A partir de amanhã estarei por minha conta cá em casa com o pequeno Miguel. Começo a achar que daria um jeitão ser um polvo e ter oito tentáculos.
6.1.15
olhós meus tornozelos!
Finalmente voltei a ter os meus pés, ou dito de outra forma, voltei a ver os meus tornozelos. Depois do parto as perninhas abaixo dos joelhos e os pés incharam. Duas semanas depois do parto reparei que conseguia vislumbrar os meus tornozelos, o que me deixou bem mais feliz. Estas pequenas coisas fazem-me bem à auto-estima quando me sinto uma espécie de bovino amamentador (agora que também tiro leite com a bomba - e tenho leite para alimentar uma família completa de ciganos - sinto-me a ir à ordenha diariamente). O balanço é muito animador: peso menos um quilo do que pesava quando engravidei e voltei a ter tornozelos. Pena mesmo é a pele de bebé que me acompanhou durante 9 meses já me ter começado a dizer adeus. Parece que não se pode mesmo ter tudo, humpf.
das coisas que eu não entendo
Qual é o interesse de abrir uma conta bancária para um bebé de 15 dias?
respirar fundo
O pequeno Miguel está a crescer. No dia em que completou 2 semanas ultrapassou o peso com que tinha nascido. Respirámos fundo e confirmámos que dar-lhe suplemento foi a opção correcta.
o 12º dia foi um dia mau
Eu com o Miguel ao colo, em pé, e de um momento para o outro sinto algo quente a escorrer-me pelas pernas: ou estou a perder sangue como se não houvesse amanhã ou estou incontinente. Não estava incontinente. Meti-me na banheira e vi uma espécie de mar Vermelho a aparecer junto aos meus pés. Se isto tivesse acontecido logo a seguir a ter voltado do hospital não ficaria admirada, era o tempo certo para algo do género acontecer, mas quase duas semanas depois não pude deixar de ficar preocupada. Afinal estava a perder sangue como no dia do parto. Terminámos a noite no hospital, onde queriam que passasse a noite em observação, mas lá os consegui convencer a deixar-me vir para casa. Ficou combinado que voltaria de imediato se algo do género voltasse a acontecer e que, independentemente do que sucedesse, voltaria dois dias depois para novas análises e observações. Estou bem. Não se repetiu. Não encontraram razão para o sucedido. A única razão lógica será ter tido um coágulo a bloquear a passagem do sangue. Quando o coágulo saiu saiu também um rio de sangue.
Cheguei a casa já bastante mais descansada, mas a achar que tinha apanhado um susto dos diabos. Entretanto recebo uma mensagem do meu grupo de grávidas - agora muitas já mães - e afinal descobri que o meu dia tinha sido perfeito. O que nunca imaginámos que pudesse acontecer aconteceu mesmo. O primeiro bebé do grupo morreu com 3 semanas. É daquelas notícias que não se quer ler nunca, e muito menos quando se tem um filho com meia dúzia de dias. Não soube o que dizer aquela mãe que me (nos) acompanhou durante quase 9 meses e que era uma das mais bem dispostas do grupo. O que é que se diz a uma mãe que acabou de perder um filho? Disse-lhe apenas que não sabia o que lhe havia de dizer. Não conheço nenhuma das minhas colegas grávidas pessoalmente, mas criaram-se laços à distância, frutos de uma caminhada comum com os mesmos passos e as mesmas dúvidas. E agora todas sentimos a morte do primeiro bebé do grupo, aquele que nos fez ver que tudo era real, que mais dia menos dia também teríamos os nossos bebés junto a nós. O bebé nasceu prematuro e estava internado. Tinha uma imunodeficiência ainda não identificada, mas nunca nenhuma de nós imaginou que o desfecho pudesse ser este. Houve gravidezes interrompidas logo numa fase muito inicial - e nessa altura tive um medo terrível de poder vir a fazer parte deste grupo, mas depois tudo correu da melhor forma. Houve vários sustos no nosso grupo, mas todos ultrapassados da melhor forma. O primeiro bebé do nosso grupo não resistiu e o funeral é hoje.
3.1.15
do que ficou
Já não tenho diabetes, mas hoje o pequeno-almoço foi tomate cru, queijo ricota, uma fatia de pão e chá. E soube-me tão bem!
e ao 11º dia chorei baba e ranho
O pequenote diminuiu de peso após o nascimento, o que é habitual. Voltámos ao hospital poucos dias depois para uma consulta de rotina e o peso era exactamente o mesmo. Ameaça imediata de suplemento por parte do pediatra. Se uma semana depois do nascimento não tivesse recuperado o peso inicial tínhamos que começar a dar suplemento. Já tinha lido bastante sobre isto, mas fui reler e falei com uma pediatra amiga. Não tínhamos 7 dias para que o peso do nascimento fosse recuperado, mas entre 10 e 15 dias. Pareceu-me mais razoável. Nova consulta no hospital 2 dias depois. Tinha aumentado ligeiramente de peso. Era um aumento, o que me fazia acreditar que era possível, mas era um aumento pequeno. Já saímos do hospital com a indicação do leite que deveríamos comprar caso o peso não aumentasse mais. Aguardámos mais 2 dias e pesámos o Miguel em casa. Aumento maior. Ficámos mais descansados, tudo parecia estar a entrar nos eixos. Ontem nova pesagem: não aumentou absolutamente nada. Ainda não atingimos os 15 dias, mas a continuar assim não chegamos ao peso do nascimento. Eu tenho leite, ele mama, o que está aqui a falhar?
Chorei baba e ranho. Não sou fundamentalista. Sempre achei que se o leite materno não é suficiente ou se não é de todo possível dar leite materno, que venha daí o suplemento, mas custou-me muito. Muito mais do que alguma vez poderia ter imaginado. Não sei se é a sensação de estar a falhar - embora tenha plena consciência de que estou a fazer tudo o que é possível para evitar o suplemento, não sei se foi a quebra parcial deste vínculo especial que nos une, mas sei que chorei como se não houvesse amanhã. Já passou, mas doeu que se fartou, muito mais do que o parto onde nem uma lágrima verti. Continuo a dar de mamar e de seguida lá vem o suplemento. Descansa-me ver que ele fica mais sereno, imagino que mais saciado, e acredito que quando o tornarmos a pesar o aumento de peso será bem visível. Não era o que queria, mas é efectivamente o mais correcto.
Mas como sou teimosa e ainda não desisti, daqui a pouco vou comprar uma bomba para tirar o meu leite e dar-lho no biberão. Se a falha estiver na forma como lhe dou a mama/como ele mama, esta solução resolverá o problema. Não desisto facilmente. A ver vamos.
1.1.15
opção certeira
Passados alguns dias após o nascimento posso afirmar que termos decidido ficar aqui apenas os três foi mesmo a melhor opção. Talvez tenha tido especial sorte com o parto, mas a verdade é que se tivesse tido essa possibilidade, assim que o Miguel nasceu, tinha pegado nele e nas minhas tralhas e tinha voltado para casa. Tive dores no parto. Apenas isso. Nada me doeu a seguir. Voltei para casa e regressei às minhas tarefas habituais. É certo que um pouco mais atordoada que o habitual, já que o puto mantém o ritmo que tinha quando ainda habitava dentro de mim, e tem como pico de actividade a noite. Mas a verdade é que nunca precisei de dormir muito para conseguir funcionar normalmente e isso mantém-se. A meio da tarde sinto um pouco de quebra, mas nada de grave (a ver vamos se me mantenho assim, ou se o acumular de noites mal dormidas dará sinal de si mais para a frente).
Perguntam-me frequentemente pelos baby blues. Não me sinto tomada pelas hormonas (também não senti durante a gravidez) e ainda não me deu para chorar. Para já sinto-me eu, com as minhas formas de agir e de pensar habituais. Só me lembro de um momento em que dei comigo a olhar para a minha barriga e a achá-la estranha, por estar vazia. Ainda estava na marquesa, o Miguel tinha acabado de nascer e vi uma barriga flácida e oca. Foi a única altura em que pensei de mim para mim pronto, deixaste de ser o ninho do pequeno ser que tens agora nos braços. Mas o que tens agora nos braços desviou-me completamente a atenção da barriga vazia.
A data prevista do nascimento era hoje, mas fico muito feliz por o Miguel se ter juntado a nós uns dias antes e por poder escrever este post enquanto olho para ele, serenamente a dormir à minha frente.
o que faltava do balanço
2014 trouxe-me um presente de Natal, e um presente para a vida, que já estava embrulhado desde a Primavera e que nos deixou expectantes todos estes meses. Mesmo que o ano tivesse sido miserável (não foi o caso) tudo deixaria de importar a partir do momento em que o pequeno Miguel se juntou a nós. 2014 será sempre recordado como o ano em que nasceu o nosso filho. Este Natal será sempre lembrado como aquele em que entrámos a três em casa no dia 24 às 8 da noite e a partir daí todo o nosso mundo mudou. Claro que o momento em que vemos o nosso filho pela primeira vez tem um impacto incomensurável, mas naqueles primeiros dias no hospital não estamos no nosso habitat. É quando se entra em casa, com mais um elemento na família, que se sente que é verdade: tudo mudou. Tinha mudado eu desde que saí de casa na madrugada de Segunda e a própria casa começou a mudar mal entrámos. Tudo muda de sítio, tudo em casa gira em torno do pequeno ser que se juntou a nós para sempre. Tudo em nós muda de sítio, tudo em nós gira em torno do pequeno ser que se juntou a nós para sempre.
2015, se não puderes ser melhor basta não baixares o nível do ano que findou.
30.12.14
lugar comum
8 dias de Miguel e agora nada mais faria sentido se ele não estivesse aqui. Absorvo-o com todos os meus sentidos, muito mais do que com a máquina fotográfica. Estes 48 centímetros de gente tornaram-se o meu Sol e vieram dar tanto mais significado aos meus dias. Estou completamente enamorada pela pequena criatura que há uma semana e um dia se me escapou das entranhas.
29.12.14
adeus diabetes!
Voltei a poder comer papas de aveia ao pequeno-almoço. Já tinha saudades! Hoje: papas de aveia com uma casca de limão e canela, e um iogurte de cereja em cima. A tirar a barriguinha de misérias! A propósito, a barriga foi-se completamente! Agora falta a firmeza voltar, mas nunca imaginei uma semana depois estar sem nenhuma barriga.
28.12.14
relato de um parto induzido
Assim que soube que o parto ia ser induzido, aproximadamente uma semana antes, procurei relatos de outros partos também induzidos. Encontrei um ou outro relato que me deixou descansada e outros que quase pareciam verdadeiros cenários de terror prolongados por horas e horas. A dada altura deixei de procurar informação e pensei de mim para mim o que for se verá, havemos de sobreviver. Porque o meu parto pertence ao grupo dos felizes, e imagino que, como eu, outras mulheres procurem relatos de partos induzidos, aqui fica ele. Com esse objectivo e também porque para já ainda está fresco e eu quero mesmo guardá-lo na minha memória, sem me esquecer de nada.
Chegámos ao hospital às 7:30 como nos tinha sido pedido. Estava em jejum, e cheia de fome, porque me tinham dito que o que iriam usar para provocar o parto me poderia provocar náuseas e não deveria comer nada antes. Sentia-me um pouco apreensiva, mas calma. Sentimentos que duraram algum tempo, mas se dissiparam quando depois de ter sido colocada no quarto ligada ao CTG (nada de contracções), nada mais aconteceu. Quer isto dizer que depois do CTG fiquei horas no quarto sem que mais nada se passasse. Algum tempo depois vim a saber que ainda estavam a equacionar se me induziam o parto naquele dia ou não (não cheguei a perceber porquê, depois de tudo se ter resolvido não quis saber mais nada sobre aquelas primeiras horas do dia). Fiquei furiosa e senti-me injustiçada. Não se brinca com uma grávida no (suposto) dia do parto. O stress e a ansiedade do momento já são mais que suficientes só por si, não é necessário adicionar factores externos promotores de tudo o que não beneficia a grávida naquele momento. Senti-me frágil e dei comigo a pensar que se estivesse em Portugal provavelmente não passaria pelo mesmo. Cada vez tinha mais fome e pensava que caso a indução avançasse mesmo me faltaria energia. Dei também comigo a pensar que nunca tinha imaginado que o dia do parto seria assim, e que não merecia o que se estava a passar.
No mesmo quarto que eu estava outra grávida que ia fazer cesariana. Levaram-na cedinho e mesmo muito pouco tempo depois estava de volta com o bebé. Dei comigo a desejar que me acontecesse o mesmo, que me levassem e me devolvessem passado meia hora com o bebé já do lado de fora. A sensação de injustiça que tomava conta de mim era ainda maior porque eu, que passaria por um processo doloroso e provavelmente longo, estava ainda em terra de ninguém, sem saber o que me iria acontecer, quando alguém com um parto "passivo" já tinha o seu "assunto resolvido". Naquela altura tive vontade de pegar nas minhas coisas e sair do hospital.
O meu desapontamento foi mais do que visível para a equipa que me acompanhou e a indução avançou mesmo. Tiveram o bom senso de entretanto me dar o almoço, dizendo que era já demasiado tempo sem comer. O pior que me poderia acontecer era vomitar e isso era preferível a estar esfomeada e sem energia.
Pouco tempo depois fui observada e, inesperadamente, já tinha 3 centímetros de dilatação. Não tinha sentido dores, não tinha sentido contracções, nada de nada, mas os 3 centímetros estavam lá. A obstetra rebentou-me as águas, na tentativa de me provocar contracções e acelerar o processo. Fiquei feliz ao pensar que depois das águas rebentadas não havia volta, o Miguel ia mesmo nascer. Relembrei a obstetra que queria epidural. Ela recordou-me que só a partir dos 4 centímetros, e eu dei comigo a pensar que já só faltava um, que deveria aguentar as dores até lá e que depois chegaria ao paraíso do parto sem dor. De novo ligada ao CTG pude verificar que começava a ter algumas contracções, mas nada de significativo, nada que me provocasse dor e como se viu através de novo toque, nada de dilatação a aumentar. Foi então decidido que me iriam dar ocitocina. Até aqui estive no quarto, mas entretanto apareceu uma enfermeira a dizer-me que ela me iria acompanhar a partir de agora e que deveríamos subir. E pediu para levarmos a primeira roupa do bebé. Aqui dei comigo a pensar que tinha mesmo chegado a hora, estavam-me a pedir a roupa do bebé! E lá fui eu, a enfermeira e o pai do Miguel em peregrinação para o andar de cima. Eram 14.30 e no quarto estavam visitas da ex-grávida que já tinha o bebé com ela há umas boas horas. Desejaram-me boa sorte, e acho mesmo que tive muita.
No andar de cima ficava o bloco de partos. Entrámos numa sala que tinha a marquesa para o parto, um cadeirão e mais uma série de tralha. Só pensava então já estou no sítio onde tudo se vai dar? Não há aqui mais nenhuma fase intermédia? A enfermeira perguntou-me se preferia ir para a marquesa ou para o cadeirão. Preferi o cadeirão, sabia que estar sentada ou de pé poderia facilitar a dilatação. Ocitocina a ser aplicada através do cateter, eu ligada ao CTG a ver as contracções a aumentarem de intensidade e de frequência. Ainda falámos e rimos os dois durante algum tempo, até que tive que me concentrar na respiração porque as dores começavam a aparecer (penso que seriam umas 15 horas).
As minhas primeiras contracções não são passíveis de ser descritas de forma poética, senti as contracções como uma vontade enorme de fazer cocó. E a dada altura, com receio que a sensação passasse a ser algo mais, pedi para ir à casa de banho. Ainda me movimentava bem, apesar das dores já se fazerem sentir. Voltei, sentei-me no mesmo sítio e lembro-me de pensar mas será que ainda falta muito para os 4 centímetros?
Não tive aulas de preparação para o parto. Li e ouvi experiências alheias. A respiração que fiz (de acordo com os cânones ou não) ajudou-me muito a focar-me noutra coisa que não a dor. Inspirei e expirei sempre, não me descontrolei, fechei os olhos nos momentos de maior dor, tentei ter sempre os pés bem apoiados no chão e apoiei os braços nos braços da cadeira. Tentei não me encolher nos momentos de maior dor, o que só aumentaria a minha sensação de fragilidade e dor. A dada altura apercebi-me que abria e fechava as mãos de acordo com o momento da contracção. Tudo isto me ajudou a tentar afastar a atenção da dor. Um aspecto com que não contava foi o frio e o calor que senti. No pico das contracções tinha muito calor, sentia-me corada. Quando as contracções passavam tremia de frio. Era também nesta altura, entre contracções que pedia ao pai do Miguel para me passar a água, tinha os lábios sequíssimos e tinha imensa sede.
O relógio de parede estava bem à minha frente, por isso recordo-me que eram 15.50 quando as dores já apertavam a sério e eu perguntei se já podíamos ver como estava a dilatação. A enfermeira disse que veríamos às 16.30. A proximidade das contracções foi aumentando e a sua intensidade também. Entre as 16 e as 16.30 algumas contracções foram mais prolongadas e comecei a sentir uma vontade enorme de fazer força. Apesar das dores mais intensas, as 16.30 não demoraram assim tanto a chegar. Passei do cadeirão para a marquesa e a enfermeira informa-me que a dilatação estava completa, a partir daquele momento podia fazer força quando me apetecesse. Adeus epidural!
Tinha visto um vídeo de um parto (sereno, de uma mulher corajosa) em que lhe foi dito por uma enfermeira para fazer força de forma contínua, e não pontual, porque havia muitas "barreiras" a abrir até o bebé sair. Só fazendo força de forma contínua essas "barreiras" cederiam. Lembrei-me disso a cada contracção que se seguiu. A fase de expulsão por mim poderia chamar-se explosão, porque foi isso que senti. O corpo na iminência de rebentar a qualquer momento, enquanto uma pressão brutal empurrava o bebé para fora. As dores são imensas, mas a vontade de fazer força e de terminar o processo são ainda maiores. A enfermeira fez um pequeno corte para ajudar a cabeça do bebé a sair. Senti o corte, mas no meio de tudo o que se estava a passar, foi mais dor menos dor, nada de relevante. Senti a cabeça do Miguel a resvalar para fora e na contracção seguinte senti o resto do corpo a escorregar de dentro de mim. Eram 16.53 e todas as dores desapareceram. Olhei para o lado e o meu marido chorava que se fartava. Tive vontade de rir, ou sorrir. Eu passava pelas dores e ele é que chorava. Homens!
Sempre tive dúvidas sobre a capacidade do pai do Miguel estar ao meu lado até ao momento da expulsão. Aguentou-se firme e, contrariamente às expectativas, cortou o cordão umbilical e não desmaiou!
Imediatamente após o parto colocaram o Miguel em cima de mim, pele com pele. Depois do obstetra fazer uma espécie de ponto de cruz ou macramé (nunca mais se despachava e eu queria mesmo era poder concentrar-me na pequena criatura que tinha acabado de sair de dentro de mim) passei para o cadeirão onde tinha estado antes e dei de mamar pela primeira vez. A equipa médica deixou-nos sozinhos algum tempo. Depois disso, penso que passava pouco das 18, levantei o rabinho da cadeira e voltámos ao quarto já a três. As visitas que estavam no quarto quando saí ainda lá continuavam e olhavam incrédulas para mim, por ter voltado poucas horas depois, pelo meu próprio pé e com um bebé nos braços.
Parto rápido e sem epidural era algo que achava não existir, afinal existe. O meu foi assim.
Sempre tive dúvidas sobre a capacidade do pai do Miguel estar ao meu lado até ao momento da expulsão. Aguentou-se firme e, contrariamente às expectativas, cortou o cordão umbilical e não desmaiou!
Imediatamente após o parto colocaram o Miguel em cima de mim, pele com pele. Depois do obstetra fazer uma espécie de ponto de cruz ou macramé (nunca mais se despachava e eu queria mesmo era poder concentrar-me na pequena criatura que tinha acabado de sair de dentro de mim) passei para o cadeirão onde tinha estado antes e dei de mamar pela primeira vez. A equipa médica deixou-nos sozinhos algum tempo. Depois disso, penso que passava pouco das 18, levantei o rabinho da cadeira e voltámos ao quarto já a três. As visitas que estavam no quarto quando saí ainda lá continuavam e olhavam incrédulas para mim, por ter voltado poucas horas depois, pelo meu próprio pé e com um bebé nos braços.
Parto rápido e sem epidural era algo que achava não existir, afinal existe. O meu foi assim.
27.12.14
26.12.14
tanto para contar e tão pouco tempo :)
Estou, naturalmente, quase que absorvida a 100% pelo novo habitante cá de casa. Ainda não parece real agora sermos três. Um dia destes venho-vos cá contar como foi o parto ultra-rápido, tão rápido que não houve tempo para epidural! Penso que dificilmente poderia ter corrido melhor. Este percurso não foi nada fácil, esta gravidez também só me deixou sossegar no terceiro trimestre, mas terminou de forma perfeita: um parto perto do ideal e um bebé perfeito, lindo e sem consequências dos meus diabetes (que felizmente me abandonaram na sala de parto).
Coisas menos relevantes, mas que me fazem bem à alma: três dias depois do parto já tinha voltado ao meu peso pré-gravidez e a barriga diminui de dia para dia. A firmeza naturalmente que ainda não regressou, mas o volume quase que sumiu na totalidade e não há sinais de estrias.
Estamos incomensuravelmente felizes, pouco mais há a dizer.
22.12.14
Miguel
A terra tremeu ontem
não mais do que anteontem
pressenti-o
O ventre de que falo como um rio
transbordou
e o tremor que anunciava
era fogo e era lava
era a terra que abalava
no que sou
Depois de entre os escombros
ergueram-se dois ombros
num murmúrio
e o sol, como é costume, foi um augúrio
de bonança
sãos e salvos, felizmente
e como o riso vem ao ventre
assim veio de repente
uma criança
ordem de despejo!
Como até ao prazo definido o mini-inquilino não se decidiu a abandonar o alojamento, vamos dar-lhe ordem de despejo.
21.12.14
de 2014 ainda antes do meu acontecimento do ano
A 10 dias do final do ano sei bem que o balanço feito hoje ficará muito incompleto, mas se não houver balanço hoje o mais certo é não haver.
Gosto muito de mim, apesar da minha forma de ser e da minha forma de agir me trazerem muitas vezes situações menos boas. 2014 confirmou-o. Tive aborrecimentos de sobra a nível profissional, cortei relações com algumas pessoas, mas para mim o balanço é claramente positivo: fui fiel a mim própria e à minha forma de ser. Não posso estar em completo desacordo com uma situação e fazer de conta que concordo ou que não quero saber. Tenho sangue a correr dentro de mim e não água. Para muitos seria mais fácil não tomar posição, ignorar e ser politicamente correcto, eu não sei (nem quero saber) ser assim. Tenho perfeita noção que ter esta postura me torna um alvo a abater, é o preço a pagar por ter coluna vertebral.
Em 2013 fui vítima de assédio sexual, em 2014 o assédio transformou-se em assédio moral, fruto da não cedência às investidas no final do ano anterior. Nunca pensei ver-me envolvida em algo deste género e hoje teria tido uma postura diferente no primeiro momento em que me senti assediada. Ficou-me a lição para o futuro, se bem que espero que esta tenha sido uma experiência única em toda a minha vida.
Este ano afastou-me de algumas pessoas que eu achava estarem lá de pedra e cal, e confirmou que há outras com quem poderei contar para sempre. A primeira parte da frase anterior deixou-me triste, mas agora centro-me na segunda parte, que é efectivamente a mais importante. Quem se foi não merece tempo de antena, quem se mantém merece-me de todas as formas.
2014 trouxe-me mais um aborto. Houve um momento, a altura em que ambos fizemos dezenas e dezenas de análises para tentarmos encontrar a causa do não desenvolvimento dos embriões, em que tive um medo enorme que este fosse apenas o início de uma longa caminhada. Tive noção que a ser assim muita coisa mudaria em mim e em nós. Ninguém consegue fazer uma longa caminhada no mundo da infertilidade sem mudar as suas prioridades e sem se centrar no seu principal objectivo de vida. E eu não sabia se queria centrar a minha vida num objectivo que poderia nunca atingir. Mas 2014 trouxe-me uma terceira gravidez inesperada e hoje já ultrapassámos as 38 semanas do M.
Sei bem que há quem tenha passado por situações incomparavelmente mais difíceis, mas gosto da forma como consegui lidar com tudo o que aconteceu. Lembro-me de ter contado a algumas pessoas próximas que estava grávida pela terceira vez e vi no olhar delas uma descrença enorme, li naqueles olhos um vamos lá ver quantas semanas dura desta vez. E não quis saber, porque apesar de todos os receios acreditei que era possível. E foi. Gostei da forma como consegui encarar a situação com humor, mesmo nos momentos mais negros. Todas as decisões que tomei foram baseadas num misto de razão e intuição e não me arrependo de nada. Ficam-me imagens na memória de momentos sem grande significado aparente, mas que se ficaram vincados é porque representam algo especial:
- recordo-me perfeitamente do segundo aborto, quando estava sentada no terraço ao sol, num ambiente aparentemente idílico e de vez em quando corria para a casa de banho para, entre contracções, expulsar o que restava daquela gravidez; depois voltava ao terraço e ligava para a TAP a desmarcar os voos que seriam para aquele dia, se tudo tivesse corrido bem;
- lembro-me do teu olhar de desespero naquele corredor do hospital quando se confirmou que a segunda gravidez tinha chegado ao fim, lembro-me de chorarmos juntos; sei que até hoje aquele corredor te traz más memórias, embora depois do menos bom já lá termos passado momentos de alegria (e outros sustos, é verdade);
- lembro-me da foto que tirei ao cisne, enquanto caminhava para me libertar dos maus momentos que tinha acabado de viver - o fim da segunda gravidez - e de ter pensado que o cisne estava com ar de fénix, e que eu também iria renascer;
- e, obviamente, não me esqueço da sensação que tive antes do teste de gravidez, aquela estranha certeza de que estava grávida e que se veio a confirmar; a intuição andou certeira em 2014, sempre achei que seria um menino e é mesmo.
2014 levou-nos a muitos sítios, inicialmente a dois, e depois já a três. Está prometido que assim que o M. for crescido o suficiente o vamos levar ao sítio onde duas células deram origem a uma que não mais parou de se multiplicar, e vamos levá-lo também a Macau que, no meio duma suposta brincadeira, acaba por ter um significado especial para os três.
2014 juntou-nos para sempre, num casamento só a dois. O nosso casamento foi aquilo que para mim um casamento deve ser: um compromisso de união para sempre, sem aspectos acessórios sem interesse nenhum. O nosso casamento fomos nós, mais nada nem mais ninguém.
Faltam 10 dias para 2014 terminar e ainda há tanto para acontecer.
20.12.14
um ano depois
Casa limpa, roupa passada, tudo no sítio. E agora dou aqui comigo a pensar que esta é a última noite em que poderei dormir até quando me apetecer...
Exactamente há um ano estávamos em trânsito. Mais uma horas e voávamos para Portugal, onde passaríamos o Natal. Quando levantámos voo tinha uma amiga em trabalho de parto, quando cheguei a Aveiro o bebé já tinha nascido. Exactamente um ano depois o puto já caminha sozinho e a minha amiga casou-se hoje.
Num ano aconteceu tanta coisa.
Este ano devemos ser dos poucos estrangeiros que ficaram por cá. Não seria o nosso Natal de sonho não fosse a chegada do pequeno M. que mudará para sempre a nossa forma de sentir o Natal e imagino que a nossa forma de sentir seja o que for. É um pouco estranho ter a perfeita noção de que estamos a poucas horas de uma mudança tão grande nas nossas vidas.
licença de maternidade produtiva
A fase pré-parto está a ser particularmente produtiva. Eu bem tinha dito que o mais certo era um dos artigos ficar pelo caminho, mas depois dei comigo a pensar que não perdia nada em tentar. Não fui perfeccionista, sei bem que podia estar mais completo e pormenorizado, mas está terminado e submetido. Atirei o barro à parede, vamos ver se cola ou se os editores me mandam dar uma voltinha. Não é de certeza o meu melhor artigo, mas ter conseguido terminá-lo nesta fase é para mim uma vitória.
Tudo o que havia para fazer nesta fase está feito, submetido e aceite. Eu própria me admiro com o que consegui produzir desde o início de Novembro. Um capítulo está em banho-maria, mas está aceite (o mais relevante) e tenho tempo de o aprimorar até quase final de Fevereiro. Foram umas semanas um pouco loucas, entre as limpezas em casa, a preparação de tudo para a chegada do M. e esta febre de escrever (imagino que com receio que o que se segue me limite a escrita), mas ter estado muito ocupada foi o melhor remédio para não ficar simplesmente em casa à espera, que é coisa para a qual não tenho mesmo apetência.
a aproximação do dia M.
No meu grupo de grávidas já há seis bebés, todos na incubadora. Este cenário não me deixa totalmente descansada, mas nada a fazer, é esperar para ver. Supostamente o M. desenvolveu-se normalmente, os pulmões estão prontos para a vida fora do útero e tem um peso que não levanta preocupações. Vamos lá ver se os meus diabetes não fazem das suas no pequenote.
Ontem fomos às compras e está ali um panettone de chocolate a piscar-me o olho. Eu brinco e digo que me vou vingar e comer todos os doces a que tenho direito e mais alguns, mas na verdade não acredito que me apeteça fazê-lo. Tenho que admitir que olhar para tanta caixa de bombom me deixou ligeiramente agoniada, mas um bocadinho daquele panettone não me vai escapar. Isto é um pouco ridículo e soa a pouco selecto, mas o que me apetecia mesmo era poder fincar o dente num pão da avó da pastelaria do meu prédio em Aveiro. Como não pode ser para já lá vou ter que esperar até final de Janeiro.
Também fiz outro tipo de compras e não resisti a oferecer-me roupa nova para depois da gravidez. Mereço e vai saber-me tão bem vestir roupa de mulher normal (quando lá conseguir entrar, claro!). Comigo veio também um verniz natalício, que ando mesmo com saudades de ter as unhas coloridas. Há vários cá por casa, mas achei que merecia um novo para começar esta nova fase com um brilho dourado acabado de estrear nas unhas.
19.12.14
ao menos que não tenha olhos em bico!
Num grupo de futuras mães de Janeiro já há três bebés e mais três grávidas em trabalho de parto. Os putos aperceberam-se que o Natal estava perto e decidiram que queriam prendas já este ano. Mas dos três rebentos já cá fora, dois ficaram internados por terem baixo peso. Que o M. não fique internado seja lá por que motivo for! Os bebés filhos de mães com diabetes gestacionais têm maior tendência a ter icterícia. Eu gozava com o pai dizendo que o puto ia ser amarelo por ter sido fabricado em Hong Kong, e ainda vem mesmo amarelado, mas por outros motivos, oh vida!
38 semanas
Espero já não escrever o post das 39 semanas!
Novo CTG ontem: continuo quase sem contracções, de modo que o parto vai ser mesmo induzido. Estamos em contagem decrescente para conhecer o M. Espero que a médica possa cumprir o que prometeu e que já possamos vir passar o Natal a casa.
Esta semana passou quase sem darmos conta. O M. decidiu mudar a posição dos pés e agora faz pressão na minha barriga muito mais acima do que o habitual. Os diabetes estão mais difíceis de controlar, como seria de esperar nesta fase final. Eu continuo bem, sem me sentir demasiado pesada e sem me sentir limitada nos movimentos.
Está quase!
18.12.14
17.12.14
coisas estranhas da minha gravidez:
- tive azia duas ou três vezes, em dias seguidos, ainda numa fase muito precoce da gravidez. Não fazia ideia do que me estava a acontecer, nunca tinha sentido uma bola de fogo a trepar-me a garganta até àquele momento. Lembro-me que fui pesquisar na net e dei comigo a pensar que estava tramada. Se estava naquele estado naquela fase, quando chegasse aos últimos meses de gravidez estaria transformada num dragão a cuspir fogo. A azia veio do nada naquela altura e da mesmo forma se foi. Nada de azia depois disso.
- lembro-me que foi antes de ter apanhado o susto tremendo que me levou ao tapete, e a meter baixa, portanto foi ainda em Julho. No final dos dias tinha os tornozelos e os pés inchados. Mais uma vez achei que não seria um bom augúrio. Ainda faltava tanto tempo e eu já com pezinhos de Fiona. Previ o pior. Estranhamente nos últimos tempos os pés e as pernas não incham. Nunca pensei chegar a esta fase e conseguir usar as botas de cano alto que costumo usar no Inverno, mas a verdade é que as pernas e os pés entram sem qualquer esforço. E um pormenor irrelevante como este ajuda tanto a manter a auto-estima em bons níveis e a fazer sentir-nos bem!
- a obstetra avisou-me no início que não deveria aumentar mais do que um quilo por mês. Achei que não seria possível. Não andava propriamente esfomeada, mas o peso ia aumentando. Cheguei a ter mais 7 quilos do que tinha quando engravidei, agora tenho pouco mais de 4.
receber encomendas em Itália - continuação da saga, para pior
A máquina fotográfica de que vos falei ontem chegou hoje. Significa isto que ela chegou e alguém a recebeu, mas não eu. Se há coisa que me vira do avesso neste país são os correios e as transportadoras, bem mais que a forma animalesca de conduzir desta gente e a xenofobia encapotada que nos passa despercebida inicialmente, mas que depois percebemos que existe e se sente em coisas pequeninas. Consigo lidar e ignorar quase tudo, sou para lá de tolerante, mas não se metam com as minhas encomendas, que eu transformo-me num ser ruim, ainda que em estado de graça. Mas como, como é que um estafeta da DHL italiana (ou da empresa subcontratada pela DHL - o problema é capaz de ser esse) entrega a encomenda a alguém que não é o destinatário? Entro no site da DHL, sigo os passos da encomenda e descubro que foi entregue, quando eu não recebi nada, ninguém tocou à campainha e ninguém me telefonou. Vejo o nome da criatura que recebeu a encomenda e dou comigo a pensar mas quem é esta alma? Pois que continuo sem saber, a única coisa que sei é que uma tal de Teresa tem neste momento nas mãos uma máquina fotográfica novinha em folha que na verdade devia estar nas minhas mãos.
a primeira viagem do M. para fora do país (e do lado de fora)
O M. já se fartou de viajar, mas a primeira viagem dele fora do útero será para lhe tratarmos do documento de identificação, de modo a que pouco tempo depois possa viajar para Portugal. Curiosamente, e dado o sítio onde moramos, é mais rápido e mais fácil tratarmos do cartão de cidadão do pequenote na Suíça do que em Itália. De modo que assim que eu esteja operacional, e ele também, lá rumamos os três ao consulado na Suíça para que o rebento tenha o seu documento de identificação. Não será uma viagem longa, mas desconfio que será a viagem mais longa da sua existência, quando acontecer. Para nós será um mini-teste que esperamos passar com distinção.
o pai
Ainda estava em Hong Kong e já tinha a sensação que estava grávida. Era uma sensação apenas. Não a comentei com Ele, não o queria a pensar que eu estava louca ou obcecada. Mas a verdade é que alguns dias antes do (não) esperado período fiz o teste e vi as duas riscas cor-de-rosa. A segunda era muito clara, estava lá, via-se, mas era mesmo muito ténue. Fiz o teste de manhã muito cedo numa casa que já não é a nossa. Vi as duas riscas e sorri por poder confirmar a sensação que tivera ainda noutro continente. Ele ainda estava a dormir, mostrei-lhe o teste, comentei o resultado. A reacção foi quase nenhuma. Imagino que entre o sono, a falta de luz e a risca clara (que ele simplesmente não via) tenha achado que eu estava a alucinar. Uns minutos depois, mais desperto, olhou bem para o teste e ficou a olhar para mim com um ar que li como E agora? Tinha abortado poucas semanas antes e tenho a certeza que o que imaginou foi a repetição do mesmo cenário pela terceira vez.
Envolveu-se sempre, vibrou com cada vitória, com cada medida dentro dos padrões normais, com cada ecografia em que víamos o M. a crescer, chorou quando soubemos que não havia qualquer alteração cromossómica, e chorou quando soubemos que era um menino, mas noto que só muito recentemente tudo o que está a acontecer se tornou verdadeiramente real. Agora delicia-se com o ondular da minha barriga, está mais ansioso que eu por poder pegar no filho e garante que vai desmaiar quando cortar o cordão umbilical.
Não há volta a dar, o envolvimento dos pais e das mães é necessariamente diferente. As mulheres sentem a gravidez desde início no seu corpo, com o que isso tem de bom e menos bom. Os homens limitam-se a ouvir relatos das sensações e mesmo vendo o embrião nas ecografias ainda lhes custa a acreditar que é real e a envolverem-se a outro nível. As mulheres sentem desde início, os homens limitam-se a escutar e a observar. Mais lá para a frente sentem finalmente os movimentos e esse parece-me o primeiro momento em que têm um banho de realidade: há mesmo um ser a mover-se debaixo da pele por baixo da mão deles. Os sentimentos envolvidos são os mesmos nuns e noutros, mas os tempos são muito diferentes (o que nem sempre é fácil de digerir por quem vai lá mais à frente nesta caminhada).
há mais ou menos 9 meses
É algo que não consigo explicar e que nunca tentei colocar por palavras, mas foi uma sensação que tive logo no início da gravidez actual. Tinha confirmado há meia dúzia de dias que estava grávida e houve uma fracção de segundo em que tive um medo terrível de não saber, de não ser capaz de cuidar devidamente do bebé que estava a caminho. Foi menos tempo que um segundo. Aquela sensação de fragilidade e receio foi diferente de tudo o que alguma vez tinha sentido, e foi tão genuinamente verdadeira e maternal. Lembrava-me de amigas mães recentes que tinham comentado este receio, mas já numa fase bem adiantada da gravidez. Naquela altura o M. era um punhado de células e eu viajei por uma porção de segundo até à fase que vivo agora. Aquela sensação tão real e tão longínqua fez-me crer que desta terceira vez tudo podia ser diferente, e até agora tem sido.
do que ficou lá atrás
Só houve um momento neste percurso em que me virei completamente do avesso com Ele. Estava grávida pela segunda vez com a nítida sensação (e algumas evidências) de que algo não estava a correr bem, e que o mais certo era a gravidez ter o mesmo fim infeliz da primeira. Ele disse-me que se tentava concentrar noutras coisas para não estar constantemente a pensar no mesmo, e que eu devia fazer o mesmo. Foi a gota de água. Sei bem que foi dito com boa intenção, mas a verdade é que tudo se passava no meu corpo. Eu é que sentia as mudanças, eu é que desesperava de cada vez que ia à casa de banho e via uma gota de sangue. Para mim era impossível desligar do que se estava a passar porque eu não podia ignorar os sinais evidentes de que algo parecia não estar bem. Naquele dia tentei engolir a fúria, mas não consegui. Sempre tive noção de que a gravidez é, obviamente, vivida de forma muito diferente pelo pai e pela mãe. Mas naquele dia ser-me dito que era possível centrar-me noutro assunto e ignorar o que se passava teve, para mim, proporções avassaladoras.
recta final
Tenho andado mais introspectiva, mais fechada em mim, a digerir a mudança radical que nos espera. As primeiras semanas de licença de maternidade foram muito produtivas, virei a casa do avesso, desarrumei, tornei a arrumar. Nestes últimos dias sinto que os dias se sucedem sem que nada de muito produtivo daí resulte, apesar do tempo passar num abrir e fechar de olhos. Acho que preciso destes dias de maior inércia para dar a última grande golfada de ar antes de submergir totalmente na maternidade.
Há uma coisa em que continuo tão eficaz como quando vim para casa, ou mais ainda, a escrita relacionada com o trabalho. Nestas últimas semanas despachei dois artigos e três capítulos de livro, e ainda estou a alinhavar o quarto, para que depois o consiga terminar já só a uma mão, já que a outra estará ocupada com o M. Ainda tenho a possibilidade de escrever mais um artigo até final do ano, mas este desconfio que fica pelo caminho. Noutra situação não perderia a oportunidade, mas neste caso acho mesmo que não vale o esforço. Valores mais altos se levantam.
As malas foram revistas e agora estão mesmo prontas. Temos tudo o que é essencial nesta fase (mais uma série de pormenores sem relevância nenhuma), do resto trataremos ao ritmo das necessidades que forem surgindo. O quarto do bebé também está pronto para o receber. Algumas partes das paredes continuam vazias, embora eu saiba o que lhes quero lá pôr: fotos, fotos e mais fotos. Finalmente colámos o mapa-mundo de vinil e ficou perfeito.
Falta agora tratar de coisas práticas e corriqueiras, como ir às compras pensando já no Natal (estou a pensar em comida, nunca ligámos nada a presentes e este ano o nosso presente está embrulhado desde Abril) e tendo em consideração que eu poderei não estar em muito bom estado por alguns dias.
Daqui a uma semana, se tudo correr como o esperado, já haverá M. junto de nós.
16.12.14
máquina a caminho
A minha máquina fotográfica preferida morreu há uns meses. Tenho usado uma outra, mais recente, com mais funções e mais pesadona. Tentei convencer-me que esta era melhor, que me iria habituar a ela e que nos entenderíamos como eu me entendia com a minha preferida. Mas a minha predilecção pela máquina defunta mantém-se. Paixão é paixão, não há volta a dar. Esta pode ser melhor, mas o meu coração pende para outro lado. É fácil de transportar, não pesa nada e tira fotos com uma luz e umas cores que muito me agradam. É Natal, o rebento está a chegar e eu não me estou a ver a tirar-lhe mil e uma fotos com uma máquina que pesa quase tanto com ele. Não resisti, a irmã mais recente da máquina que sucumbiu vem a caminho. Só espero que chegue antes do dia M.!
mini-roupas natalícias
Tinha comprado meia dúzia de mini-roupas natalícias pensando que o M. podia nascer antes do Natal. As semanas foram passando e cada vez fui acreditando menos nisso, até que sou confrontada com um parto provocado antes do Natal. A mudar ligeiramente os conjuntos de roupa que já estavam definidos para o rebento e a dar-lhes um toque natalício aqui e ali. Afinal as fatiotas sempre vão ser usadas na altura certa!
Pergunta recorrente dos últimos dias das poucas pessoas a quem contei a novidade: mas tu estás contente por o parto ser daqui a uma semana?, dito com ar incrédulo e olhos esbugalhados. A questão é há como evitar o parto? Sendo assim, venha daí o parto e o M.
voltas e reviravoltas
Há 3 anos estava quase a voltar de Timor. Ainda lá estava, mas já começava a ter saudades do calor que mal me deixava respirar, do mar transparente, de fazer snorkeling, de Jako - a ilha sagrada com sabor a paraíso - e de tanto mais. Timor mudou-me, naquela altura eu ainda não tinha noção do quanto, mas já me sentia diferente. Há 2 anos tinha chegado há pouco da Suécia e da Sérvia. Duas realidades completamente diferentes, assim como as pessoas que conheci num lado e no outro. Há 2 anos estava quase de partida para a minha passagem de ano mais alternativa: a confusão das ruas de Siem Reap e o primeiro nascer do sol do ano em Angkor Wat, no Cambodja. Naquela altura andavam no ar duas possibilidades: mudar-me para Itália ou voltar a Timor. Ignorei uma vez na vida a paixão e optei pela razão. Mudei-me para onde ainda estou hoje. Há um ano, já a dois, estávamos prestes a voltar a Portugal, de onde seguimos para uma passagem de ano gelada em Amsterdão. Este ano estamos a menos de uma semana de ser três em Itália.
Agrada-me o inesperado, o não saber o que aí vem, o deixar o tempo e os acasos fluírem e aproveitar da melhor forma as oportunidades com que me vou deparando. A ver vamos o que poderei aqui acrescentar daqui a um ano.
15.12.14
a 3
Posso ter um ar frágil à primeira vista, mas é coisa que não sou mesmo. Sempre fui muito independente desde muito pequena e sempre me pareceu que uma característica estava aliada à outra. Ter viajado bastante sozinha também contribuiu para que aprendesse a desenrascar-me e estes já longos meses em Itália reforçaram tudo isto, especialmente os meses iniciais em que estive por minha conta.
Estamos aqui só os dois e eu não me sinto só. Não sinto falta de nada nem de ninguém. Foi uma escolha minha pegar em meia dúzia de tralhas, metê-las numa mala e sair do país. Tinha emprego e uma vida confortável em Portugal, mas faltava-me o desafio (e agora falta-me de novo, estou ansiosa por tornar a meter a vida numa mala, mas isso é outra conversa). Fui atrás desse desafio e deixei tudo para trás, incluindo a pessoa com quem agora divido o meu tempo e o meu espaço.
Cheguei a Itália e dois meses depois passava por um aborto sozinha. Estava só eu no momento em que se confirmou aquilo de que já suspeitava. Estava sozinha quando saí da clínica e fui para casa. Estava por minha conta quando fui trabalhar no dia seguinte à novidade nada feliz. Saí de casa sozinha quando, já com um embrião sem vida dentro de mim, fui passear porque a minha vida continuava, apesar da dele ter terminado tão cedo. Foi sozinha que entrei no hospital e na sala de operações para que o que restava daquela gravidez abandonasse o meu corpo. E foi num quarto vazio que acordei depois da anestesia.
Talvez por sempre me ter bastado agora não sinta falta de nada nem de ninguém, porque a verdade é que agora tenho o dobro do que tinha antes. Agora somos dois, como fomos dois da segunda vez que abortei. Não sei dizer se me custou mais o primeiro ou o segundo aborto. Apesar de sermos dois da segunda vez, e apesar de ter alguém sempre comigo, tive que ver a tristeza imensa que te percorria os olhos e não tinha armas para a diminuir. Talvez isso tenha tornado o segundo aborto mais doloroso, isso e o facto de ser o segundo. É mais fácil tentar ignorar uma dor quando se está só. Fechamo-nos em nós mesmos e mais ninguém sabe o que nos corrói as entranhas. Ter alguém ao nosso lado que sabe que o sorriso que colámos no rosto é uma máscara dificulta o teatro. Temos fotos lindas tiradas no meio da neve. Ninguém sabe que no dia em que foram tiradas eu tinha um embrião morto dentro de mim, e ninguém, nem tu, sabia que enquanto pisava e olhava para o branco da neve dava comigo a pensar no contraste que faria com o vermelho do sangue que perdia naquela altura.
Por tudo isto e muito mais continuo a acreditar que nos bastamos nesta fase mais sensível que aí vem. Não seremos apenas os três a partir de agora? Então que comecemos a ser apenas três desde já.
a dieta é para continuar
Pergunto ao endocrinologista o que fazer depois do parto. Basicamente o que eu queria era saber se parava imediatamente com a insulina após o parto ou se era necessário confirmar primeiro que o meu organismo tinha voltado a funcionar normalmente. Respondeu-me que devia continuar a dieta, não necessariamente nos moldes actuais, mas que deveria ter um cuidado especial com a alimentação. Reforçou o que eu já sabia: que grávidas com diabetes gestacionais têm maior tendência a ter diabetes no futuro e caso venha a engravidar de novo é quase certo que serei brindada outra vez com este bónus.
Os diabetes trouxeram-me dias de stress e algum desespero, mas fizeram-me mudar hábitos sobre os quais não reflectiria de outra forma. O meu paladar mudou nestes mais de 2 meses a dieta. O que para a maioria é pouco doce, para mim é agora uma explosão de açúcar na minha boca. Claro que me apetece comer uma fatia de bolo-rei, claro que me apetece voltar a comer uma fatia de bolo de maçã com mirtilos, mas tenho sérias dúvidas que consiga voltar a comer cereais cheios de açúcar de manhã. Eu, que inicialmente, não era grande fã do tomate ao pequeno-almoço, passei a gostar quando decidi que em vez de cru o podia "torrar" um pouco e lhe podia juntar meia dúzia de cogumelos e/ou um ovo. Há dois meses achava que as maçãs eram um fruto do demo, sem piada nenhuma, e agora estou viciada nas ditas cujas (não em todas, maçãs farinhentas é coisa de que nunca gostei e desconfio que nunca gostarei). Houve mesmo coisas que vieram para ficar. Pelo que tenho lido em fóruns de grávidas com diabetes, é comum os hábitos alimentares mudarem depois desta experiência inicialmente pouco amigável.
Ontem pesava mais 4 quilos do que antes de engravidar e nunca os resultados das minhas análises estiveram tão bons quanto nas últimas semanas. Sou obrigada a dar o braço a torcer e assumir que a dieta só me fez bem.
contagem decrescente
Preferia um parto não agendado por duas razões: não stressar com a aproximação da data e poder ficar em casa o máximo tempo possível antes de ir para o hospital. Parece que não vai ser assim. Já tinha lido sobre isso e a obstetra acabou por o confirmar: não é habitual deixar que as grávidas com diabetes gestacionais cheguem ao final do tempo, ainda que os diabetes estejam controlados. Temos o parto agendado. O M. tem uma semana para se juntar a nós por livre e espontânea vontade ou receberá ordem de despejo, que me parece o mais certo.
É estranha esta sensação de saber antecipadamente o dia em que vamos ter o nosso filho connosco, ao nível de saber o sexo por mail, como também me aconteceu. Um estranho sentimento de que os minutos correm mais rápido que o habitual e não há como alterar esta situação.
A obstetra aconselhou-me a relaxar e a aproveitar a última semana de sossego, mas acho que saber que falta uma semana me impede de relaxar. Há que fazer isto e aquilo agora, porque depois não vou conseguir e há que ir aqui e ali em tom de despedida e de aproveitar a liberdade que depois não terei. Estou mesmo em contagem decrescente.
Saber que a vida como a conhecemos até agora termina no dia X tem tanto de aterrador como de fabuloso.
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