode ser afinado para que eu e os que me rodeiam nos possamos sentir um pouco melhor. Quase não tenho escrito nem lido. E sinto tanta falta disso. Tenho tirado muitas fotos, o que me realiza, mas é uma forma de expressão diferente. A verdade é que o tempo não estica e entre o trabalho, as muitas viagens e as restantes formas de viver, me sobram poucos momentos para a escrita aqui e não só. Continuarei ao ritmo que for possível e que me der prazer, intercalando imagens das vivências, o que também aqui tem acontecido pouco.

Continuo a aproveitar a proximidade dos países vizinhos e a pôr os pés do outro lado da fronteira. Em Dezembro fomos à Suíça mais uma vez, desta feita para visitarmos alguns mercados de Natal em Zurique. Não fiquei propriamente impressionada com os mercados, mas as paisagens fizeram os meus olhos felizes. Da Suíça, do final de 2013:

19.12.13

2013

(Burano, Dezembro 2013)

Fui-me mudando aos poucos, mais nuns anos do que noutros. Cheguei a 2013 e mudei tudo de uma só vez. Mudei de país. Deixei tudo para trás, bati com algumas portas e fechei outras suavemente. Virei costas e dei comigo a viver em Itália. Deixei uma porta entreaberta e tu aproveitaste, entraste, e vieste ter comigo uns meses depois. Em 2013 deixei de pensar e viver no singular e passei a referir-me a nós. Um nós que chegou mais tarde do que era suposto, depois de anos de silêncio e afastamento, mas que, surpreendentemente, chegou. Estas poderiam ter sido mudanças menores se a maior não tivesse tido um fim menos feliz.

Em 2013 estive grávida. Da gravidez que não chegou a bom porto ficou uma dor imensa, uma sensação de vazio difícil de colocar em meia dúzia de palavras. 2013 trouxe-me muitas lágrimas, trouxe-me momentos em que nem sequer me atrevi a chorar, porque as forças não podiam ser desperdiçadas dessa forma. 2013 mostrou-me que sozinha consigo sobreviver a muita coisa, confirmou que me sei concentrar nos meus objectivos, que consigo encontrar mais oportunidades do que aquelas a que consigo dar resposta. 

No final do ano veio o convite para regressar a Timor. Mais uma vez a possibilidade de regressar a um dos lugares onde fui mais feliz. Infelizmente não consigo conciliar as obrigações italianas com Timor. Fico triste de cada vez que penso que estarei aqui  todo o Inverno, no meio da neve e do frio, quando poderia estar a beber água de côco, na praia, junto ao mar, a ver o pôr-do-sol mais bonito de que tenho memória. Há alturas em que até eu sou racional, este é um desses casos, por muito que me custe.

Viajei muito, tirei muitas fotografias, fui muito feliz. Senti que era felicidade a mais para o meu tamanho.

Vivo num apartamento com uma vista invejável. No Verão acordava e ia para a varanda beber café, apanhar sol, ver o lago e as montanhas. Começar os dias assim fazia com que eles não pudessem ser maus dias. Mas aquele também é o apartamento onde chorei a minha maior perda, aquele também é o apartamento onde passei 4 noites sozinha, sabendo que o teu coração já não batia, apesar de ainda estares dentro de mim. Aquele é o apartamento onde cheguei depois de ter chorado enquanto andava de bicicleta sem querer saber o que os outros poderiam pensar. 2014 vai começar numa nova casa. Vou continuar junto ao lago, mas outro lago. Vamos deixar de viver num apartamento e vamos ter uma vivenda só nossa. Vamos ter uma praia privada, não vamos ter uma varanda como temos agora, mas vamos ter um terraço no meio das árvores. Não vamos ter duas plantas na janela, vamos ter muitas plantas à nossa volta. Vamos poder ter um cão. E, mais relevante que tudo o resto, vamos continuar a ter-nos. 

2013 foi O ano. Dissessem-me há um ano que agora estaria a viver em Itália, contigo, prestes a mudarmo-nos para uma vivenda de paredes brancas e com uma mansarda, com uma praia privada junto a um lago, e eu rir-me-ia e viraria costas. Há já muito tempo que acredito que a realidade supera a ficção, 2013 só o confirmou. 

Em 2014 vamos continuar a viajar. Já há várias viagens na calha e o regresso à Ásia está marcado.

2014 vai ser muito bom, não pode ser de outra forma.

16.10.13

cor em tempo frio

Depois de muitos dias de céu coberto de nuvens, e de outros com chuva, eis que chega um dia com sol. Estava um frio que me fez lembrar o frio de Inverno de Portugal, mas está sol, e isso basta para me alegrar os dias. Sabe-me bem o frio exagerado que me parece fora de tempo. Gosto de desfasamentos, de peças fora do sítio no puzzle. Deve ser por isso que me agradam as mudanças (de ser eu própria a peça estranha), de explorar o desconhecido, de comemorar o aniversário em países diferentes a cada ano que passa. 


orange & green window pots at window

7.10.13

calor no frio

Cheguei a meio de Maio. Estava frio e chovia muito e quase todos os dias. Um mês depois começaram os dias quentes e de sol, aos quais se seguiram semanas de calor abrasador. Quando voltei de férias os dias em que o sol magoa a pele tinham passado e, agora, há mais de uma semana que não se vê o sol e a chuva parece que veio para ficar. Aqui as transições entre estações não são suaves: é mesmo Outono. Os dias são cinzentos, molhados, frescos e mais curtos. A luz é pouca e diferente. Desde miúda que não vivia uma transição tão nítida entre o Verão e o Outono. Ontem, numa cidade próxima, mas mais fria, quase que senti o cheiro do Inverno misturado com o cheiro quente das castanhas assadas.


30.9.13

serenidade

De vez em quando batem-me à porta pessoas do passado. Pessoas que em dado momento acreditei poderem vir a fazer parte dos meus dias de forma permanente, ou que eu quis que fizessem e que acabaram por entrar e sair da minha vida em tempo record. Normalmente depois do adeus forçado ou de comum acordo não olho para trás e corto todo o contacto. Parece-lhes cruel, ou no mínimo estranho, mas é assim que sou. Não toco nas feridas (nem nas minhas nem nas dos outros) quando ainda estão em carne viva, nem que seja um toque suave que tem apenas como intenção atenuar a dor. Não quero qualquer contacto e fujo a qualquer tipo de aproximação. 

Reapareceste agora do nada, tanto tempo depois. Falei contigo normalmente e reconheci as conversas fluidas que tivemos e que a dado momento deixámos de ter. Queixaste-te das vezes que não quis falar contigo. Não me apeteceu explicar-te que naquela altura uma simples conversa contigo me fazia doer tudo cá dentro, me fazia recordar cada momento bom e me recordava do que nunca teríamos juntos. Agora, tanto tempo depois, tanta vida depois, voltei a ser capaz de falar contigo. Perguntei-te por ela, perguntaste-me por ele. Sem sabores amargos, nem dores, nem falsos discursos. Agora somos perdidamente felizes, cada um no seu mundo.

27.9.13

assédio no local de trabalho

Ganha outra dimensão quando nos bate à porta. Confirma-se que não fui feita para aturar gente sem escrúpulos e princípios, e subir na vida na posição horizontal não faz parte da minha forma de pensar nem de agir. E se fosses para o c#/%¿'(º¡$, hein?

Finalmente sexta. Esta foi a semana mais longa dos últimos tempos.

17.9.13

4 meses italianos


- durante algumas semanas tive dois corações a bater dentro de mim
- vivo numa casa com uma vista de sonho: adoro acordar e adormecer com o lago
- voltei a ter carro, mas continuo a vir de bicicleta para o trabalho
- continuo a não ter TV e não me faz falta
- nunca antes comi tanta pizza e tanta massa
- tenho aulas de italiano
- fui a Portugal três vezes
- aqui o Outono já chegou nas temperaturas matinais e de fim de tarde, e nas folhas acumuladas junto ao lago
- fui a Bruxelas, comi os melhores macarons de sempre e senti-me a fazer algo realmente importante
- fizemos uma road trip Portugal - Itália, cheguei morta de cansaço e a transbordar de felicidade
- comecei a aventura italiana sozinha, mas poucos meses depois passou a ser uma aventura a dois (quem diria, quando eu vim, que tão pouco tempo depois te juntarias a mim?)
- pela primeira vez tenho que cumprir um horário de trabalho
- estou fã do meu horário flexível
- fomos à Suíça num passeio de Domingo - ainda não me habituei a estar numa posição mais central e a não estar numa ponta da Europa
- tenho muito mais trabalho do que tinha antes: ao trabalho novo juntam-se muitas tarefas do antigo, que vou mantendo como posso, e enquanto for possível
- em breve vou voltar a Bruxelas e irei a Barcelona
- mantenho a minha paixão por Timor
- fazemos caminhadas ao final da tarde para explorar as redondezas
- temos várias viagens planeadas e a passagem de ano já está marcada

11.9.13

recomeçaram as aulas de italiano, aleluia!

Percebo praticamente tudo, construir frases é que não é muito comigo, pelo menos para já. Quero acreditar que em pouco tempo a coisa vai ao sítio. Pelo menos já perdi a vergonha de falar numa espécie de dialecto da selva ("mim Tarzan, tu Jane"). Uma pessoa tem que se desenrascar, quero lá saber se as frases estão correctas ou não!

4.9.13

a ver vamos

Sempre fui muito pragmática em questões importantes. Ora, se há muitos anos me havia sido dito que teria muitas dificuldades em engravidar, essa foi ideia que deixou de me atravessar o pensamento. Se com vinte e poucos anos seria difícil engravidar, não seria com mais quinze anos que criaria ilusões. Até que, estranhamente, engravidei. Tive uma série de sintomas que não deixavam margem para dúvidas, mas recordei-me do tom pesaroso com que o médico me comunicou há mais de uma década que ter filhos não seria nada fácil. Assim, e apesar dos sintomas, assumi que não poderia estar grávida, apesar de tudo e do teste de gravidez conclusivamente positivo. Achei realmente que estava doente. Fui à net, pesquisei o que poderia estar na origem da minha aparente gravidez e concluí que estava mesmo muito doente. Uma semana depois fui ao médico preparada para ouvir o pior, e saí do consultório com a imagem de uma ecografia com um embrião minúsculo. Não vou dizer que pulei de felicidade, porque não é verdade. Fiquei sem reacção, completamente incrédula. Eu grávida? Ele chorou de emoção, contou aos amigos todos, rebentou de felicidade e eu continuava sem acreditar que tinha ouvido um coração, que não o meu, a bater dentro de mim. Aos poucos a realidade foi-se apoderando de mim e idealizei os sete meses que teria pela frente e o que se seguiria. Ponderei questões práticas, que isto de se estar sozinha num país diferente há meia dúzia de dias e descobrir que se está grávida é coisa para nos fazer pensar muito. Fui muito feliz nestas semanas, semanas estas que foram curtas, com um desfecho muito afastado do esperado.

Ora, mas se aconteceu uma vez por acaso e sem nenhum tipo de plano nem cuidado, é bem possível que se repita. E já não estar sozinha em Itália é capaz de ser um ponto muito favorável na conjuntura. Ainda me soa estranho pensar e escrever isto, mas a verdade é neste momento tenho muita vontade de ser mãe. É isto. A ver vamos no que dá.

2.9.13

a dois

Setembro será lembrado como o mês em que deixámos de estar um cá e o outro lá. A partir de agora somos dois em Itália. 

Recebi a notícia da tua vinda no momento em que abri os olhos depois da anestesia, no dia em em que deixei oficialmente de estar grávida e em que engoli todas as lágrimas que quis chorar. Uma espécie de compensação que tornou esse meu dia menos agreste.

5.8.13

Ainda não sei bem como escrever sobre este assunto.

Achei que tinha vindo para Itália sozinha, mas enganei-me. Dentro de mim vinha um ser minúsculo que eu nem imaginava existir. Só quando os sintomas se tornaram impossíveis de ignorar coloquei a hipótese de estar grávida. Era uma hipótese muito remota dado o meu historial médico, mas não era totalmente impossível, como se veio a confirmar. Contra tudo o que os médicos me haviam dito, a ecografia mostrou-me um útero habitado. Só aí acreditei que era real. Antes, quando havia visto as duas riscas cor-de-rosa à minha frente, não consegui crer. Estes dias de felicidade imensa, expectativa e receio duraram poucas semanas. Bem sei que tudo nos parece mais injusto quando a dor bate à nossa porta, mas por que raio de razão me é dado a saber que afinal é possível, se logo a seguir essa alegria maior me foi retirada?

Chorei baba e ranho no dia em que a notícia que não queria ouvir se confirmou. Não tornei a chorar, nem no dia em que completamente sozinha fui ao hospital para que os vestígios da curta gravidez me fossem retirados. Sozinha, rodeada de grávidas e de recém-nascidos num sítio em que ninguém fala outra língua que não seja italiano. Estranhamente penso que estar sozinha tornou mais fácil a tarefa de ultrapassar este momento.

Dois meses em Itália, o que mais me espera?

25.7.13

lugar errado

small things that make me happy
Pouco mais de dois meses fora do país e hoje foi o dia em que mais senti que estava no sítio errado. Viver noutro país é, para mim, estar onde quero, mas também é estar longe da família, de parte dos amigos, dos nossos sítios, mas, mais que isso, é não estar em momentos únicos, com significado, que não se repetem. Hoje foi um desses dias. O que mais queria era poder acompanhar-te de manhã à noite num dia de nervosismo, ansiedade, alegria e êxtase. Acompanhei-te o mais que pude, mas à distância. Teremos outros momentos importantes no futuro e nesses, sabemos agora, estaremos juntos. Mas hoje não se repete e estivemos tu aí e eu aqui.