20.12.14

licença de maternidade produtiva

A fase pré-parto está a ser particularmente produtiva. Eu bem tinha dito que o mais certo era um dos artigos ficar pelo caminho, mas depois dei comigo a pensar que não perdia nada em tentar. Não fui perfeccionista, sei bem que podia estar mais completo e pormenorizado, mas está terminado e submetido. Atirei o barro à parede, vamos ver se cola ou se os editores me mandam dar uma voltinha. Não é de  certeza o meu melhor artigo, mas ter conseguido terminá-lo nesta fase é para mim uma vitória. 

Tudo o que havia para fazer nesta fase está feito, submetido e aceite. Eu própria me admiro com o que consegui produzir desde o início de Novembro. Um capítulo está em banho-maria, mas está aceite (o mais relevante) e tenho tempo de o aprimorar até quase final de Fevereiro. Foram umas semanas um pouco loucas, entre as limpezas em casa, a preparação de tudo para a chegada do M. e esta febre de escrever (imagino que com receio que o que se segue me limite a escrita), mas ter estado muito ocupada foi o melhor remédio para não ficar simplesmente em casa à espera, que é coisa para a qual não tenho mesmo apetência.

a aproximação do dia M.

No meu grupo de grávidas já há seis bebés, todos na incubadora. Este cenário não me deixa totalmente descansada, mas nada a fazer, é esperar para ver. Supostamente o M. desenvolveu-se normalmente, os pulmões estão prontos para a vida fora do útero e tem um peso que não levanta preocupações. Vamos lá ver se os meus diabetes não fazem das suas no pequenote.

Ontem fomos às compras e está ali um panettone de chocolate a piscar-me o olho. Eu brinco e digo que me vou vingar e comer todos os doces a que tenho direito e mais alguns, mas na verdade não acredito que me apeteça fazê-lo. Tenho que admitir que olhar para tanta caixa de bombom me deixou ligeiramente agoniada, mas um bocadinho daquele panettone não me vai escapar. Isto é um pouco ridículo e soa a pouco selecto, mas o que me apetecia mesmo era poder fincar o dente num pão da avó da pastelaria do meu prédio em Aveiro. Como não pode ser para já lá vou ter que esperar até final de Janeiro.

Também fiz outro tipo de compras e não resisti a oferecer-me roupa nova para depois da gravidez. Mereço e vai saber-me tão bem vestir roupa de mulher normal (quando lá conseguir entrar, claro!). Comigo veio também um verniz natalício, que ando mesmo com saudades de ter as unhas coloridas. Há vários cá por casa, mas achei que merecia um novo para começar esta nova fase com um brilho dourado acabado de estrear nas unhas.

19.12.14

ao menos que não tenha olhos em bico!

Num grupo de futuras mães de Janeiro já há três bebés e mais três grávidas em trabalho de parto. Os putos  aperceberam-se que o Natal estava perto e decidiram que queriam prendas já este ano. Mas dos três rebentos já cá fora, dois ficaram internados por terem baixo peso. Que o M. não fique internado seja lá por que motivo for! Os bebés filhos de mães com diabetes gestacionais têm maior tendência a ter icterícia. Eu gozava com o pai dizendo que o puto ia ser amarelo por ter sido fabricado em Hong Kong, e ainda vem mesmo amarelado, mas por outros motivos, oh vida!

38 semanas

Espero já não escrever o post das 39 semanas!

Novo CTG ontem: continuo quase sem contracções, de modo que o parto vai ser mesmo induzido.  Estamos em contagem decrescente para conhecer o M. Espero que a médica possa cumprir o que prometeu e que já possamos vir passar o Natal a casa. 

Esta semana passou quase sem darmos conta. O M. decidiu mudar a posição dos pés e agora faz pressão na minha barriga muito mais acima do que o habitual. Os diabetes estão mais difíceis de controlar, como seria de esperar nesta fase final. Eu continuo bem, sem me sentir demasiado pesada e sem me sentir limitada nos movimentos. 

Está quase!

17.12.14

coisas estranhas da minha gravidez:


  • tive azia duas ou três vezes, em dias seguidos, ainda numa fase muito precoce da gravidez. Não fazia ideia do que me estava a acontecer, nunca tinha sentido uma bola de fogo a trepar-me a garganta até àquele momento. Lembro-me que fui pesquisar na net e dei comigo a pensar que estava tramada. Se estava naquele estado naquela fase, quando chegasse aos últimos meses de gravidez estaria transformada num dragão a cuspir fogo. A azia veio do nada naquela altura e da mesmo forma se foi. Nada de azia depois disso.
  • lembro-me que foi antes de ter apanhado o susto tremendo que me levou ao tapete, e a meter baixa, portanto foi ainda em Julho. No final dos dias tinha os tornozelos e os pés inchados. Mais uma vez achei que não seria um bom augúrio. Ainda faltava tanto tempo e eu já com pezinhos de Fiona. Previ o pior. Estranhamente nos últimos tempos os pés e as pernas não incham. Nunca pensei chegar a esta fase e conseguir usar as botas de cano alto que costumo usar no Inverno, mas a verdade é que as pernas e os pés entram sem qualquer esforço. E um pormenor irrelevante como este ajuda tanto a manter a auto-estima em bons níveis e a fazer sentir-nos bem!
  • a obstetra avisou-me no início que não deveria aumentar mais do que um quilo por mês. Achei que não seria possível. Não andava propriamente esfomeada, mas o peso ia aumentando. Cheguei a ter mais 7 quilos do que tinha quando engravidei, agora tenho pouco mais de 4. 

receber encomendas em Itália - continuação da saga, para pior

A máquina fotográfica de que vos falei ontem chegou hoje. Significa isto que ela chegou e alguém a recebeu, mas não eu. Se há coisa que me vira do avesso neste país são os correios e as transportadoras, bem mais que a forma animalesca de conduzir desta gente e a xenofobia encapotada que nos passa despercebida inicialmente, mas que depois percebemos que existe e se sente em coisas pequeninas. Consigo lidar e ignorar quase tudo, sou para lá de tolerante, mas não se metam com as minhas encomendas, que eu transformo-me num ser ruim, ainda que em estado de graça. Mas como, como é que um estafeta da DHL italiana (ou da empresa subcontratada pela DHL - o problema é capaz de ser esse) entrega a encomenda a alguém que não é o destinatário? Entro no site da DHL, sigo os passos da encomenda e descubro que foi entregue, quando eu não recebi nada, ninguém tocou à campainha e ninguém me telefonou. Vejo o nome da criatura que recebeu a encomenda e dou comigo a pensar mas quem é esta alma? Pois que continuo sem saber, a única coisa que sei é que uma tal de Teresa tem neste momento nas mãos uma máquina fotográfica novinha em folha que na verdade devia estar nas minhas mãos.

a primeira viagem do M. para fora do país (e do lado de fora)

O M. já se fartou de viajar, mas a primeira viagem dele fora do útero será para lhe tratarmos do documento de identificação, de modo a que pouco tempo depois possa viajar para Portugal. Curiosamente, e dado o sítio onde moramos, é mais rápido e mais fácil tratarmos do cartão de cidadão do pequenote na Suíça do que em Itália. De modo que assim que eu esteja operacional, e ele também, lá rumamos os três ao consulado na Suíça para que o rebento tenha o seu documento de identificação. Não será uma viagem longa, mas desconfio que será a viagem mais longa da sua existência, quando acontecer. Para nós será um mini-teste que esperamos passar com distinção.

o pai

Ainda estava em Hong Kong e já tinha a sensação que estava grávida. Era uma sensação apenas. Não a comentei com Ele, não o queria a pensar que eu estava louca ou obcecada. Mas a verdade é que alguns dias antes do (não) esperado período fiz o teste e vi as duas riscas cor-de-rosa. A segunda era muito clara, estava lá, via-se, mas era mesmo muito ténue. Fiz o teste de manhã muito cedo numa casa que já não é a nossa. Vi as duas riscas e sorri por poder confirmar a sensação que tivera ainda noutro continente. Ele ainda estava a dormir, mostrei-lhe o teste, comentei o resultado. A reacção foi quase nenhuma. Imagino que entre o sono, a falta de luz e a risca clara (que ele simplesmente não via) tenha achado que eu estava a alucinar. Uns minutos depois, mais desperto, olhou bem para o teste e ficou a olhar para mim com um ar que li como E agora? Tinha abortado poucas semanas antes e tenho a certeza que o que imaginou foi a repetição do mesmo cenário pela terceira vez.

Envolveu-se sempre, vibrou com cada vitória, com cada medida dentro dos padrões normais, com cada ecografia em que víamos o M. a crescer, chorou quando soubemos que não havia qualquer alteração cromossómica, e chorou quando soubemos que era um menino, mas noto que só muito recentemente tudo o que está a acontecer se tornou verdadeiramente real. Agora delicia-se com o ondular da minha barriga, está mais ansioso que eu por poder pegar no filho e garante que vai desmaiar quando cortar o cordão umbilical.

Não há volta a dar, o envolvimento dos pais e das mães é necessariamente diferente. As mulheres sentem a gravidez desde início no seu corpo, com o que isso tem de bom e menos bom. Os homens limitam-se a ouvir relatos das sensações e mesmo vendo o embrião nas ecografias ainda lhes custa a acreditar que é real e a envolverem-se a outro nível. As mulheres sentem desde início, os homens limitam-se a escutar e a observar. Mais lá para a frente sentem finalmente os movimentos e esse parece-me o primeiro momento em que têm um banho de realidade: há mesmo um ser a mover-se debaixo da pele por baixo da mão deles. Os sentimentos envolvidos são os mesmos nuns e noutros, mas os tempos são muito diferentes (o que nem sempre é fácil de digerir por quem vai lá mais à frente nesta caminhada).

há mais ou menos 9 meses

É algo que não consigo explicar e que nunca tentei colocar por palavras, mas foi uma sensação que tive logo no início da gravidez actual. Tinha confirmado há meia dúzia de dias que estava grávida e houve uma fracção de segundo em que tive um medo terrível de não saber, de não ser capaz de cuidar devidamente do bebé que estava a caminho. Foi menos tempo que um segundo. Aquela sensação de fragilidade e receio foi diferente de tudo o que alguma vez tinha sentido, e foi tão genuinamente verdadeira e maternal. Lembrava-me de amigas mães recentes que tinham comentado este receio, mas já numa fase bem adiantada da gravidez. Naquela altura o M. era um punhado de células e eu viajei por uma porção de segundo até à fase que vivo agora. Aquela sensação tão real e tão longínqua fez-me crer que desta terceira vez tudo podia ser diferente, e até agora tem sido.

do que ficou lá atrás

Só houve um momento neste percurso em que me virei completamente do avesso com Ele. Estava grávida pela segunda vez com a nítida sensação (e algumas evidências) de que algo não estava a correr bem, e que o mais certo era a gravidez ter o mesmo fim infeliz da primeira. Ele disse-me que se tentava concentrar noutras coisas para não estar constantemente a pensar no mesmo, e que eu devia fazer o mesmo. Foi a gota de água. Sei bem que foi dito com boa intenção, mas a verdade é que tudo se passava no meu corpo. Eu é que sentia as mudanças, eu é que desesperava de cada vez que ia à casa de banho e via uma gota de sangue. Para mim era impossível desligar do que se estava a passar porque eu não podia ignorar os sinais evidentes de que algo parecia não estar bem. Naquele dia tentei engolir a fúria, mas não consegui. Sempre tive noção de que a gravidez é, obviamente, vivida de forma muito diferente pelo pai e pela mãe. Mas naquele dia ser-me dito que era possível centrar-me noutro assunto e ignorar o que se passava teve, para mim, proporções avassaladoras.

recta final

Tenho andado mais introspectiva, mais fechada em mim, a digerir a mudança radical que nos espera. As primeiras semanas de licença de maternidade foram muito produtivas, virei a casa do avesso, desarrumei, tornei a arrumar. Nestes últimos dias sinto que os dias se sucedem sem que nada de muito produtivo daí resulte, apesar do tempo passar num abrir e fechar de olhos. Acho que preciso destes dias de maior inércia para dar a última grande golfada de ar antes de submergir totalmente na maternidade.

Há uma coisa em que continuo tão eficaz como quando vim para casa, ou mais ainda, a escrita relacionada com o trabalho. Nestas últimas semanas despachei dois artigos e três capítulos de livro, e ainda estou a alinhavar o quarto, para que depois o consiga terminar já só a uma mão, já que a outra estará ocupada com o M. Ainda tenho a possibilidade de escrever mais um artigo até final do ano, mas este desconfio que fica pelo caminho. Noutra situação não perderia a oportunidade, mas neste caso acho mesmo que não vale o esforço. Valores mais altos se levantam.

As malas foram revistas e agora estão mesmo prontas. Temos tudo o que é essencial nesta fase (mais uma série de pormenores sem relevância nenhuma), do resto trataremos ao ritmo das necessidades que forem surgindo. O quarto do bebé também está pronto para o receber. Algumas partes das paredes continuam vazias, embora eu saiba o que lhes quero lá pôr: fotos, fotos e mais fotos. Finalmente colámos o mapa-mundo de vinil e ficou perfeito. 

Falta agora tratar de coisas práticas e corriqueiras, como ir às compras pensando já no Natal (estou a pensar em comida, nunca ligámos nada a presentes e este ano o nosso presente está embrulhado desde Abril) e tendo em consideração que eu poderei não estar em muito bom estado por alguns dias.

Daqui a uma semana, se tudo correr como o esperado, já haverá M. junto de nós.

16.12.14

máquina a caminho

A minha máquina fotográfica preferida morreu há uns meses. Tenho usado uma outra, mais recente, com mais funções e mais pesadona. Tentei convencer-me que esta era melhor, que me iria habituar a ela e que nos entenderíamos como eu me entendia com a minha preferida. Mas a minha predilecção pela máquina defunta mantém-se. Paixão é paixão, não há volta a dar. Esta pode ser melhor, mas o meu coração pende para outro lado. É fácil de transportar, não pesa nada e tira fotos com uma luz e umas cores que muito me agradam. É Natal, o rebento está a chegar e eu não me estou a ver a tirar-lhe mil e uma fotos com uma máquina que pesa quase tanto com ele. Não resisti, a irmã mais recente da máquina que sucumbiu vem a caminho. Só espero que chegue antes do dia M.!

mini-roupas natalícias

Tinha comprado meia dúzia de mini-roupas natalícias pensando que o M. podia nascer antes do Natal. As semanas foram passando e cada vez fui acreditando menos nisso, até que sou confrontada com um parto provocado antes do Natal. A mudar ligeiramente os conjuntos de roupa que já estavam definidos para o rebento e a dar-lhes um toque natalício aqui e ali. Afinal as fatiotas sempre vão ser usadas na altura certa!  

Pergunta recorrente dos últimos dias das poucas pessoas a quem contei a novidade: mas tu estás contente por o parto ser daqui a uma semana?, dito com ar incrédulo e olhos esbugalhados. A questão é há como evitar o parto? Sendo assim, venha daí o parto e o M. 

voltas e reviravoltas

Há 3 anos estava quase a voltar de Timor. Ainda lá estava, mas já começava a ter saudades do calor que mal me deixava respirar, do mar transparente, de fazer snorkeling, de Jako - a ilha sagrada com sabor a paraíso - e de tanto mais. Timor mudou-me, naquela altura eu ainda não tinha noção do quanto, mas já me sentia diferente. Há 2 anos tinha chegado há pouco da Suécia e da Sérvia. Duas realidades completamente diferentes, assim como as pessoas que conheci num lado e no outro. Há 2 anos estava quase de partida para a minha passagem de ano mais alternativa: a confusão das ruas de Siem Reap e o primeiro nascer do sol do ano em Angkor Wat, no Cambodja. Naquela altura andavam no ar duas possibilidades: mudar-me para Itália ou voltar a Timor. Ignorei uma vez na vida a paixão e optei pela razão. Mudei-me para onde ainda estou hoje. Há um ano, já a dois, estávamos prestes a voltar a Portugal, de onde seguimos para uma passagem de ano gelada em Amsterdão. Este ano estamos a menos de uma semana de ser três em Itália.

Agrada-me o inesperado, o não saber o que aí vem, o deixar o tempo e os acasos fluírem e aproveitar da melhor forma as oportunidades com que me vou deparando. A ver vamos o que poderei aqui acrescentar daqui a um ano.

15.12.14

a 3

Posso ter um ar frágil à primeira vista, mas é coisa que não sou mesmo. Sempre fui muito independente desde muito pequena e sempre me pareceu que uma característica estava aliada à outra. Ter viajado bastante sozinha também contribuiu para que aprendesse a desenrascar-me e estes já longos meses em Itália reforçaram tudo isto, especialmente os meses iniciais em que estive por minha conta. 

Estamos aqui só os dois e eu não me sinto só. Não sinto falta de nada nem de ninguém. Foi uma escolha minha pegar em meia dúzia de tralhas, metê-las numa mala e sair do país. Tinha emprego e uma vida confortável em Portugal, mas faltava-me o desafio (e agora falta-me de novo, estou ansiosa por tornar a meter a vida numa mala, mas isso é outra conversa). Fui atrás desse desafio e deixei tudo para trás, incluindo a pessoa com quem agora divido o meu tempo e o meu espaço. 

Cheguei a Itália e dois meses depois passava por um aborto sozinha. Estava só eu no momento em que se confirmou aquilo de que já suspeitava. Estava sozinha quando saí da clínica e fui para casa. Estava por minha conta quando fui trabalhar no dia seguinte à novidade nada feliz. Saí de casa sozinha quando, já com um embrião sem vida dentro de mim, fui passear porque a minha vida continuava, apesar da dele ter terminado tão cedo. Foi sozinha que entrei no hospital e na sala de operações para que o que restava daquela gravidez abandonasse o meu corpo. E foi num quarto vazio que acordei depois da anestesia. 

Talvez por sempre me ter bastado agora não sinta falta de nada nem de ninguém, porque a verdade é que agora tenho o dobro do que tinha antes. Agora somos dois, como fomos dois da segunda vez que abortei. Não sei dizer se me custou mais o primeiro ou o segundo aborto. Apesar de sermos dois da segunda vez, e apesar de ter alguém sempre comigo, tive que ver a tristeza imensa que te percorria os olhos e não tinha armas para a diminuir. Talvez isso tenha tornado o segundo aborto mais doloroso, isso e o facto de ser o segundo. É mais fácil tentar ignorar uma dor quando se está só. Fechamo-nos em nós mesmos e mais ninguém sabe o que nos corrói as entranhas. Ter alguém ao nosso lado que sabe que o sorriso que colámos no rosto é uma máscara dificulta o teatro. Temos fotos lindas tiradas no meio da neve. Ninguém sabe que no dia em que foram tiradas eu tinha um embrião morto dentro de mim, e ninguém, nem tu, sabia que  enquanto pisava e olhava para o branco da neve dava comigo a pensar no contraste que faria com o vermelho do sangue que perdia naquela altura.

Por tudo isto e muito mais continuo a acreditar que nos bastamos nesta fase mais sensível que aí vem. Não seremos apenas os três a partir de agora? Então que comecemos a ser apenas três desde já.

a dieta é para continuar

Pergunto ao endocrinologista o que fazer depois do parto. Basicamente o que eu queria era saber se parava imediatamente com a insulina após o parto ou se era necessário confirmar primeiro que o meu organismo tinha voltado a funcionar normalmente. Respondeu-me que devia continuar a dieta, não necessariamente nos moldes actuais, mas que deveria ter um cuidado especial com a alimentação. Reforçou o que eu já sabia: que grávidas com diabetes gestacionais têm maior tendência a ter diabetes no futuro e caso venha a engravidar de novo é quase certo que serei brindada outra vez com este bónus.

Os diabetes trouxeram-me dias de stress e algum desespero, mas fizeram-me mudar hábitos sobre os quais não reflectiria de outra forma. O meu paladar mudou nestes mais de 2 meses a dieta. O que para a maioria é pouco doce, para mim é agora uma explosão de açúcar na minha boca. Claro que me apetece comer uma fatia de bolo-rei, claro que me apetece voltar a comer uma fatia de bolo de maçã com mirtilos, mas tenho sérias dúvidas que consiga voltar a comer cereais cheios de açúcar de manhã. Eu, que inicialmente, não era grande fã do tomate ao pequeno-almoço, passei a gostar quando decidi que em vez de cru o podia "torrar" um pouco e lhe podia juntar meia dúzia de cogumelos e/ou um ovo. Há dois meses achava que as maçãs eram um fruto do demo, sem piada nenhuma, e agora estou viciada nas ditas cujas (não em todas, maçãs farinhentas é coisa de que nunca gostei e desconfio que nunca gostarei). Houve mesmo coisas que vieram para ficar. Pelo que tenho lido em fóruns de grávidas com diabetes, é comum os hábitos alimentares mudarem depois desta experiência inicialmente pouco amigável.

Ontem pesava mais 4 quilos do que antes de engravidar e nunca os resultados das minhas análises estiveram tão bons quanto nas últimas semanas. Sou obrigada a dar o braço a torcer e assumir que a dieta só me fez bem.

a vista da sala de partos


Se eu tiver a capacidade de olhar para fora e respirar fundo até é coisa para me acalmar!

contagem decrescente

Preferia um parto não agendado por duas razões: não stressar com a aproximação da data e poder ficar em casa o máximo tempo possível antes de ir para o hospital. Parece que não vai ser assim. Já tinha lido sobre isso e a obstetra acabou por o confirmar: não é habitual deixar que as grávidas com diabetes gestacionais cheguem ao final do tempo, ainda que os diabetes estejam controlados. Temos o parto agendado. O M. tem uma semana para se juntar a nós por livre e espontânea vontade ou receberá ordem de despejo, que me parece o mais certo.

É estranha esta sensação de saber antecipadamente o dia em que vamos ter o nosso filho connosco, ao nível de saber o sexo por mail, como também me aconteceu. Um estranho sentimento de que os minutos correm mais rápido que o habitual e não há como alterar esta situação. 

A obstetra aconselhou-me a relaxar e a aproveitar a última semana de sossego, mas acho que saber que falta uma semana me impede de relaxar. Há que fazer isto e aquilo agora, porque depois não vou conseguir e há que ir aqui e ali em tom de despedida e de aproveitar a liberdade que depois não terei. Estou mesmo em contagem decrescente.

Saber que a vida como a conhecemos até agora termina no dia X tem tanto de aterrador como de fabuloso. 

14.12.14

os sentimentos do momento

Sim, claro que tenho algum receio. Mas dentro de mim mora muito mais felicidade do que medo, sem qualquer comparação. Não há volta a dar-lhe, terei que passar pelo parto, portanto agora que o bebé já não será prematuro quanto mais depressa melhor. Nascerá ainda em 2014, como eu tanto gostava, e antes do Natal, como também queríamos. A não ser que haja algum imprevisto passaremos o Natal a três em nossa casa. Não há receio que se consiga sobrepor a este quadro que a dada altura julgámos não ser possível. Vamos deixar de sentir o M. pelos contornos da minha barriga e poder tocar-lhe sem obstáculos pelo meio. Faltam dias, ainda não sabemos quantos, mas muito poucos. E os dias que têm andado cinzentos ganharam outra cor aos nossos olhos.

actualização:

Bebé M. nascerá antes do Natal! Yeah! E desconfio que nunca mais teremos um presente de Natal assim.

12.12.14

opções

A maioria continua a achar estranho que o bebé nasça em Itália, e eu continuo sem perceber a admiração. É uma decisão puramente prática e racional. Caso o bebé nascesse em Portugal eu teria que voar pelo menos um mês antes do parto para lá. O pai trabalha em Itália, o que significaria que ficaríamos um em cada lado. Depois, nada nos garante que o rebento nasça no dia X. Logo o pai corria o risco de não estar quando o miúdo decidisse nascer. Após o parto eu e o bebé não poderíamos regressar a Itália num abrir e fechar de olhos, o que significaria que mais uma vez o pai voltaria sozinho para Itália e nós ficaríamos em Portugal. Perante isto, não percebo o espanto. Faria algum sentido o bebé nascer em Portugal?

Depois desta questão esclarecida vem outra mas os vossos pais não vão para Itália quando o bebé nascer? Não, foram avisados que nós queríamos estar sozinhos. Então e quando é que conhecem o neto? Quando formos a Portugal pela primeira vez! Eu sei, sou uma ave rara, mas sou uma ave rara que gosta de pensar de forma prática no que é melhor para si e para quem me rodeia. E este é um momento em que devemos ser egoístas. Virmos três para casa já é novidade suficiente para nós. Há toda uma realidade nova a descobrir, há que saber como a gerir e como nos adaptarmos a ela. Parece-me que isso já é novidade mais que suficiente para os primeiros tempos. Se juntássemos a isso termos mais 2 ou 3 pessoas em casa, que não costumam estar por cá, para mim seria o caos, ainda que estivesse a falar dos meus pais. Sim, daria um jeitão ter alguém que pudesse vir cá a casa dar uma ajuda pontualmente. Mas estamos a viver noutro país, logo quem viesse não vinha por umas horas, vinha e ficava uns dias ou umas semanas. Acredito que algumas pessoas se dessem bem assim, mas eu conheço-me o suficiente para saber que para mim não é uma boa solução. Claro que os avós gostariam de conhecer o neto assim que ele nascesse, eu também gostaria que assim fosse. Mas, neste momento, esta não é a melhor opção, nada a fazer. Conhecem-no quando já tiver um mesito, não vejo que venha daí mal ao mundo.

vantagem de estar longe

Estar longe coloca-nos desafios, mas também tem as suas vantagens. Neste caso não teremos que aturar visitas, um sossego. Em situações semelhantes, mas em que estive do outro lado, perguntei sempre se a mãe recente gostava que a fosse visitar. Caso me dissesse que sim perguntava quando e onde. Não tenho paciência para visitas-surpresa nestas situações. A mãe está frágil a todos os níveis, o bebé quer é paz e sossego e ter visitas inesperadas quer no hospital quer em casa é coisa que sempre achei que caía muito mal. Há quem não veja as coisas da mesma forma, e é desta gente que fujo que me pelo. 

Estando longe tenho esta questão resolvida. Não terei que mostrar o mau feitio (que não o é na realidade, mas que seria entendido por alguns como tal) a dizer que não quero visitas nos primeiros dias e a pedir respeito pela nossa privacidade e pelo nosso sossego. Seremos apenas três para o bem e para o mal.

o Natal este ano

Daqui a duas semanas o Natal já se foi e eu, que tanto gosto do Natal, este ano estou com o pensamento longe. Fiz a árvore, tenho luzes na janela, mas não passa muito disso. O que é mais um Natal quando este ano teremos a nossa própria criança a nascer mais dia menos dia?

11.12.14

37 semanas

Cá estamos, uma semana depois de ter feito as malas, a pensar então e agora? espera-se? Eu bem sabia que adiar as malas fazia sentido para mim. Continuo bem, sem desconfortos (a não ser o raio da comichão que ainda se mantém, mas com a qual vou lidando bem), mas esta espera é um bocadinho irritante. Tenho escrito e trabalhado para não pensar nisto.

Às 37 semanas tenho mais 4 quilos do que tinha antes de engravidar. A perder peso a este ritmo, e se o puto não se despacha, ainda chego ao peso inicial antes de ele nascer. Já estive mais preocupada com a questão da diminuição do peso, mas de qualquer forma estou mortinha para que a consulta da próxima semana chegue para confirmar que tudo continua muito bem com o M. Ter ido às urgências esta semana e termos visto que tudo estava normal já me sossegou, mas preciso de uma ecografia com todas as medidas e mais algumas para achar mais uma vez que a perda de peso é uma coisa boa. Os valores da glicémia têm sido perfeitos, eu e os diabetes temos finalmente uma relação pacífica. 

O M. continua a mexer muito, mas o apartamento começa a ser muito pequeno. De vez em quando estica-se e os pés dele vão quase até às minhas costas, fico com uma espécie de bossa lateral. Continua a ter soluços pelos menos duas vezes por dia e de vez em quando lembra-se que brincar com a minha bexiga é uma experiência divertida.

37 semanas, yeah!

diferenças entre a mãe da mãe e a mãe do pai

A avó materna quer que o miúdo nasça o quanto antes. Já não será prematuro, de modo que a partir de agora quando mais depressa melhor. Lembra-se bem do que sofreu no único parto que viveu e deseja com todas as forças que a filha não tenha que passar pelo mesmo.

A avó paterna quer que o miúdo nasça com peso de leitão, quanto mais tarde melhor. Pensa unicamente no neto e, portanto, quanto mais a criança pesar, mais saudável será, segundo o seu ponto de vista.

bicho do mato

A minha mãe chama-me bicho do mato desde que me lembro. Sempre fui e continuo a ser uma criatura muito pouco sociável. Prova disso é que ando a rezar a todos os santinhos para que esteja pouca gente no hospital quando o bebé decidir que é hora de nascer, para poder ficar sozinha num quarto. Se já normalmente não tenho grande paciência para fazer conversa de circunstância, muito menos terei nesta situação tão particular, e em italiano. Vá, criança, decide-te a nascer mesmo coladinho ao Natal que desconfio que nesses dias só estará lá internado quem não tem mesmo outra opção. Assim como assim vamos mesmo passar o Natal longe de toda a gente, de modo que pode ser mesmo no hospital já a três, ou em vias disso.

9.12.14

saudades de um corpo sem barriga

Sei que vou ter saudades dos movimentos suaves e dos movimentos abruptos dele dentro de mim, mas tenho que admitir que estes meses todos depois tenho saudades do meu corpo sem barriga e tenho saudades de nós. O nosso nós já mudou, vai continuar a mudar e ambos sabemos disso, mas vai fazer-nos muito bem podermos ser só os dois, ainda que por breves momentos e por entre choros e fraldas. Quanto ao meu corpo, não sei quanto tempo demorará a voltar ao ponto de partida, ou se algum dia voltará ao ponto de partida. Acredito que se reúnem as condições ideais para isso, mas tudo pode acontecer. Para já não há estrias à vista e acredito que os 5 quilos que tenho a mais (sim, continuo a emagrecer e o pequeno M. continua a engordar) sumirão com alguma rapidez, mas a firmeza da barriga e do peito é outra conversa. Seja lá como for, começo a ter saudades de não ter uma barriga de Pai Natal.

respirar fundo

Andava tudo muito normal e sereno quando há dois dias comecei a sentir comichão nos braços e nas pernas. Não valorizei, até que hoje de manhã acordei com umas borbulhitas nas pernas e a comichão estava ligeiramente mais acesa. Pesquisa na net e tanto encontrei informação a dizer que é normal ter comichão provocada pelo efeito da pele a esticar (nos braços e nas pernas?!) e do maior fluxo sanguíneo, como encontrei referência a um problema hepático que pode ser muito pouco simpático para o bebé. A colestase (o tal problema hepático) pode ter como sintomas comichão a sério, especialmente nas mãos e nos pés, o que não é o meu caso, mas resolvi não arriscar e enviei SMS à médica a contar o que se passava. Sugeriu que fosse ao hospital e lá fomos nós a achar que era coisa para ser observada em 5 ou 10 minutos e ficaria despachada. 

Fiz o primeiro CTG da minha vida: batimentos cardíacos normais e nada de contracções. Fizeram-me análises ao sangue (nunca tive problemas para me tirarem sangue em Portugal; em Itália não se entendem com as minhas veias, tentam num braço, tentam no outro, lá acabam por conseguir tirar-me sangue depois de me deixarem os braços como se tivesse sido mordida por um vampiro) e à urina. Umas boas horas depois conclui-se que aparentemente não há motivo para a comichão que sinto nos membros, e a hipótese de ser colestase foi excluída. Por momentos cheguei a pensar querem lá ver que agora que estou de bem com a vida e com a gravidez vem aí alguma surpresa menos feliz? Parece que não, para nosso descanso e bem-estar da mini-pessoa que um destes dias terá de abandonar o seu alojamento temporário.

6.12.14

timing

Li isto

Quando aprendi a estar grávida, a Clara nasceu.

e foi impossível não me identificar. Só passei a gostar de estar grávida já estava no terceiro trimestre, mesmo na recta final. Será que vou chegar com atraso às fases que se seguem?

2ª parte da tarefa concluída

Já há malas para a maternidade para os dois. Para além disso, há meia dúzia de coisas, deixadas bem à vista, para que o marido/pai as possa levar, caso sejam necessárias. Pronto, a ideia está a criar raízes: estamos mesmo na recta final e daqui a um mês é quase certo que seremos três cá em casa. É normal que os miúdos nasçam 15 dias antes ou 15 dias depois da data prevista do parto, mas Criança, tu livra-te de nascer depois de 1 de Janeiro! Não quero ter uma gravidez de 42 semanas, nem quero dar à luz um leitãozinho! Até há pouco tempo não me imaginava a dizer isto, mas queria que o bebé nascesse de parto normal, e se ultrapassarmos as 40 semanas tenho sérias dúvidas que isso possa acontecer.

Desconfio que se apanhar um dia de sol e luz farta ainda torna tudo a sair da mala do bebé para ser fotografado. São mariquices de futura mãe, mas gostava de fotografar o que levo dentro da mala dele, especialmente as primeiras fatiotas que vai vestir (se nascer depois das 40 semanas desconfio que vou ter que mudar de planos, porque nada daquilo lhe servirá, Tu não me arranjes trabalhos ainda antes de nasceres, miúdo!). Eu bem vos disse que o espírito da maternidade se começava a apoderar de mim, eu a fotografar as futuras roupas do rebento, quem diria, hã? Bom, mas para isso preciso de luz natural com fartura, coisa que pelos meus lados não tem havido. Os dias têm-se seguido numa monotonia de cinzento e chuva, que não se compadece com a minha vontade de tirar fotos dentro de casa. Parece que na próxima semana as temperaturas negativas chegam em força, e com elas o sol. Há esperança!

viajar com bebés

Se não houver nenhuma surpresa menos boa, a primeira viagem com o bebé será no final de Janeiro ou início de Fevereiro. Mas esta praticamente não conta, porque será de nossa casa em Itália para nossa casa em Portugal. À partida, a nossa primeira viagem a sério a três será em Maio, quando formos de férias para fora dos "nossos países" e das nossas casas.

5.12.14

das consequências da distância (ou de outras coisas)

Quando saí do país imaginei que iria perder algumas pessoas pelo caminho. Parece-me natural. Laços que não são propriamente fortes não resistem à distância e o afastamento geográfico estende-se a outros níveis. 

Fui surpreendida. A maior parte das pessoas que não me era próxima foi-se perdendo pelo caminho, mas para além disso, uma das pessoas que me era mais chegada praticamente sumiu de circulação. Não sei se foi efeito da distância, se foi efeito de todas as voltas e reviravoltas que a minha deu neste ano e meio, se foi efeito das mudanças na vida dela, ou se foi uma mistura de todos os factores, mas a verdade é que fui negativamente apanhada de surpresa.

Em ano e meio descobri que estava grávida mal tinha acabado de chegar a um país novo, quando ainda não conhecia praticamente ninguém, abortei, engravidei, abortei de novo,  voltei a engravidar, casei-me. Aconteceu tanta coisa que eu gostaria de ter partilhado de forma próxima, mas ela não estava nem disponível nem interessada. Fui a Portugal vezes sem conta, combinei lanches e jantares, estive com outras pessoas que antes de partir me diziam menos, e ela nem noção tem das vezes em que não esteve presente, porque simplesmente não estava para aí virada. 

Acredito que esta fase que vivo agora pouco ou nada lhe diga. Neste momento o meu cerne não é o trabalho, é um pequeno ser que ainda não viu a luz do dia. Do que conheço dela (ou do que acho conhecer) este é assunto para um ou dois minutos de conversa e depois é altura de mudar para outros temas, comummente relacionados com trabalho e afins. Sempre fomos muito diferentes, mas agora desconfio que estamos muito mais. Talvez este afastamento não seja tão inesperado assim. Desconfio que vai ver o bebé M. pela primeira vez quando o puto já andar na escola.

4.12.14

parte nº1 da tarefa concluída


A minha já está, agora falta a dele!

36 semanas!

Não consigo deixar de me espantar com os números que a cada semana vão aparecendo nos títulos destes posts: 36? Isto é mesmo a sério? Apesar das duas gravidezes com fim nada feliz, acreditava que era possível e por isso continuei a tentar, mas não deixo de me surpreender por ter chegado até aqui.

O primeiro trimestre custou. Foi lento, cada dia parecia demorar muito mais que 24 horas e, umas vezes conscientemente, outras de forma inconsciente, o medo de que a história se poderia repetir estava presente. O segundo trimestre trouxe as hemorragias sem motivo aparente e obrigou-me a ficar várias semanas em casa. Não foram momentos fáceis. Apesar de nessa altura termos ultrapassado já a barreira onde ficámos presos nas duas vezes anteriores, o receio de que outro obstáculo nos impedisse de prosseguir esteve bem presente. O terceiro trimestre trouxe-me os diabetes, mas tirando isso estou bem. Se tivesse aterrado de pára-quedas no terceiro trimestre da gravidez acharia que a gravidez é o paraíso. Às 36 semanas tenho mais seis quilos do que tinha inicialmente, continuo a mexer-me com facilidade, durmo bem e sem necessidade de almofadas em meu redor para me deixarem confortável. Que me lembre ainda não deixei de fazer nada do que habitualmente faria se não estivesse grávida (a não ser agora não poder viajar de avião). Sinto-me feliz e isso transparece: o cabelo está óptimo e a pele excelente. O bebé mexe-se muito, e nota-se que nesta fase o espaço disponível para as movimentações é já muito reduzido. De vez em quando faz muita pressão sobre determinadas partes da barriga, como se a qualquer momento fosse aparecer ali um pé ou mão!

Amanhã entro na 37ª semana e ainda me custa acreditar que até ao final do ano ou mesmo no início do próximo o M. se vai juntar a nós. Muitas grávidas que conheço sentiram os seus bebés a "encaixar" algum tempo antes do nascimento, outras foram sentindo contracções algumas semanas antes da hora H. Para já não me apercebi de absolutamente nada fora do comum, de modo que começo a achar que o rebento se sente bem na sua casa e é bem capaz de não nos fazer a vontade de nascer antes do Natal.

o que levar para a maternidade

Ontem lá me enchi de coragem e fui à obstetrícia do hospital cá do sítio pedir a lista do que levar quando o rebento decidir ver a luz do dia. Tendo em conta outras listas que encontrei de outros hospitais italianos podia ser muito pior.

Pedem o mínimo para o bebé: toalhitas, luva de algodão para lhe dar banho, sabonete líquido, toalha, manta e cinco mudas de roupa. Cada muda de roupa inclui t-shirt ou body de manga curta ou comprida (é à escolha do freguês) e babygrow com pés. Só isto, mais nada. Nem calças interiores (que eu insisto em chamar de ceroulas, pobre criança!) nem gorro, nem meias, nem nada. Tenho para mim que os italianos são mais descontraídos que os portugueses em relação à forma de vestir os bebés. Em Portugal parece que toda a gente tem medo que os miúdos gelem, por aqui não me parece que isso aconteça, muito pelo contrário. É certo que a zona em que vivo é muito fria no Inverno, o que obriga a que as casas tenham sistemas de aquecimento decentes, o que também ajuda a que os putos não tenham que estar envolvidos em mil e uma camadas de roupa. Mas não me parece só isso. Vejo bebés muito pequeninos na rua, bem agasalhados, claro!, mas a circularem na rua. 

E o que levar para a maternidade para mim? O comum e... uma chávena, um copo, açúcar e água! Ria-me eu por alguns hospitais pedirem para as grávidas levarem talheres! Pois que eu tenho que levar uma chávena e um copo! O açúcar desconfio que a diabética não vai levar. E... água? No fundo da folha referem que dão meio litro de água por dia, a restante cada um tem que levar. A sério, em que país do mundo é que um hospital não fornece água? É certo que o meu conhecimento sobre hospitais é basicamente nulo, mas... água??

3.12.14

ver vídeos de partos

Até aqui não tinha intencionalmente visto vídeos de partos. Acho que há que esperar o momento certo para tudo e o momento ainda não tinha chegado. Ontem, com o tempo a avançar desenfreadamente, achei que era importante ver a realidade. Ver mesmo, não ler algo que alguém serenamente sentado a uma secretária escreveu, mas ver um parto real de alguém real. 

Foi um acaso, mas acho que tive sorte no vídeo que escolhi. Não vi um filme de terror que me deixasse com pesadelos e me tirasse a vontade de dormir (e de ter este filho), mas vi um vídeo de um parto de uma mulher serena. Não gritou, não berrou, raramente se queixou. Ouviu o que quem a acompanhava lhe dizia, tentou corresponder e deu à luz uma criança que me pareceu gigante (não era pequena nem grande, mas garanto-vos que me pareceu enorme). Se calhar não corresponde à situação mais comum, mas uma vez que por mero acaso fui parar a este vídeo, não quero ver mais nenhum! Quero acreditar que um parto pode ser assim e ponto final. É este tipo de parto que quero ter presente nesta fase, acho que imaginar cenários de terror não é coisa que me ajude neste momento.