6.12.14

viajar com bebés

Se não houver nenhuma surpresa menos boa, a primeira viagem com o bebé será no final de Janeiro ou início de Fevereiro. Mas esta praticamente não conta, porque será de nossa casa em Itália para nossa casa em Portugal. À partida, a nossa primeira viagem a sério a três será em Maio, quando formos de férias para fora dos "nossos países" e das nossas casas.

5.12.14

das consequências da distância (ou de outras coisas)

Quando saí do país imaginei que iria perder algumas pessoas pelo caminho. Parece-me natural. Laços que não são propriamente fortes não resistem à distância e o afastamento geográfico estende-se a outros níveis. 

Fui surpreendida. A maior parte das pessoas que não me era próxima foi-se perdendo pelo caminho, mas para além disso, uma das pessoas que me era mais chegada praticamente sumiu de circulação. Não sei se foi efeito da distância, se foi efeito de todas as voltas e reviravoltas que a minha deu neste ano e meio, se foi efeito das mudanças na vida dela, ou se foi uma mistura de todos os factores, mas a verdade é que fui negativamente apanhada de surpresa.

Em ano e meio descobri que estava grávida mal tinha acabado de chegar a um país novo, quando ainda não conhecia praticamente ninguém, abortei, engravidei, abortei de novo,  voltei a engravidar, casei-me. Aconteceu tanta coisa que eu gostaria de ter partilhado de forma próxima, mas ela não estava nem disponível nem interessada. Fui a Portugal vezes sem conta, combinei lanches e jantares, estive com outras pessoas que antes de partir me diziam menos, e ela nem noção tem das vezes em que não esteve presente, porque simplesmente não estava para aí virada. 

Acredito que esta fase que vivo agora pouco ou nada lhe diga. Neste momento o meu cerne não é o trabalho, é um pequeno ser que ainda não viu a luz do dia. Do que conheço dela (ou do que acho conhecer) este é assunto para um ou dois minutos de conversa e depois é altura de mudar para outros temas, comummente relacionados com trabalho e afins. Sempre fomos muito diferentes, mas agora desconfio que estamos muito mais. Talvez este afastamento não seja tão inesperado assim. Desconfio que vai ver o bebé M. pela primeira vez quando o puto já andar na escola.

4.12.14

parte nº1 da tarefa concluída


A minha já está, agora falta a dele!

36 semanas!

Não consigo deixar de me espantar com os números que a cada semana vão aparecendo nos títulos destes posts: 36? Isto é mesmo a sério? Apesar das duas gravidezes com fim nada feliz, acreditava que era possível e por isso continuei a tentar, mas não deixo de me surpreender por ter chegado até aqui.

O primeiro trimestre custou. Foi lento, cada dia parecia demorar muito mais que 24 horas e, umas vezes conscientemente, outras de forma inconsciente, o medo de que a história se poderia repetir estava presente. O segundo trimestre trouxe as hemorragias sem motivo aparente e obrigou-me a ficar várias semanas em casa. Não foram momentos fáceis. Apesar de nessa altura termos ultrapassado já a barreira onde ficámos presos nas duas vezes anteriores, o receio de que outro obstáculo nos impedisse de prosseguir esteve bem presente. O terceiro trimestre trouxe-me os diabetes, mas tirando isso estou bem. Se tivesse aterrado de pára-quedas no terceiro trimestre da gravidez acharia que a gravidez é o paraíso. Às 36 semanas tenho mais seis quilos do que tinha inicialmente, continuo a mexer-me com facilidade, durmo bem e sem necessidade de almofadas em meu redor para me deixarem confortável. Que me lembre ainda não deixei de fazer nada do que habitualmente faria se não estivesse grávida (a não ser agora não poder viajar de avião). Sinto-me feliz e isso transparece: o cabelo está óptimo e a pele excelente. O bebé mexe-se muito, e nota-se que nesta fase o espaço disponível para as movimentações é já muito reduzido. De vez em quando faz muita pressão sobre determinadas partes da barriga, como se a qualquer momento fosse aparecer ali um pé ou mão!

Amanhã entro na 37ª semana e ainda me custa acreditar que até ao final do ano ou mesmo no início do próximo o M. se vai juntar a nós. Muitas grávidas que conheço sentiram os seus bebés a "encaixar" algum tempo antes do nascimento, outras foram sentindo contracções algumas semanas antes da hora H. Para já não me apercebi de absolutamente nada fora do comum, de modo que começo a achar que o rebento se sente bem na sua casa e é bem capaz de não nos fazer a vontade de nascer antes do Natal.

o que levar para a maternidade

Ontem lá me enchi de coragem e fui à obstetrícia do hospital cá do sítio pedir a lista do que levar quando o rebento decidir ver a luz do dia. Tendo em conta outras listas que encontrei de outros hospitais italianos podia ser muito pior.

Pedem o mínimo para o bebé: toalhitas, luva de algodão para lhe dar banho, sabonete líquido, toalha, manta e cinco mudas de roupa. Cada muda de roupa inclui t-shirt ou body de manga curta ou comprida (é à escolha do freguês) e babygrow com pés. Só isto, mais nada. Nem calças interiores (que eu insisto em chamar de ceroulas, pobre criança!) nem gorro, nem meias, nem nada. Tenho para mim que os italianos são mais descontraídos que os portugueses em relação à forma de vestir os bebés. Em Portugal parece que toda a gente tem medo que os miúdos gelem, por aqui não me parece que isso aconteça, muito pelo contrário. É certo que a zona em que vivo é muito fria no Inverno, o que obriga a que as casas tenham sistemas de aquecimento decentes, o que também ajuda a que os putos não tenham que estar envolvidos em mil e uma camadas de roupa. Mas não me parece só isso. Vejo bebés muito pequeninos na rua, bem agasalhados, claro!, mas a circularem na rua. 

E o que levar para a maternidade para mim? O comum e... uma chávena, um copo, açúcar e água! Ria-me eu por alguns hospitais pedirem para as grávidas levarem talheres! Pois que eu tenho que levar uma chávena e um copo! O açúcar desconfio que a diabética não vai levar. E... água? No fundo da folha referem que dão meio litro de água por dia, a restante cada um tem que levar. A sério, em que país do mundo é que um hospital não fornece água? É certo que o meu conhecimento sobre hospitais é basicamente nulo, mas... água??

3.12.14

ver vídeos de partos

Até aqui não tinha intencionalmente visto vídeos de partos. Acho que há que esperar o momento certo para tudo e o momento ainda não tinha chegado. Ontem, com o tempo a avançar desenfreadamente, achei que era importante ver a realidade. Ver mesmo, não ler algo que alguém serenamente sentado a uma secretária escreveu, mas ver um parto real de alguém real. 

Foi um acaso, mas acho que tive sorte no vídeo que escolhi. Não vi um filme de terror que me deixasse com pesadelos e me tirasse a vontade de dormir (e de ter este filho), mas vi um vídeo de um parto de uma mulher serena. Não gritou, não berrou, raramente se queixou. Ouviu o que quem a acompanhava lhe dizia, tentou corresponder e deu à luz uma criança que me pareceu gigante (não era pequena nem grande, mas garanto-vos que me pareceu enorme). Se calhar não corresponde à situação mais comum, mas uma vez que por mero acaso fui parar a este vídeo, não quero ver mais nenhum! Quero acreditar que um parto pode ser assim e ponto final. É este tipo de parto que quero ter presente nesta fase, acho que imaginar cenários de terror não é coisa que me ajude neste momento.

finalmente serenei relativamente aos diabetes

Não é fácil, especialmente para quem como eu gosta de controlar tudo, aceitar que o corpo tem vontade própria e que por muito que eu queira ou faça, há aspectos que não dependem das minhas acções ou do meu querer. Acho que o que mais me custou relativamente aos diabetes foi aceitar que era algo que eu não conseguia controlar sozinha.

De uma forma geral conseguia ter valores aceitáveis ao longo do dia, mas não em jejum e esse foi um problema que não consegui resolver. Li páginas e páginas sobre diabetes gestacionais, encontrei dicas em fóruns, pus essas sugestões em prática, mas nada funcionou comigo. O valor da glicose em jejum era sempre superior ao permitido, fizesse o que fizesse.

Desejei que o médico me mandasse tomar insulina para resolver este problema, o que, felizmente, acabou por acontecer. Tomo uma dose mínima diariamente, à noite, apenas para evitar que o valor da glicémia em jejum seja exagerado. Relativamente ao resto do dia continuo com a dieta e isso é suficiente para ter valores dentro dos padrões desejáveis.

Fujo completamente à dieta que me foi prescrita, porque essa comigo não funcionava, mas consegui encontrar alternativas que me deixam saciada e feliz. Fui experimentando alimentos, e combinações de alimentos, e consegui encontrar um leque de opções para ir variando, conseguindo manter os valores de glicose no sangue dentro do desejável. Não digo que depois do parto continuarei a fazer o que faço agora, mas tenho a certeza que alguns hábitos recentes são para manter. Como já tinha dito antes, o lado bom dos diabetes foi obrigarem-me a alterar a alimentação (que já não era desequilibrada), o que consequentemente me ajudou a controlar o aumento de peso. Continuo com apenas seis quilos a mais do que tinha quando engravidei e peso menos do que pesava há dois meses. O bebé tem peso e medidas normais. Portanto, estamos os dois muito bem.

Um aspecto curioso é que notei que se tornou muito mais fácil controlar os valores da glicémia assim que aceitei que estava a fazer o melhor que podia, independentemente do valor que me aparecesse no aparelho após a picadela no dedo. Estava a fazer o que me era possível, mais do que isso não podia fazer. Tinha lido que o stress não ajuda nada nestes casos e acabei por o confirmar: assim que serenei os valores melhoraram. Claro que o meu sossego também surgiu depois de confirmar que estava tudo bem com o bebé e que a alimentação que praticava não só não o prejudicava, como contribuía para que tudo estivesse bem com ele.

ainda sobre as malas

Pronto, rendi-me ao estado de gravidez quase estado maternal. Achava eu que ia pôr as primeiras roupas do rebento nuns saquitos que vieram com umas fraldas que comprei há uns tempos (dizia eu na altura que serviam muito bem, para quê estar a investir noutro tipo de sacos que depois não servem para nada), quando me cruzei com umas bolsinhas feitas à mão que são uma verdadeira delícia. Não resisti. Devem estar quase a bater-me à porta, se não tornar a ter outro contratempo com o raio dos correios italianos.

Ora, significa isto que ainda não é hoje que fico com as malas para a maternidade prontas. Eu sei que ando a abusar da sorte e que ainda me corre mal. Fica aqui prometido que até final da semana as malas ficarão recheadas, fechadas e prontinhas a sair porta fora a qualquer momento. É que apesar da aparente descontracção, eu não quero que seja Ele a ter que pegar em meia dúzia de coisas e levá-las de qualquer maneira para o hospital. Ele não faz a menor ideia do que é necessário e, apesar de viver na mesma casa que eu e ao mesmo tempo que eu, desconfio que não faz a menor ideia do sítio onde está seja o que for. Homens!

2.12.14

a saga da mala às bolinhas

Tenho andado a adiar fazer as malas para a maternidade porque me parece que é o assumir definitivamente que a nossa vida como a concebemos até agora tem mesmo os dias contados. Repito-me e reafirmo que queremos muito passar a ser três, mas o medo do "desconhecido" é tramado. De modo que ao longo das últimas semanas fui arranjando subterfúgios para ir escapando à tarefa de fazer a minha mala e a do bebé M.: ora faltava isto, ora faltava aquilo e depois resolvi que merecia um presente e encomendei uma mala de cabine nova para mim (que estava realmente a precisar) e decidi que não fazia a mala enquanto a mala das bolinhas não chegasse. E, já agora, encomendei um saco mais pequeno, com o mesmo padrão da mala para levar as coisas do rebento. 

Por estes dias comecei a ver o caso feio. Itália e os correios/empresas de transporte não se dão bem, não há volta a dar. Num dia não me entregaram a encomenda porque eu não estava em casa. No dia seguinte não ma tornaram a entregar porque, segundo vi no site da transportadora, a morada não estava completa e precisavam de informação adicional. Começo a ficar pouco tolerante para as parvoíces italianas. Ora, num dia não entregam porque não estou em casa (logo, parece-me que encontraram a casa e fizeram uma tentativa de entrega) e no dia seguinte não entregam porque a morada está incompleta? Bom, virei-me do avesso. Escrevi mails pouco afáveis e um pouco irados e lá me prometeram que passado dois dias a encomenda chegava a minha casa.

O dia E (de entrega) era hoje. Já era de noite e nada. Até que me o motorista da carrinha de distribuição me telefona e diz calmamente que está na localidade aqui ao lado. Mas eu não moro aí, a casa fica em blá blá. Pois eu sei, mas não encontro a casa. A criatura não se deu ao trabalho de a procurar, só pode! Rosa inspira profundamente, Rosa expira profundamente e lá lhe propõe um local que toda a gente conhece para ele entregar o raio da encomenda ao marido da Rosa. Rosa telefona ao marido e pede-lhe que vá buscar as caixas. 30 segundos depois tem o cromo do motorista a dizer que já está no sítio combinado, mas que o marido não está. Pois não está, criatura, eu tive que lhe pedir para ir aí de propósito, mover-se de um local para o outro não se faz num abrir e fechar de olhos e, já agora, eu estou há não sei quantos dias à espera do raio da encomenda, sua excelência pode esperar dois minutos?

Resumindo e concluindo: já tenho malas bonitinhas para levar para a maternidade. Estão-se-me a acabar as desculpas para não preparar as malas para a maternidade e, na verdade, é capaz de estar mais do que na hora. 

o círculo a apertar

É uma espécie de chamada à realidade:
- uma amiga grávida de mais uma semana que eu está neste momento em trabalho de parto;
- uma colega do grupo de grávidas, apenas com 33 semanas, está hospitalizada e a tomar medicação para a maturação dos pulmões do bebé que está decidido a ver a luz do dia muito em breve.

Bebé M., espera lá mais meia dúzia de dias e depois estás à tua vontade para te juntares a nós neste Natal. Nós já andamos os dois com aquele ar aparvalhado embevecido dos pais recentes, vai ser lindo depois do bebé nascer!

1.12.14

primeiro mês de licença de maternidade

Estou há um mês em casa, que é como quem diz que o primeiro mês da licença de maternidade já se foi. Pus ordem na casa, lavei e passei a roupa toda do miúdo, fiz uma série de encomendas, organizei o quarto do M. (dentro do possível para um quarto que sabemos temporário), furei paredes e decorei-as com acessórios de gosto duvidoso e comecei a separar o que muito em breve vai para a mala da maternidade.

Depois disto tudo não resisti a aproveitar os últimos momentos por minha conta e tirei partido de oportunidades para publicar. Hoje espero terminar mais um capítulo. Bem sei que podia aproveitar para relaxar mais e gozar o sossego do qual terei saudades daqui a pouco tempo, mas não só me dá prazer escrever e publicar, como é algo que pesa no CV e na futura procura de emprego. Portanto, vou sugar estes últimos dias até ao tutano que não sei quando é que voltarei a poder escrever em paz e sossego.

dias 1

Casámo-nos há 3 meses.
Falta 1 mês para a data prevista do parto.

No ano passado não tivemos árvore de Natal, mas este ano não nos escapou. É uma versão mini, mas tem cor, luzes e recordações de viagens a dois. É perfeita.


30.11.14

as chamadas caixas prioritárias para grávidas

Itália não é um país que respeite os cidadãos. Estou cá há um ano e meio, não é muito, mas é o suficiente para poder fazer esta afirmação sem ter medo de estar a fazer um juízo errado. Este é só um exemplo, já vivenciámos muitos outros.

Neste momento estou visivelmente muito grávida. Não há como não reparar na minha barriga roliça. Ontem, no hipermercado, fomos para a caixa prioritária para grávidas. É certo que esta caixa tinha uma fila ligeiramente mais pequena que as outras, mas não havia uma única grávida, para além de mim: vários velhotes e um casal de miúdos novos. Todos olharam para a minha barriga, que nós bem notámos, ninguém nos deixou passar à frente. Aguardámos a nossa vez como todos os outros. Mas para que é que esta gente tem caixas prioritárias seja para o que for? Ninguém liga absolutamente nada a isso. Há uma caixa prioritária chamada "over 70", mas os velhotes estavam todos na caixa das grávidas. Nunca estive grávida em Portugal, mas lembro-me de ver nos hipermercados pessoas que estão nas filas das caixas para grávidas a dar prioridade às grávidas. Nada contra ir para uma caixa prioritária quando não há lá ninguém com as características a quem estas se destinam (já o fiz também), mas se chega uma grávida, um deficiente ou uma pessoa idosa (conforme os casos) deixa-se passar à frente, não? Será assim tão complicado compreender o conceito? Itália às vezes cansa-me.

o que é que nos faz querer ter filhos?

Tenho pensado nos motivos que nos fazem querer ter filhos. Eu não queria, ou nem pensava nisso porque sabia que não podia. A partir do momento em que percebi que era possível, a vontade de ter filhos cresceu em mim e eu corri atrás dela, sem nunca a perder de vista. Porquê? No meu caso não é a concretização de um sonho de sempre. Não é uma forma de tentar ser feliz, porque feliz já eu era antes. Aliás, as tentativas para engravidar trouxeram-me momentos de muito pouca felicidade, que culminaram com momentos de felicidade maior, isso é certo, mas quando iniciei este caminho não sabia ao que ia. Também é verdade que ao longo destes meses daquilo que eu chamo de gravidez intermitente (grávida - não-grávida - grávida...), e especialmente nestes últimos meses, tenho vivido os momentos de felicidade mais genuína que já vivi até hoje, mas isso eu também não sabia quando decidi que queria ter um filho. 

Vou ter um filho porque estava com a pessoa certa no momento certo, mas muito provavelmente se não tivesse havido uma gravidez casual inicial não estaríamos agora grávidos. A gravidez resulta dos sentimentos que nos unem, mas não são esses sentimentos a causa da nossa decisão de ter um filho.

O motivo parece-me egoísta, o que não soa bem, mas soa-me a realidade. Quis ter um filho porque senti que tinha o poder de criar um outro ser humano, embora este não seja um pensamento consciente. Venham-me cá falar de influência, força, dinheiro, que a mim só me ocorre que o poder maior é poder criar um outro ser. Bolas, pá, isto é uma capacidade incrível e ao alcance de quase todos (e lamento mesmo muito não poder eliminar o quase nesta frase). Não foi consciente, nem sei se a razão de querer ter um filho é mesmo esta, mas a partir do momento em que percebi que podia dar origem a um outro ser humano não descansei (está no singular, porque sou eu que escrevo, mas tenho a certeza que poderia estar no plural).

É uma vontade puramente egoísta. Eu não sou imortal, um dia destes desapareço, mas deixarei por cá um ser que saiu de dentro de mim e que tem muito de mim. Um filho traz-me a sensação de não finitude. Mais do que todos os artigos e capítulos que possa escrever, mais do que qualquer foto tirada por mim que circule pelo mundo inteiro, mais do que qualquer outro legado que eu possa deixar para assinalar que estive aqui, eu posso deixar um ser humano, criado por nós. É quase impossível resistir a esta possibilidade imensa que quase todos guardamos em nós. Eu não resisti.

28.11.14

as maçãs e a abóbora

Por aqui já se sabe, nada de doces. Achava eu que me ia aborrecer de morte a comer maçãs (única fruta permitida à diabética de serviço), mas a verdade é que é das poucas coisas doces que como e a cada dia que passa me sabem melhor. Nunca tinha reparado que as maçãs eram tão doces, até não comer mais nada que me adoçasse o paladar. As minhas preferidas até são aquelas que têm um travo ácido, mas ainda assim sabem-me a doce e sabem-me bem. Maçãs, vocês que eram o meu fruto menos querido, acabaram de entrar no meu top de alimentos que me deixa feliz. Afinal foram a única fruta que não me abandonou nesta fase, prometo continuar a ser-vos fiel.

Outra forma de me enganar e fazer de conta que estou a comer uma sobremesa doce é deliciar-me com abóbora com canela aquecida no forno. Salivo só de pensar em abóbora quentinha com canela. E os níveis de glicose não se queixam. Com jeitinho lá vou encontrando alternativas para adicionar à minha dieta limitada.

27.11.14

sobre o parto

Durante muito tempo não pensei no parto, até porque era uma etapa muito distante para quem viu a gravidez interrompida duas vezes às sete semanas. Mas desta vez, e de há poucas semanas para cá, dei comigo a pensar nisso. Tenho lido algumas coisas, não tenho encontrado muitas novidades, mas é sempre bom ir tendo uns banhos de realidade. Até determinada altura não fazia ideia se seria parto normal se seria cesariana. Quando os diabetes foram diagnosticados pensei que ia ter um bebé grande e que o mais certo seria a gravidez terminar com uma cesariana. Com os diabetes controlados, o peso do bebé M. é perfeitamente normal e, a não ser que haja algum imprevisto, terei um parto normal. 

Tenho amigas que torcem para terem uma cesariana, outras que se batem fortemente por um parto normal. Encontro prós e contras nos dois. Enquanto não soube como seria o desfecho da minha gravidez não sabia muito bem o que pensar, e acho que não queria pensar mesmo (eu preciso de certezas para me sentir bem). Agora sei o tipo de parto que me espera e embora seja algo que me assuste não estou muito preocupada. O meu pensamento sempre foi por muito difícil que seja, se as outras passam pelo mesmo e sobrevivem eu também vou sobreviver. Sei que vou estar exposta a uma dor como nunca estive antes, tanto pela intensidade como pela duração, mais do que isso não consigo dizer. Tenho amigas que nunca imaginaram descontrolar-se como se descontrolaram durante o parto, tenho amigas que trataram mal toda a gente, outras que rezaram o Pai Nosso (que nem sabiam que sabiam rezar), outras que disseram palavrões em línguas estrangeiras, conhecidas que morderam os maridos e tenho outras amigas que guardam boas recordações do parto, que lhes trouxe apenas dores moderadas e com as quais lidaram bem. Não sou piegas, mas nunca passei por momentos de dor intensa, de modo que não consigo antecipar as minhas reacções. Sei apenas que, caso seja possível, quero ficar em casa o maior tempo possível e só depois ir para o hospital, e também sei que se não houver nada contra quero epidural (que eu não acredito que o sofrimento me leve ao céu, nem acredito que haja céu). 

35 semanas!

Como é que já estamos nas 35 semanas?

O M. tem intercalado fases de movimento intenso com fases de sorna absoluta. Agora soluça invariavelmente duas vezes por dia e, olhando para a minha barriga, diria que continua a crescer. A médica diz que tenho uma barriga pequena, mas eu continuo a achar que tenho uma pança considerável. Continuo bem, muito melhor do que nos 1º e 2º trimestres, embora no início desta semana tenha tido umas cólicas muito ténues, mas que me assustaram um pouco. Como tenho estado a 100% aquela ligeira impressão deixou-me algo preocupada, mas foi coisa para vir e sumir no dia seguinte. Daqui a uma semana o puto já pode nascer, que já não é considerado prematuro, mas para já que se deixe ficar no ninho mais uma semana, idealmente duas. Há encomendas que ainda não chegaram a dava-me jeito que cá estivessem antes que o rebento se juntasse a nós! O quarto já está organizado, faltam meia dúzia de pormenores pouco relevantes que hão de vir nas tais encomendas. 

As malas ainda não estão feitas, resultado de pura procrastinação. É como se admitisse que a partir do momento em que tenho as malas prontinhas isto vai mesmo acontecer e vamos passar a ser três. Claro que quero que sejamos três, mas ainda assim não deixa de assustar esta mudança radical. De modo que ando para aqui a arrastar o fazer as malas. Já há coisas separadas, não vá ele decidir nascer mais cedo, mas ainda não há nada dentro das malas, até porque... eu achei que merecia uma prenda e estava mesmo a precisar de uma mala de cabine nova e aproveitei a ocasião. Pode ser que ainda chegue amanhã. Esta semana, depois de arrumar todas as mini-roupas, também me pareceu que o M. não tinha assim tanta roupa de recém-nascido como eu achava (roupa para três meses tem para dar e vender) e acabei por encomendar mais uns fatitos, que chegaram hoje. E, claro, alguns irão para a maternidade, de modo que ainda não podia ter as malas prontas (desculpas, desculpas!).

Na próxima semana terei a lista do que levar para o hospital, mas de uma pesquisa que fiz online de listas de vários hospitais italianos (claro, aquele para onde vou não consta), encontrei uma diversidade considerável. Uns especificam até à exaustão, outros não exigem grande coisa, outros limitam-se mesmo ao bom senso, e outros chegam a pedir copo e talheres (?!). Por favor, que no hospital para onde vou haja bom senso (talheres??).

5 semanas! Final countdown!

26.11.14

tenho um urso no estendal!


banheira ou floreira!

Já tinha uma banheira normal com um adaptador para recém-nascido, mas depois de muito ler e ouvir lá me decidi a comprar a shantala. Umas amigas deram-se bem e os miúdos adoraram, outras experimentaram uma vez singular e nunca mais lhe tocaram. Nunca tinha visto nenhuma ao vivo e fiquei surpreendida com o tamanho (aquilo é grande!). Se não lhe der uso, e tendo em conta as dimensões da dita cuja, vai servir de floreira!

24.11.14

o tempo é relativo

Se me perguntarem há quanto tempo estamos juntos e eu responder num número, este vai parecer pequeno e nada relevante, mas há outras formas de responder.

Estamos juntos há tempo suficiente para:
- termos vivido cada um num país diferente, limitados ao chat, ao skype e ao telemóvel;
- lhe ter anunciado à distância que estava grávida;
- chorarmos juntos, cada um no seu país, quando soubemos que a gravidez tinha parado de evoluir;
- eu ter acordado da anestesia da curetagem e ter uma mensagem Dele a dizer-me que tinha conseguido o emprego no mesmo sítio onde eu já trabalhava;
- termos feito uma road trip;
- termos tirado muitas fotos com sorrisos verdadeiros;
- termos vivido em 3 casas diferentes em Itália, mais a casa portuguesa;
- termos ido a Barcelona;
- termos visitado Bérgamo, Pavia, Como, Bolonha e Veneza;
- termos ido a Lugano e a Zurique;
- termos passado o ano em Amsterdão;
- termos ido a Portugal vezes sem conta;
- termos dado pulos de felicidade quando voltámos a engravidar;
- termos chorado juntos no corredor daquele hospital quando confirmámos que, pela segunda vez, a gravidez era não evolutiva;
- termos passeado na neve;
- estarmos juntos quando fiz a segunda curetagem;
- termos ido a Malta e termos ficado apaixonados por aquele país;
- termos morrido de calor e cansaço no Dubai;
- termos ido a Hong Kong e querermos voltar;
- engravidarmos pela terceira vez;
- nadarmos em ansiedade antes de cada consulta;
- respirarmos de alívio depois de cada consulta;
- termos apanhado um escaldão em Cinque Terre;
- termos ido a Sirmione e Turim;
- termos ido a Dubrovnik e caminharmos como se não houvesse amanhã;
- termos apanhado um susto enorme quando fui a Riga;
- termos casado;
- termos vegetado na Gran Canária;
- termos ido a Londres sem apanhar mau tempo;
- estarmos a 5 semanas de termos um filho.

Estamos juntos há muito.

assunto: xixi

Ainda antes do teste me mostrar as duas riscas rosa já eu fazia uma viagem diária nocturna para a casa de banho (coisa que nunca me aconteceu antes da gravidez). Nesta altura morava numa casa que tinha o quarto em cima e a casa de banho no andar de baixo, o que me obrigava verdadeiramente a despertar e me fazia ter noites menos boas. O ritmo do xixi manteve-se por longos meses, até que recentemente passei a levantar-me duas vezes por noite. Agora passei à fase das três visitas nocturnas à casa de banho. A parte boa é que durmo mesmo muito bem, de modo que é levantar, deitar e adormecer de novo. Durante o dia, a sensação de bexiga cheia (que normalmente não passa mesmo de uma sensação) é quase permanente, o que me obriga, antes de qualquer saída de casa, a antecipar onde haverá casas de banho. Faltam 5 semanas, yeah!

23.11.14

You are what your mother ate

Filho, devo informar que és basicamente brócolos, tomate, espinafres, couve-flor, ovos, salmão e maçãs. Podia ser pior!

dois quilos de gente

Ontem tive esperança de conseguir ver as feições do M. na ecografia a 3D, mas o miúdo tem mau feitio e só nos deixou ver o nariz e um olho. Mas isto é mesmo um pormenor sem relevância nenhuma, é mariquice de quem já se sente mais seguro e acredita que desta vez vamos mesmo chegar a bom porto. O importante é que ele continua a desenvolver-se normalmente. Todas as medições rondam o percentil 50 (já uso a palavra percentis, estou quase uma mãe feita!) e pesa 2350 gramas. Está crescido! 

Desvaneceram-se os meus receios de estar a perder peso e de o estar a prejudicar, e isso fez-me respirar de alívio. A sensação de não lhe conseguir dar as melhores condições dentro da minha barriga estava a fazer-me ter pensamentos menos bons. Estamos nós a preparar tudo cá fora para que ele chegue e seja recebido com todo o conforto e segurança, e depois, aquilo que à partida é garantido, segurança in-útero, eu não lhe consigo dar? Pronto, pensamento afastado para longe para meu descanso e bem-estar da mini-criatura. Confirmou-se que emagreci um quilo desde a última consulta, mas o M. continua a crescer, de modo que a minha perda de peso não o afecta, e portanto não faz mal a ninguém.

Os diabetes, apesar de os meus valores de glicose nem sempre serem os melhores, não estão a afectar o pequenote. Aliás, a minha perda de peso deve ser efeito da dieta que faço para tentar controlar os valores da glicémia. Para quem quer emagrecer, o segredo - que não é segredo nenhum - é mesmo aquele que todos sabemos: nada de doces, corte radical nos hidratos de carbono e comer frequentemente. Eu achava que era difícil comer de 2 em 2 horas, mas a verdade é que tendo em conta o que como em cada refeição, 2 horas depois tenho mesmo fome! Tenho neste momento mais 6 quilos do que tinha quando engravidei e estou a pouco mais de 5 semanas do parto. Efeito positivo dos diabetes: ajudaram-me a não ganhar peso de forma exagerada. Desconfio que depois do parto estes seis quilos desaparecerão em três tempos... se eu não me desgraçar e decidir tirar a desforra desta fome de doces e açúcar, claro!

Saí do consultório com a prescrição para as análises necessárias para o parto e com nova consulta marcada para próximo das 38 semanas (tudo soa agora a recta final, e eu acho que ainda não estou bem ciente da realidade). Apesar da nossa vontade para que ele nascesse antes do Natal começo a convencer-me que o mais provável é isso não acontecer.

Enquanto escrevi este texto o bebé M. fez a minha barriga andar num reboliço de um lado para o outro, e disto vou ter muitas saudades (é possível começar a passar pelos baby blues ainda antes do bebé nascer?!).

21.11.14

o futuro

Na primeira fase da gravidez tive vontade de pegar em nós e nas nossas coisas e rumar à minha zona de conforto. Não me parece um sentimento estranho, confrontada com uma completa novidade e uma enorme responsabilidade o mais fácil seria refugiar-me junto aos meus. Quase oito meses depois do início desta viagem esta sensação desvaneceu-se. Claro que idealmente teria a família e os amigos por perto a toda a hora, mas idealmente  faria muitas outras coisas que a vida real não me permite. Não quero necessariamente regressar a Portugal, mas sei que quero sair do lugar onde estou agora. Mudar-me para Itália trouxe-me o que eu não imaginava ser possível, mas trouxe-me também um lado negro que eu não quero prolongar. Dou comigo a achar que era capaz de ter uma vida nómada, dois ou três anos aqui, dois ou três anos ali, e que isso me faria feliz. Viajar é uma das minhas paixões, e viajar no sentido de se conhecer por dentro o sítio onde se está não se consegue em meia dúzia de dias, por muitas voltas que se dêem e por muitos museus que se visitem. Viver por períodos de tempo relativamente curtos aqui e ali é uma forma diferente de viajar e isso agrada-me. Não tenho limites geográficos, gosto da diferença e, por mim, mudava-me para outro continente. É certo que as minhas decisões agora são as nossas decisões e temos visões um pouco diferentes  da nossa vida ideal, mas ambos concordamos que sair daqui é prioritário neste momento, seja para perto ou para longe.

34 semanas

Às 34 semanas o puto descobriu que eu tenho bexiga e diverte-se a beliscá-la de vez em quando. Descobri também que tomar um banho de imersão já foi mais fácil, especialmente quando não tinha que pensar nos movimentos que tenho que fazer para me deitar e levantar! De resto, (quase) tudo óptimo. Durmo mais e melhor agora do que há uns meses, não tenho dores nem impressões pouco simpáticas. Estou um pouco cansada de comer sopa ao pequeno-almoço, e comer hidratos de carbono de vez em quando também era coisa para me saber bem, mas é por uma muito boa causa. Os diabetes estão assim assim, mas mais do que tenho feito é mesmo impossível. A cria mexe que se farta, especialmente à noite (isto não augura nada de bom), e continua a crescer, o que me faz ter uma barriga de quem comeu uma melancia, uma abóbora e umas duas meloas. Tenho a barriga mais alta do lado esquerdo que do lado direito, já que a mini-criatura decidiu virar o seu rabo para o lado esquerdo. De vez em quando estica as pernas para o lado direito e aí sinto-o a querer escapar-se até às minhas costas. Um dia destes acordo transformada numa grávida-dromedário. Toda a mini-roupa está lavada e passada e o quarto já se parece mais com um quarto, embora ainda faltem umas coisitas. Comprei um vinil com um mapa-mundo para lhe colar na parede do quarto. Há que se ir habituando de pequenino a que o mundo é grande, e não se limita à Europa. Aliás, ele tem razões para vir a ter um apreço especial pela Ásia! Faltam... 6 semanas!

19.11.14

eficiência

Quando estive em Londres entrei no Marks & Spencer e apaixonei-me por uma capa de edredão. Linda, invernal e tudo a ver comigo. Mas o raio da capa pesava que se fartava e as nossas malas já vinham com o peso contado. Despedi-me da capa, virei costas e fui à minha vidinha. Ontem, a capa chamou por mim ao longe e lá fui eu ao site da Marks & Spencer, imaginando que não enviariam encomendas para fora do Reino Unido. Percebi de imediato que enviam e que não cobram couro e cabelo pelos portes. Encomendei a capa de edredão no início da tarde. Hoje, tinha acabado de almoçar e tocam à campainha: a capa de edredão já chegou! Podia dissertar sobre as diferenças entre a Itália e o Reino Unido, mas acho que me fico por aqui.

18.11.14

inspira, expira e tenta manter a calma

A luta contra os valores elevados de glicose continua. A dose de insulina que estou a tomar é mínima e parece-me que não faz grande diferença. Por outro lado, parece-me que, tal como é frequentemente descrito, os valores de glicose tendem a aumentar à medida que a gravidez avança. Significa isto que aquilo que comia há umas semanas e fazia com que tivesse um bom valor, agora não produz um bom resultado. Uma verdadeira dor de cabeça e um puzzle nada fácil de encaixar. Aborrece-me ter que controlar as horas a que como, olhar para o relógio sempre que inicio uma refeição, estar atenta ao momento em que se completam exactamente 60 minutos após ter começado a comer, picar o dedo nessa altura e ver frequentemente um valor aparentemente inexplicável. Agora junta-se a isto a picadela com a caneta de insulina antes do jantar. Não dói picar os dedos para medir os níveis de açúcar e também não dói nada injectar a insulina, mas todo este ritual diário me aborrece, especialmente porque o resultado não é brilhante. Em princípio os meus diabetes desaparecerão após o parto, mas poderá haver consequências para o M. e não deixo de achar a atitude do endocrinologista extremamente irresponsável quando me diz Vai tomar 2 unidades de insulina antes de jantar e daqui a um mês vemos como estão as coisas. E se as coisas não melhoram nada, e se pioram? E se estas experiências que aparentemente não têm grande resultado tiverem consequências para o bebé? Daqui a uns dias tenho nova consulta com a obstetra e poderei ver como está a evolução do peso do M. e como está a quantidade de líquido amniótico. Se nem uma coisa nem outra estiverem fora dos valores padrão ficarei mais descansada, mas por agora estou bastante reticente. 

crianças e viagens

Eu e Ele somos muito diferentes. Quem olha para nós não imagina que a pessoa selvagem e a aventureira do casal sou eu. Ele gosta mais de estar na sua zona de conforto, de jogar pelo seguro. Eu sou dada a correr riscos. Posso vir a mudar daqui a uns meses, mas para já mantenho-me fiel a quem sempre fui. Há dias falávamos de viagens no futuro e, claro, também aí as diferenças são marcadas. Ele mantém a vontade de visitar destinos citadinos e aparentemente seguros, eu mantenho a minha vontade de conhecer a diferença e dá-la a conhecer ao ser que se vai juntar a nós. Ele fala-me de perigos e possíveis doenças, eu respondo-lhe dizendo que não quero criar uma flor de estufa. Hoje cruzei-me com esta entrevista à Isabel Saldanha e identifiquei-me tanto com esta frase:
(...)  mais importante que vacinar as loirinhas contra a malária era ter a certeza que elas ficariam vacinadas contra a ignorância.
Este texto, também do Filipe Morato Gomes, vale igualmente a pena ler.

17.11.14

50% ocidente | 50% oriente

Moram desde ontem cá em casa:


Fazem companhia a estes pratos que me acompanham quase desde que me mudei para Itália:

Adoro esta mistura oriente-ocidente.

Fotos daqui.

perder o pio

Por estar a viver longe tenho-me escapado a ouvir os comentários habituais, e que todas as grávidas preferem não ter que ouvir. Mas os diabetes têm-me obrigado a escutar palpites, conselhos e afins que me cansam. Sei bem que a maioria não é dita com má intenção, mas cansa na mesma.

O que mais me irritou foi dizerem-me que tenho tempo para comer doces, que já só falta mês e meio. Inspirei, expirei e fui incapaz de não perguntar O que comeste hoje ao pequeno-almoço? Um pão com manteiga e café com leite. E hoje ao almoço? Esparguete à bolonhesa. E ontem ao jantar? Arroz de ervilhas com filetes de pescada. Se tivesses diabetes gestacionais não podias comer nada disso, e não estamos a falar de doces, pois não? E não piou mais.

14.11.14

eu e a dieta

Jejum: valor da glicose nada bom

Pequeno-almoço de hoje: sopa de ervilhas com ovo escalfado - valor da glicose bom

Almoço de hoje: salmão, legumes gratinados e sopa de ervilhas - valor da glicose muito bom


Ainda antes de me serem diagnosticados os diabetes gestacionais, lembro-me de ler um blog de uma grávida que dizia que a única forma de controlar a glicose de manhã era comer sopa. Aquilo ficou-me na memória, sopa de manhã?, bolas, bolas, bolas. Pronto, juntei-me ao grupo da sopa matinal. Quando puder dar uma dentada numa torrada com manteiga dou pulinhos de felicidade.

diabetes gestacionais 2 - Rosa 1

Andei uns dias com os valores de glicose decentes, mas de há uns dias para cá os valores voltaram a disparar. Pensei que poderia ser por estar fora de casa. Apesar de tentar seguir a dieta, não fui eu que cozinhei durante os dias em Londres e, por muito que tentasse escolher bem o que comia, não conseguia controlar todo o processo. Voltei a Itália e a casa e os valores altos mantiveram-se. Ontem comi o que já comi noutras ocasiões com bons resultados, mas desta vez foram desastrosos. 

Ontem tive consulta e tive vontade de esbofetear o endocrinologista. Primeiro comentário da criatura mal lhe ponho a tabela dos valores à frente "Não anda a seguir a dieta". Não gostei do comentário, mas lá expliquei à alma que efectivamente não estava a seguir a dieta que me tinha indicado, porque com aquela dieta não conseguia controlar os valores de glicose, o que me obrigou a fazer adaptações. Contei-lhe que praticamente não comia hidratos de carbono (que a dieta indicada por ele permite) porque se, por exemplo, tocasse em pão ou massa os valores não eram altos, eram altíssimos. Dei-lhe o exemplo do meu pequeno-almoço: um tomate cru, queijo ricota e chá e que só assim conseguia ter valores decentes. Expliquei que esta adaptação da dieta tinha resultado durante uns dias, mas que agora não funcionava. Fez orelhas moucas e voltou a insistir em seguir a dieta. Eu não tenho grande paciência para falar com quem não me ouve nem quer ouvir.

Ele é o especialista, tem obrigação de saber que os diabetes gestacionais podem não se resolver só com dieta. Eu estou a perder peso, bolas! Isso não chega para ele perceber que eu não ando a comer bolas de Berlim às escondidas? Há casos de diabetes gestacionais em que as grávidas têm que tomar insulina porque por mais voltas que dêem à dieta e à imaginação não conseguem controlar os valores da glicose. Lamento muito, mas não tenho mão nas hormonas produzidas pela minha placenta. Durante a consulta lembrei-me da obstetra que mal identificou os diabetes gestacionais disse que o mais certo seria eu ter que tomar insulina, porque dado o meu peso não estava a ver como é que a dieta poderia resolver a questão.

Depois de muito discursar sobre a dieta lá disse que iria começar a tomar insulina, "mas só duas doses uma vez por dia, e não é para relaxar relativamente à dieta!". Nesta fase já imaginava o médico como um bonequinho de voodoo nas minhas mãos e eu espetava-o alegremente com várias canetas de insulina e outras tantas da glicémia.

Portanto é isto, um mês depois vou começar a tomar insulina. Espero que isto me ajude a ter valores normais de glicose no sangue. Olhar para o monitor e ver lá um valor exorbitante depois de ter comido duas rodelas de cenoura e três folhas de espinafres é desesperante.

13.11.14

sobre o parto

Idealmente gostaríamos que o M. nascesse antes do Natal. Não me faz confusão nenhuma que o bebé nasça muito próximo do Natal ou entre o Natal e o ano novo. Muitos me dizem que depois, coitadinho, só vai ter direito a uma prenda e eu já nem respondo, quero lá saber das prendas. Estrategicamente dava-nos jeito que o M. nascesse antes do Natal, porque o pai terá direito a uns dias de pausa no trabalho entre o Natal e o ano novo e assim estaríamos os dois em casa sem haver necessidade de gastar dias adicionais de férias. 

A médica que me segue é meia italiana, meia holandesa. E, pelo que tenho percebido, é apologista de tudo decorrer da forma mais natural possível (na Holanda penso que quase todos os obstetras são assim, cá ainda não percebi). ElE há dias perguntou-me o que achava sobre tentarmos perceber a posição dela sobre a possibilidade de provocar o parto uns dias antes da data prevista, caso isso não prejudicasse o bebé, naturalmente. Mas eu não estou para aí virada, se por algum motivo o parto tiver que ser provocado, que seja. Mas, por opção, não. Já é uma fase stressante só por si, não quero passar dias a pensar no mesmo, nem uma noite em claro a pensar é amanhã às tantas horas! Prefiro ser surpreendida. 

peguei os soluços ao puto!

Tenho muitas vezes soluços, especialmente em ocasiões em que não convém, por exemplo, quando estou numa biblioteca silenciosa. Não são soluços quase inaudíveis, são soluços que fazem questão de mostrar que estão ali. Já me habituei, quando soluço rio também da minha figura, o que não melhora a situação, mas me deixa bem disposta. ElE gozava comigo por causa dos soluços. Pois que o bebé M. decidiu sair a mim nesse aspecto e soluça praticamente dia sim dia não (às vezes mais do que uma vez no mesmo dia). Das primeiras vezes fiquei na dúvida, será, não será?, e bem Lhe punha a mão em cima da barriga, mas ele não sentia nada. Achava que era maluquice minha, onde é que já se viu um bebé ter soluços dentro do útero? Mas eu já tinha lido sobre isso e sabia que era possível e não tão infrequente assim. Nos últimos dias os soluços do rebento já se sentem por fora, pus-Lhe a mão na minha barriga e Ele sentiu o filho a soluçar. E os soluços provocaram um brilho especial naqueles olhos.

a carta fora do baralho

Pertenço a um grupo de grávidas, o que ajuda muito a partilhar informação e experiências, especialmente para quem, como eu, está longe do seu núcleo. Mas tenho que admitir que me sinto um ser estranho no grupo:
- grande parte aumenta de peso como se não houvesse amanhã; eu estou a perder peso
- quase todas comem doces, chocolates e pratos altamente calóricos (isto é capaz de explicar o ponto anterior) e publicam fotos das iguarias que provocam salivação; eu ando a tomate e queijo ricota (é forçado, mas é o que é)
- grande parte compra roupa rosa (para quem vai ter meninas) ou roupa azul bebé (no caso de ser um menino); eu tenho um arco-íris no armário do puto
- todas vão ter príncipes e princesas; eu vou ter um rebento, uma mini-criatura, um mini-urso, dependendo do humor. O pai também lhe chama sacanita
- já têm quase todas os quartos dos rebentos prontos há que tempos; eu deixei de ter um estaleiro na semana passada, mas ainda está longe de ser um quarto
- já todas têm as malas para levar para a maternidade prontas; a desleixada cá do sítio espera ter malas prontas no final da próxima semana
- as roupas que vão levar para a maternidade para vestir aos putos estão cheias de laçarotes e folhos e coisas afins; ainda não sei quais serão as primeiras roupas da mini-criatura, mas dado o leque de escolhas disponíveis diria que o puto vai andar sempre de babygrow e quando vier para casa há de ser de babygrow e um fato preto de urso em cima
- todas lêem compêndios ilustrados sobre gravidez ou livros fofinhos com palavras suaves e delicadas; estou a ler o Pregnancy for Dummies...
- quase todas têm dores em todos os lados e mais alguns; não me dói nada
- todas se sentem desconfortáveis, não podem com uma gata pelo rabo e muitas já raramente saem de casa; tento não limitar a minha vida porque estou grávida, faço antes algumas adaptações que me permitem continuar a ser eu, quem sempre fui, mas grávida
- algumas já têm a primeira consulta com o pediatra marcada; deve ser ignorância minha, mas ir a um pediatra ainda grávida serve para quê?
- todas adoraram os 1º e 2º trimestres e estão a odiar o 3º; a fase actual está a ser a minha fase preferida da gravidez
- grande parte quer fazer uma barriga de gesso; continuo sem perceber que raio se faz depois com aquele contorno de pança
- todas se queixam de não dormir; acordo para o xixi e normalmente retomo o sono sem grandes problemas
- quase todas se acham enormes e sem nada de jeito para vestir; tenho uma barriga de Pai Natal, mas continuo a usar os vestidos de malha do Inverno passado e a sentir-me engraçada (desproporcional, mas engraçada!)

É como dizem os meus pais "Nunca foste normal, não havia de ser agora!".

uma das minhas fotos preferidas desta viagem

Já fui a Londres várias vezes. Cada viagem foi diferente e de cada uma guardo momentos especiais. Esta foi a nossa última viagem a dois e por isso tem logo um significado particular. Não tirei as centenas de fotos habituais porque não me apeteceu carregar a máquina todos os dias, nem para todo o lado (ao fim do dia a carteira pesava que se fartava!, coisas de grávida). Acabei por tirar algumas fotos com o telemóvel e, curiosamente, uma das minhas fotos preferidas desta viagem foi mesmo tirada com o telemóvel:


33 semanas!

Às 33 semanas tenho uma preocupação: o meu peso, que se manteve constante por umas boas semanas, agora decidiu diminuir. No dia em que completo as 33 semanas tenho mais 6 quilos do que tinha quando engravidei. Já tive mais 7 quilos, agora tenho 6. É certo que nestes últimos dias me fartei de caminhar, o que pode muito bem ajudar a explicar a perda de peso. Mas, por outro lado, não consigo deixar de pensar que os diabetes podem ser responsáveis pelo que está a acontecer com o meu peso. Descansa-me ver que a barriga continua a crescer e que o bebé se mexe vigorosamente, mas não consigo deixar de ficar preocupada com esta evolução incomum do meu peso.

Na semana passada, o bebé M. teve um dia de pura preguiça. Ia-me levando à loucura: não o conseguia sentir. Cheguei a comer bolachas doces para ver se o açúcar o fazia mexer, mas não resultou. Deitei-me um bom bocado à espera de sentir movimento e nada. Já estava decidida a ir às urgências quando me lembrei de tentar encontrar os batimentos cardíacos da mini-criatura com uma app que descarreguei há uns tempos (MyBabyBeat). 

Na primeira tentativa não senti nada, mas mal encostei o telemóvel à barriga, senti um movimento ligeiro, mas era um movimento. Afasto o telemóvel e torno a encostar e novo movimento subtil. Não sei se era por o telemóvel estar frio, mas a verdade é que o bebé se mexia ligeiramente sempre que encostava o telemóvel à barriga. Depois de várias tentativas lá consegui encontrar o batimento cardíaco de sua excelência, o bebé preguiçoso: podem ouvir aqui o coração do bebé M. Nesse dia à noite mexeu como se não houvesse amanhã e assim tem continuado. Ontem, no aeroporto, via a barriga a mexer, mesmo com uma camisola de lã bem grossa vestida.

Se nascer daqui a 3 semanas já não é prematuro!

12.11.14

de Londres

Ainda em Londres, mas quase de regresso. É possível viajar com quase 7 meses e meio de gravidez, mas há que saber dosear a energia. Nos primeiros dois dias agi como se não estivesse grávida e ao terceiro vi-me obrigada a desacelerar. Serviu-me de lição: nos dias seguintes fiz mais pausas para cappuccino e nada de cansaço exagerado. 

Soube-me bem sair de casa, do canto habitual, e passear a barriga por aí. Falei com várias mulheres que se mostraram admiradas por viajar com uma barriga deste tamanho. Acho que grávidas ou não nos devemos manter fiéis à nossa essência, e viajar faz parte do que sou. Logo, se medicamente nada me impede de viajar por que não o hei de fazer?

Este livro já estava lá por casa há umas semanas, mas ainda não tinha tido oportunidade de lhe pegar. Li-o agora, de um fôlego, e soube a pouco. Descobri o Agualusa há uns anos, por acaso. Ia para a praia, não tinha nada para ler, e encontrei um livro de crónicas dele na estante de um amigo. Levei-o e foi devorado nessa tarde quente de mais sol que mar. Gostei da forma da escrita e do conteúdo. Li outros depois desse e cada vez me agradou mais. Há pouco tempo encontrei este livro e tive que o levar para casa. São crónicas de um pai apaixonado pela paternidade e pelo filho, mas que continua a ser uma pessoa atenta ao mundo, irónica e mordaz. Agora vou passá-lo ao pai em nascimento cá de casa.

6.11.14

32 semanas!

Lembro-me de às 18 semanas me ter apercebido de uns sinais mais evidentes de barriga e agora, de um momento para o outro, chegámos às 32. Faltam 8 Domingos até ao final do ano. Faltam  8 Domingos até ao final do ano!

Apesar de depois de ter dado pulos de felicidade ter tido mais um ou outro valor de glicose acima do permitido, não me parece nada de grave. Foram refeições em que decidi experimentar introduzir novos alimentos para testar, e o teste claramente mostrou que não foram ideias brilhantes. De modo que vou mantendo o mesmo registo, e vou mantendo os diabetes controlados. Desconfio que já depois do parto vou manter algumas características desta dieta, mas vou ficar feliz por poder voltar a comer fruta como e quando bem me apetecer.

Só volto a ter consulta daqui a duas semanas, mas desconfio que o M. se continua a desenvolver bem. A barriga continua a crescer e agora sinto os movimentos de forma diferente. Imagino que o espaço para se mexer esteja cada vez mais limitado, o que torna os movimentos menos nítidos, mas mais globais.

A primeira semana da licença de maternidade não tem sido propriamente excitante: vida de dona de casa que sempre me aborreceu imenso, mas desta vez não há como fugir às limpezas gerais da casa (desconfio que durante os próximos tempos não terei tempo nem paciência para isto) e tratar da roupa do bebé (finalmente começa a haver roupa lavada e passada, yeah!).

Daqui a dois dias rumamos a Londres para a nossa última viagem a dois (mais um escondido) e espero bem não ter problemas no embarque. Até agora nunca me pediram a declaração do médico a autorizar a viagem, mas desta vez desconfio que não escapo. Ainda estou dentro do período em que é permitido viajar e tenho autorização médica, mas já li relatos em que grávidas tiveram problemas em embarcar, ainda que tudo estivesse de acordo com o solicitado pelas companhias aéreas. Não quero ficar em terra, já há um plano bem interessante de viagem traçado!

Vou voltar às lides de fada do lar!