25.1.15

isto é bem capaz de não correr bem

Um pouco depois das 2 semanas as cólicas decidiram atacar em força. Nos últimos dias têm piorado. Já experimentámos vários tipos de gotas supostamente milagrosas, mas nada de efeito, nem mais nem menos milagroso. Faço-lhe massagem sempre que troco a fralda, mas o pequeno urso continua a chorar e a gritar e a espernear a torto e a direito. Estimular com o termómetro, com uma cotonete, com o tubinho do bebegel também são práticas comuns por estes lados, mas nada parece resultar. Daqui a meia dúzia de dias vamos fazer uma viagem de 2 horas e meia de avião (mais uma horas antes no aeroporto + o tempo de viagem Porto-Aveiro) e eu começo a achar que não vai ser fácil nem para o bebé, nem para nós, nem para os restantes passageiros. Torçam por nós que não se augura nada de bom no horizonte.

Ah, e se alguém tiver uma estratégia que tenha resultado com os vossos rebentos eu agradeço mesmo muito a partilha.

vou-me desgraçar tanto

Gosto de algumas peças de roupa mais tradicionais para o miúdo, mas o que me enche as medidas são roupas menos convencionais, sem folhos e afins a torto e a direito e sem as típicas cores de bebé. Há uns bons meses tinha comprado duas ou três peças desta marca, mas não explorei muito mais. Agora, depois de ver o puto com as fatiotas vestidas rendi-me completamente: a 4 Funky Flavours tem tudo aquilo de que eu gosto - cores diferentes, padrões e modelos com ar retro. Lá fui explorar a marca e dei com o site deles e com a respectiva loja online. Está tudo em holandês, mas também enviam para fora da Holanda. Já me desgracei valentemente, e desconfio que não fica por aqui.

24.1.15

1 mês depois do parto

Sempre que me lembro do parto recordo-me do momento animal que é. Durante a gravidez houve fases em que achei que o corpo da mulher apenas tolerava a gravidez, em que senti que o corpo não estava totalmente adaptado às exigências da criação de um novo ser. Depois de ter passado pelo parto tenho que admitir que agora a minha opinião é outra. O nosso corpo está realmente preparado para lidar com o desenvolvimento e nascimento de um outro ser. A forma como as contracções se dão para que o bebé seja expulso do seu casulo e seja libertado tem tanto de bem concebido e maravilhoso como de doloroso. Apesar da dor pontual continuo a achar que o meu parto dificilmente poderia ter corrido melhor e guardo óptimos recordações daquela sala com vista para o castelo onde o Miguel viu pela primeira vez a luz do dia.

1 mês depois os lóquios já se foram e eu tenho dificuldade em aceitar que há pouco mais de 1 mês estava barriguda e com o ventre a ondular. Parece uma realidade distante. Depois de terminada a gravidez tenho que admitir que estar grávida é efectivamente maravilhoso, embora os meus receios (bem fundamentados) não me tenham permitido desfrutar do processo como devia (e merecia). Comecei a gostar de estar grávida já no 3º trimestre, até aí foi uma sucessão de acontecimentos que me deixou sempre alerta e de pé atrás. Mas o que realmente interessa é que à terceira foi de vez e agora temos cá em casa um bebé lindo e espevitado que nos preenche os dias e a vida.

Às vezes dou comigo a perguntar ao pai do rebento se o miúdo será realmente bonito como nós achamos ou se estamos tomados pelo amor de pais e isso nos condiciona a avaliação. Ele ri-se e diz que o puto é realmente bonito e eu sorrio e fico na mesma! 

1 mês depois dou comigo a pensar que não me quero separar do pequeno panda tão cedo e começo a ponderar as hipóteses para poder ficar em casa com ele o máximo tempo possível, ainda que isso implique um corte razoável no vencimento. Por esta altura queria também já ter começado a procurar  novo emprego de forma sistemática. Já o comecei a fazer, mas de forma muito pontual. Estar dedicada 24 horas por dia ao pequeno não me facilita a vida a este nível. A ver vamos se as próximas semanas me deixam mais tempo para esta tarefa essencial. Quero muito sair do sítio onde trabalho e quero muito sair de Itália. Itália é um país fantástico para se passarem uns dias de férias, mas não é um bom sítio para viver (pelo menos na zona norte do país). Para onde queres ir agora?, perguntam-me alguns. Não tenho resposta. Sei apenas que quero sair daqui o quanto antes e há todo um mundo onde posso procurar emprego.

cá em casa até o estendal mudou


pequeno panda já tem cartão de cidadão,

o que significa que daqui a uma semana estaremos em Aveiro. Yeah!

22.1.15

o nosso último mês

Parece que foi há menos tempo, mas ao mesmo tempo parece que aquele Domingo em que me deitei sabendo que no dia seguinte o pequeno panda iria nascer já foi há mesmo muito tempo. O Natal foi há menos de um mês e parece agora tão distante. Foi um mês que passou rápido entre biberões, fraldas e o cheiro doce do bebé da casa. Passado o receio inicial associado ao pequeno ganho de peso tudo entrou nos eixos. Nos últimos 20 dias o pequeno texugo engordou um quilo e desde que nasceu passou dos 48 para os 54 centímetros. Tenho que admitir que hoje, na consulta com a pediatra, respirei de alívio e orgulho quando ela nos disse que deveríamos continuar a fazer o que temos feito porque ele está óptimo a todos os níveis.

Eu também estou óptima e quase a aceitar o novo ritmo que tanto me deixa ter algum tempo para mim e para fazer qualquer coisa relacionada com trabalho como me impede de fazer tudo, incluindo comer. Passar de uma casa de dois para uma casa de três é uma diferença enorme e que custa, mas que compensa tanto.

O pequeno Miguel é um bebé simpático e que pouco chora, excepção feita aos momentos de cólicas, em que revela todo o seu potencial vocal. Tem umas expressões adoráveis que eu tento ir fotografando para mais tarde recordar.

1 mês hoje



18.1.15

floreira aprovada

Comprei a Shantala um bocado na dúvida. Uns diziam maravilhas, outros descreviam pesadelos dentro de água. Sou como S. Tomé, portanto só vendo para crer. Resultado: o puto adora a banheira em forma de vaso. O Miguel não resmunga com o banho seja em que banheira for, mas é visível que se sente mais confortável na Shantala. Eu é que ainda tenho que encontrar uma posição confortável para lhe dar banho na floreira, mas que ele gosta da banheira, gosta!

a balança

Trabalho num sítio onde trabalham milhares de pessoas, grande parte deslocados de casa, que é como quem diz de país. Grande parte de nós não tem um emprego permanente, o que significa que ao fim de poucos anos pegamos nas nossas tralhas e rumamos a outras paragens. Significa também que durante o tempo em que cá estamos juntamos quinquilharia como se não houvesse amanhã. Os tarecos que deixam se nos interessar ou que não se querem levar para o novo destino são normalmente colocados à venda através de uma mailing list. O que não nos dá jeito agora dará quase com toda a certeza jeito a alguém que acabou de chegar ou a alguém cuja realidade mudou, por exemplo porque foi pai ou mãe.

Umas semanas antes do Miguel nascer alguém colocou uma balança para pesar bebés à venda. Se fosse cara não pensaria em comprar, mas era muito barata e achei que poderia ser interessante ter uma balança em casa. Agora confirmo que foi uma compra excelente. Se não tivesse comprado esta quase de certeza que já teria ido comprar uma balança nova para podermos sossegar. Numa fase inicial o bebé era pesado no hospital, mas depois ficámos à nossa mercê. Sim, podemos ir ao pediatra, mas não vamos ao pediatra a toda a hora só para pesar o puto. No início o peso teimava em não aumentar. Depois veio o suplemento et voilà, eis que o peso aumentou. E tem aumentado sempre, mas isto do crescimento dos bebés não é linear e é um sossego podermos pesar o pequenote frequentemente. Há uns quatro dias começou a comer como se não houvesse amanhã. De duas em duas horas dá sinal e abre a boca à espera do biberão. Esperávamos que tivesse feito o ponteiro da balançar aumentar visivelmente, mas em dois dias só aumentou 40 gramas. Bom, o normal é aumentar entre 20 a 30 gramas por dia nesta fase, portanto está dentro dos valores normais, dissemos de nós para nós, para nos acalmarmos. Embora achássemos estranho tanto consumo de leite para tão pouco peso a mais. Passados dois dias tornámos a pesar o puto: em dois dias aumentou 200 gramas. Respirámos fundo e bendissemos a balança que nos permite aclarar os espíritos em momentos mais cinzentos.

Ninguém mo pediu, mas aqui fica o conselho: pais recentes, tenham uma balança em casa. Vão por mim, dá um jeitão.

17.1.15

manhã de Sábado

Já o disse e confirmo-o: custa-me muito mais não ter tempo para comer decentemente e com calma do que dormir pouco e/ou às prestações de 2 ou 3 horas. Sou uma esfomeada, é o que é! De modo que hoje isto sabe-me a pequeno-almoço numa qualquer esplanada com vista para o mar. Continuo em modo panquecas com aveia e banana.

15.1.15

mesmo longe não há como escapar a isto

Estamos noutro país, não temos visitas (e dou graças por isso) e achava eu que assim me livraria de palpites e conselhos não solicitados.  Um destes dias o pequenote chorou quando estávamos ao telefone com Portugal e do outro lado veio de imediato um quer papinha! Eu revirei os olhos e tive vontade de perguntar se para além do diagnóstico do choro do bebé à distância não quereria mudar-lhe a fralda também ao longe. Que uma divindade qualquer me dê paciência para a primeira ida a Portugal, avizinham-se tempos difíceis!

a primeira saída de Itália

Às 3 semanas e 1 dia saiu de território italiano e foi passear até à Suíça. Como grande parte dos bebés gosta de andar de carro e de andar no carrinho. Resmungou com fome duas ou três vezes, que isto de gerir os horários da paparoca fora de casa e em trânsito é um bocadito mais complicado do que estando em casa. Portou-se bem e acho que nos eliminou as inseguranças associadas às saídas.

12.1.15

3 semanas de mini-urso

Há 3 semanas estava eu a alguns minutos de entrar numa realidade alternativa que nos é oferecida pelas contracções do parto. Aquilo é dor que não lembra ao diabo (mas com concentração e calma é coisa suportável) e que nos transporta para um outro mundo, todo ele desconhecido até então. No dia em que o rebento faz 3 semanas fomos com ele fazer um ecocardiograma, exame recomendado para recém-nascidos com mães diabéticas e a insulina. Saímos de lá leves e felizes: o coração do pequeno panda está perfeito. Não lhe deixei mas recordações dos diabetes. Aproveitámos e fomos almoçar fora a 3 pela primeira vez. Antes de entrarmos no restaurante o pequenote bebeu a sua dose de leite, o que nos assegurou um almoço sem choro e sereno. Foi neste restaurante que tive a certeza que o senti pela primeira vez. Estava eu a trincar o salmão quando senti uma espécie de pernita de rã a tocar-me muito ao de leve no lado direito da barriga, bem lá em baixo. Eu dei um pulo, o pai sorriu. E desde aí não mais parou de mexer e de nos fazer sonhar.

11.1.15

quase 3 semanas depois do parto...

... menos 2 quilos do que quando engravidei. 

panquecas de banana e aveia ao pequeno-almoço

Destas quase 3 semanas com um bebé em casa o que mais falta me faz é ter de vez em quando um pequeno-almoço sossegado. Sou uma pessoa de manhãs. Acordo cedo, mesmo que o cansaço tome conta de mim, e sabe-me bem preparar um pequeno-almoço cuidado que saboreio enquanto actualizo as notícias ou leio um livro. Estes momentos serenos são impossíveis durante a semana, mas ao fim-de-semana enquanto o pai (pessoa nada dada às manhãs) dorme deixo o pequenote com ele e tenho finalmente o meu pequeno-almoço silencioso e vagaroso.

Hoje fiz panquecas de banana e aveia (impensável quando estou sozinha):

  • Banana madura 1
  • Fermento 1/2 Colher de chá
  • Sal Uma pitada
  • Óleo 1 Colher de sopa
  • Ovo 1
  • Leite 3 Colheres de sopa
  • Flocos de aveia 1/2 Chávena
  • Farinha integral 1/2 Chávena
Desfazer a puré a banana (com auxilio de um garfo). Polvilhar com o fermento e uma pitada de sal.

Misturar uma colher de sopa de óleo (ou manteiga), um ovo e o leite. Juntar meia chávena de flocos de aveia e meia chávena de farinha integral.
Se a massa ficar muito pesada, misturar mais um pouco de leite (a consistência não deve ser nem muito líquida nem muito grossa).
Untar uma frigideira com um pouco de manteiga e ir deitando colheradas de massa até preencher o fundo. Deixar cozinhar, virando as panquecas para que cozam dos dois lados.

A receita é daqui. A original também tinha mel, mas eu não pus. Comi-as com iogurte grego e canela. 


10.1.15

continuar a acreditar que é possível

Mais uma amiga que viu a gravidez interrompida. Estava tão a leste deste mundo de sonhos desfeitos até me bater à porta. Sabia que acontecia, mas não fazia ideia que acontecia com esta frequência. Tudo estava bem e poucos dias depois das 12 semanas completas o mundo dela desabou. Aborto provocado e um parto ao qual se seguiu um vazio sem tamanho. Gostava de ter as palavras certas para lhe dizer, para lhe atenuar a dor. A verdade é que nestes casos acredito que o lugar comum do tempo atenuar a dor é a pura realidade. Ofereço-me para ouvir e partilhar a minha experiência nestes caminhos de desolação. Ajudou-me ter com quem falar sobre os meus dois sonhos terminados antes do tempo, talvez a ajude também. E dou-lhe o meu exemplo. Pode não ser fácil, mas não é impossível.

um ritmo de loucos

Não paro o dia todo, mas se me perguntarem no final do dia o que fiz a resposta não vai muito além de: dei de mamar, dei biberão, tirei leite com a bomba, mudei fraldas, pus roupa a lavar, passei roupa, comi a correr quando o pequenote me permitiu, tomei banho à pressa (se quero um banho mais demorado e com paz e sossego tenho que esperar que o pai chegue do trabalho), li as notícias no telemóvel enquanto ele mamava. Há dias em que também dá para lhe tirar fotos mais elaboradas, outros em que tiro duas ou três a correr. E, estranhamente, não trocava isto por nada neste momento.

Para além disto tudo babei-me a olhar para cada pedacito de corpo da pequena criatura, sorri ao ouvir os seus barulhitos de bebé, beijei-o vezes sem conta, fiz-lhe festinhas quando berrou desalmadamente com cólicas e quase dei pulinhos de felicidade quando vi o peso a aumentar de novo.

9.1.15

não há como resistir


(Enquanto lhe tirava as fotos só pensava quanto tempo demorará até fazer xixi e cocó em cima da colcha? Desta vez não fez, mas desconfio que a sorte não dura sempre)

8.1.15

oh yeah!

Duas noites seguidas sem choro: acorda, mama, bebe do biberão e adormece. É melhor não fazer grandes festas, mas estas duas noites souberam muito bem. Acordar de 3 em 3 horas sem choro quase que se assemelha ao paraíso!

6.1.15

I will survive

A partir de amanhã estarei por minha conta cá em casa com o pequeno Miguel. Começo a achar que daria um jeitão ser um polvo e ter oito tentáculos.

olhós meus tornozelos!

Finalmente voltei a ter os meus pés, ou dito de outra forma, voltei a ver os meus tornozelos. Depois do parto as perninhas abaixo dos joelhos e os pés incharam. Duas semanas depois do parto reparei que conseguia vislumbrar os meus tornozelos, o que me deixou bem mais feliz. Estas pequenas coisas fazem-me bem à auto-estima quando me sinto uma espécie de bovino amamentador (agora que também tiro leite com a bomba - e tenho leite para alimentar uma família completa de ciganos - sinto-me a ir à ordenha diariamente). O balanço é muito animador: peso menos um quilo do que pesava quando engravidei e voltei a ter tornozelos. Pena mesmo é a pele de bebé que me acompanhou durante 9 meses já me ter começado a dizer adeus. Parece que não se pode mesmo ter tudo, humpf.

das coisas que eu não entendo

Qual é o interesse de abrir uma conta bancária para um bebé de 15 dias?

respirar fundo

O pequeno Miguel está a crescer. No dia em que completou 2 semanas ultrapassou o peso com que tinha nascido. Respirámos fundo e confirmámos que dar-lhe suplemento foi a opção correcta.

o 12º dia foi um dia mau

Eu com o Miguel ao colo, em pé, e de um momento para o outro sinto algo quente a escorrer-me pelas pernas: ou estou a perder sangue como se não houvesse amanhã ou estou incontinente. Não estava incontinente. Meti-me na banheira e vi uma espécie de mar Vermelho a aparecer junto aos meus pés. Se isto tivesse acontecido logo a seguir a ter voltado do hospital não ficaria admirada, era o tempo certo para algo do género acontecer, mas quase duas semanas depois não pude deixar de ficar preocupada. Afinal estava a perder sangue como no dia do parto. Terminámos a noite no hospital, onde queriam que passasse a noite em observação, mas lá os consegui convencer a deixar-me vir para casa. Ficou combinado que voltaria de imediato se algo do género voltasse a acontecer e que, independentemente do que sucedesse, voltaria dois dias depois para novas análises e observações. Estou bem. Não se repetiu. Não encontraram razão para o sucedido. A única razão lógica será ter tido um coágulo a bloquear a passagem do sangue. Quando o coágulo saiu saiu também um rio de sangue.

Cheguei a casa já bastante mais descansada, mas a achar que tinha apanhado um susto dos diabos. Entretanto recebo uma mensagem do meu grupo de grávidas - agora muitas já mães - e afinal descobri que o meu dia tinha sido perfeito. O que nunca imaginámos que pudesse acontecer aconteceu mesmo. O primeiro bebé do grupo morreu com 3 semanas. É daquelas notícias que não se quer ler nunca, e muito menos quando se tem um filho com meia dúzia de dias. Não soube o que dizer aquela mãe que me (nos) acompanhou durante quase 9 meses e que era uma das mais bem dispostas do grupo. O que é que se diz a uma mãe que acabou de perder um filho? Disse-lhe apenas que não sabia o que lhe havia de dizer. Não conheço nenhuma das minhas colegas grávidas pessoalmente, mas criaram-se laços à distância, frutos de uma caminhada comum com os mesmos passos e as mesmas dúvidas. E agora todas sentimos a morte do primeiro bebé do grupo, aquele que nos fez ver que tudo era real, que mais dia menos dia também teríamos os nossos bebés junto a nós. O bebé nasceu prematuro e estava internado. Tinha uma imunodeficiência ainda não identificada, mas nunca nenhuma de nós imaginou que o desfecho pudesse ser este. Houve gravidezes interrompidas logo numa fase muito inicial - e nessa altura tive um medo terrível de poder vir a fazer parte deste grupo, mas depois tudo correu da melhor forma. Houve vários sustos no nosso grupo, mas todos ultrapassados da melhor forma. O primeiro bebé do nosso grupo não resistiu e o funeral é hoje.

3.1.15

do que ficou

Já não tenho diabetes, mas hoje o pequeno-almoço foi tomate cru, queijo ricota, uma fatia de pão e chá. E soube-me tão bem! 

e ao 11º dia chorei baba e ranho

O pequenote diminuiu de peso após o nascimento, o que é habitual. Voltámos ao hospital poucos dias depois para uma consulta de rotina e o peso era exactamente o mesmo. Ameaça imediata de suplemento por parte do pediatra. Se uma semana depois do nascimento não tivesse recuperado o peso inicial tínhamos que começar a dar suplemento. Já tinha lido bastante sobre isto, mas fui reler e falei com uma pediatra amiga. Não tínhamos 7 dias para que o peso do nascimento fosse recuperado, mas entre 10 e 15 dias. Pareceu-me mais razoável. Nova consulta no hospital 2 dias depois. Tinha aumentado ligeiramente de peso. Era um aumento, o que me fazia acreditar que era possível, mas era um aumento pequeno. Já saímos do hospital com a indicação do leite que deveríamos comprar caso o peso não aumentasse mais. Aguardámos mais 2 dias e pesámos o Miguel em casa. Aumento maior. Ficámos mais descansados, tudo parecia estar a entrar nos eixos. Ontem nova pesagem: não aumentou absolutamente nada. Ainda não atingimos os 15 dias, mas a continuar assim não chegamos ao peso do nascimento. Eu tenho leite, ele mama, o que está aqui a falhar?

Chorei baba e ranho. Não sou fundamentalista. Sempre achei que se o leite materno não é suficiente ou se não é de todo possível dar leite materno, que venha daí o suplemento, mas custou-me muito. Muito mais do que alguma vez poderia ter imaginado. Não sei se é a sensação de estar a falhar - embora tenha plena consciência de que estou a fazer tudo o que é possível para evitar o suplemento, não sei se foi a quebra parcial deste vínculo especial que nos une, mas sei que chorei como se não houvesse amanhã. Já passou, mas doeu que se fartou, muito mais do que o parto onde nem uma lágrima verti. Continuo a dar de mamar e de seguida lá vem o suplemento. Descansa-me ver que ele fica mais sereno, imagino que mais saciado, e acredito que quando o tornarmos a pesar o aumento de peso será bem visível. Não era o que queria, mas é efectivamente o mais correcto.

Mas como sou teimosa e ainda não desisti, daqui a pouco vou comprar uma bomba para tirar o meu leite e dar-lho no biberão. Se a falha estiver na forma como lhe dou a mama/como ele mama, esta solução resolverá o problema. Não desisto facilmente. A ver vamos.

1.1.15

opção certeira

Passados alguns dias após o nascimento posso afirmar que termos decidido ficar aqui apenas os três foi mesmo a melhor opção. Talvez tenha tido especial sorte com o parto, mas a verdade é que se tivesse tido essa possibilidade, assim que o Miguel nasceu, tinha pegado nele e nas minhas tralhas e tinha voltado para casa. Tive dores no parto. Apenas isso. Nada me doeu a seguir. Voltei para casa e regressei às minhas tarefas habituais. É certo que um pouco mais atordoada que o habitual, já que o puto mantém o ritmo que tinha quando ainda habitava dentro de mim, e tem como pico de actividade a noite. Mas a verdade é que nunca precisei de dormir muito para conseguir funcionar normalmente e isso mantém-se. A meio da tarde sinto um pouco de quebra, mas nada de grave (a ver vamos se me mantenho assim, ou se o acumular de noites mal dormidas dará sinal de si mais para a frente). 

Perguntam-me frequentemente pelos baby blues. Não me sinto tomada pelas hormonas (também não senti durante a gravidez) e ainda não me deu para chorar. Para já sinto-me eu, com as minhas formas de agir e de pensar habituais. Só me lembro de um momento em que dei comigo a olhar para a minha barriga e a achá-la estranha, por estar vazia. Ainda estava na marquesa, o Miguel tinha acabado de nascer e vi uma barriga flácida e oca. Foi a única altura em que pensei de mim para mim pronto, deixaste de ser o ninho do pequeno ser que tens agora nos braços. Mas o que tens agora nos braços desviou-me completamente a atenção da barriga vazia.

A data prevista do nascimento era hoje, mas fico muito feliz por o Miguel se ter juntado a nós uns dias antes e por poder escrever este post enquanto olho para ele, serenamente a dormir à minha frente.

o que faltava do balanço

2014 trouxe-me um presente de Natal, e um presente para a vida, que já estava embrulhado desde a Primavera e que nos deixou expectantes todos estes meses. Mesmo que o ano tivesse sido miserável  (não foi o caso) tudo deixaria de importar a partir do momento em que o pequeno Miguel se juntou a nós. 2014 será sempre recordado como o ano em que nasceu o nosso filho. Este Natal será sempre lembrado como aquele em que entrámos a três em casa no dia 24 às 8 da noite e a partir daí todo o nosso mundo mudou. Claro que o momento em que vemos o nosso filho pela primeira vez tem um impacto incomensurável, mas naqueles primeiros dias no hospital não estamos no nosso habitat. É quando se entra em casa, com mais um elemento na família, que se sente que é verdade: tudo mudou. Tinha mudado eu desde que saí de casa na madrugada de Segunda e a própria casa começou a mudar mal entrámos. Tudo muda de sítio, tudo em casa gira em torno do pequeno ser que se juntou a nós para sempre. Tudo em nós muda de sítio, tudo em nós gira em torno do pequeno ser que se juntou a nós para sempre.

2015, se não puderes ser melhor basta não baixares o nível do ano que findou.

2014 em imagens


30.12.14

regresso à vida de não-grávida

Voltei a deixar de ver o meu umbigo por dentro!

lugar comum

8 dias de Miguel e agora nada mais faria sentido se ele não estivesse aqui. Absorvo-o com todos os meus sentidos, muito mais do que com a máquina fotográfica. Estes 48 centímetros de gente tornaram-se o meu Sol e vieram dar tanto mais significado aos meus dias. Estou completamente  enamorada pela pequena criatura que há uma semana e um dia se me escapou das entranhas.

29.12.14

adeus diabetes!

Voltei a poder comer papas de aveia ao pequeno-almoço. Já tinha saudades! Hoje: papas de aveia com uma casca de limão e canela, e um iogurte de cereja em cima. A tirar a barriguinha de misérias! A propósito, a barriga foi-se completamente! Agora falta a firmeza voltar, mas nunca imaginei uma semana depois estar sem nenhuma barriga.

28.12.14

relato de um parto induzido

Assim que soube que o parto ia ser induzido, aproximadamente uma semana antes, procurei relatos de outros partos também induzidos. Encontrei um ou outro relato que me deixou descansada e outros que quase pareciam verdadeiros cenários de terror prolongados por horas e horas. A dada altura deixei de procurar informação e pensei de mim para mim o que for se verá, havemos de sobreviver. Porque o meu parto pertence ao grupo dos felizes, e imagino que, como eu, outras mulheres procurem relatos de partos induzidos, aqui fica ele. Com esse objectivo e também porque para já ainda está fresco e eu quero mesmo guardá-lo na minha memória, sem me esquecer de nada.

Chegámos ao hospital às 7:30 como nos tinha sido pedido. Estava em jejum, e cheia de fome, porque me tinham dito que o que iriam usar para provocar o parto me poderia provocar náuseas e não deveria comer nada antes. Sentia-me um pouco apreensiva, mas calma. Sentimentos que duraram algum tempo, mas se dissiparam quando depois de ter sido colocada no quarto ligada ao CTG (nada de contracções), nada mais aconteceu. Quer isto dizer que depois do CTG fiquei horas no quarto sem que mais nada se passasse. Algum tempo depois vim a saber que ainda estavam a equacionar se me induziam o parto naquele dia ou não (não cheguei a perceber porquê, depois de tudo se ter resolvido não quis saber mais nada sobre aquelas primeiras horas do dia). Fiquei furiosa e senti-me injustiçada. Não se brinca com uma grávida no (suposto) dia do parto. O stress e a ansiedade do momento já são mais que suficientes só por si, não é necessário adicionar factores externos promotores de tudo o que não beneficia a grávida naquele momento. Senti-me frágil e dei comigo a pensar que se estivesse em Portugal provavelmente não passaria pelo mesmo. Cada vez tinha mais fome e pensava que caso a indução avançasse mesmo me faltaria energia. Dei também comigo a pensar que nunca tinha imaginado que o dia do parto seria assim, e que não merecia o que se estava a passar.

No mesmo quarto que eu estava outra grávida que ia fazer cesariana. Levaram-na cedinho e mesmo muito pouco tempo depois estava de volta com o bebé. Dei comigo a desejar que me acontecesse o mesmo, que me levassem e me devolvessem passado meia hora com o bebé já do lado de fora. A sensação de injustiça que tomava conta de mim era ainda maior porque eu, que passaria por um processo doloroso e provavelmente longo, estava ainda em terra de ninguém, sem saber o que me iria acontecer, quando alguém com um parto "passivo" já tinha o seu "assunto resolvido". Naquela altura tive vontade de pegar nas minhas coisas e sair do hospital.

O meu desapontamento foi mais do que visível para a equipa que me acompanhou e a indução avançou mesmo. Tiveram o bom senso de entretanto me dar o almoço, dizendo que era já demasiado tempo sem comer. O pior que me poderia acontecer era vomitar e isso era preferível a estar esfomeada e sem energia.

Pouco tempo depois fui observada e, inesperadamente, já tinha 3 centímetros de dilatação. Não tinha sentido dores, não tinha sentido contracções, nada de nada, mas os 3 centímetros estavam lá. A obstetra rebentou-me as águas, na tentativa de me provocar contracções e acelerar o processo. Fiquei feliz ao pensar que depois das águas rebentadas não havia volta, o Miguel ia mesmo nascer. Relembrei a obstetra que queria epidural. Ela recordou-me que só a partir dos 4 centímetros, e eu dei comigo a pensar que já só faltava um, que deveria aguentar as dores até lá e que depois chegaria ao paraíso do parto sem dor. De novo ligada ao CTG pude verificar que começava a ter algumas contracções, mas nada de significativo, nada que me provocasse dor e como se viu através de novo toque, nada de dilatação a aumentar. Foi então decidido que me iriam dar ocitocina. Até aqui estive no quarto, mas entretanto apareceu uma enfermeira a dizer-me que ela me iria acompanhar a partir de agora e que deveríamos subir. E pediu para levarmos a primeira roupa do bebé. Aqui dei comigo a pensar que tinha mesmo chegado a hora, estavam-me a pedir a roupa do bebé! E lá fui eu, a enfermeira e o pai do Miguel em peregrinação para o andar de cima. Eram 14.30 e no quarto estavam visitas da ex-grávida que já tinha o bebé com ela há umas boas horas. Desejaram-me boa sorte, e acho mesmo que tive muita.

No andar de cima ficava o bloco de partos. Entrámos numa sala que tinha a marquesa para o parto, um cadeirão e mais uma série de tralha. Só pensava então já estou no sítio onde tudo se vai dar? Não há aqui mais nenhuma fase intermédia? A enfermeira perguntou-me se preferia ir para a marquesa ou para o cadeirão. Preferi o cadeirão, sabia que estar sentada ou de pé poderia facilitar a dilatação. Ocitocina a ser aplicada através do cateter, eu ligada ao CTG a  ver as contracções a aumentarem de intensidade e de frequência.  Ainda falámos e rimos os dois durante algum tempo, até que tive que me concentrar na respiração porque as dores começavam a aparecer (penso que seriam umas 15 horas). 

As minhas primeiras contracções não são passíveis de ser descritas de forma poética, senti as contracções como uma vontade enorme de fazer cocó. E a dada altura, com receio que a sensação passasse a ser algo mais, pedi para ir à casa de banho. Ainda me movimentava bem, apesar das dores já se fazerem sentir. Voltei, sentei-me no mesmo sítio e lembro-me de pensar mas será que ainda falta muito para os 4 centímetros? 

Não tive aulas de preparação para o parto. Li e ouvi experiências alheias. A respiração que fiz (de acordo com os cânones ou não) ajudou-me muito a focar-me noutra coisa que não a dor. Inspirei e expirei sempre, não me descontrolei, fechei os olhos nos momentos de maior dor, tentei ter sempre os pés bem apoiados no chão e apoiei os braços nos braços da cadeira. Tentei não me encolher nos momentos de maior dor, o que só aumentaria a minha sensação de fragilidade e dor. A dada altura apercebi-me que abria e fechava as mãos de acordo com o momento da contracção. Tudo isto me ajudou a tentar afastar a atenção da dor. Um aspecto com que não contava foi o frio e o calor que senti. No pico das contracções tinha muito calor, sentia-me corada. Quando as contracções passavam tremia de frio. Era também nesta altura, entre contracções que pedia ao pai do Miguel para me passar a água, tinha os lábios sequíssimos e tinha imensa sede.

O relógio de parede estava bem à minha frente, por isso recordo-me que eram 15.50 quando as dores já apertavam a sério e eu perguntei se já podíamos ver como estava a dilatação. A enfermeira disse que veríamos às 16.30. A proximidade das contracções foi aumentando e a sua intensidade também. Entre as 16 e as 16.30 algumas contracções foram mais prolongadas e comecei a sentir uma vontade enorme de fazer força. Apesar das dores mais intensas, as 16.30 não demoraram assim tanto a chegar. Passei do cadeirão para a marquesa e a enfermeira informa-me que a dilatação estava completa, a partir daquele momento podia fazer força quando me apetecesse. Adeus epidural!

Tinha visto um vídeo de um parto (sereno, de uma mulher corajosa) em que lhe foi dito por uma enfermeira para fazer força de forma contínua, e não pontual, porque havia muitas "barreiras" a abrir até o bebé sair. Só fazendo força de forma contínua essas "barreiras" cederiam. Lembrei-me disso a cada contracção que se seguiu. A fase de expulsão por mim poderia chamar-se explosão, porque foi isso que senti. O corpo na iminência de rebentar a qualquer momento, enquanto uma pressão brutal empurrava o bebé para fora. As dores são imensas, mas a vontade de fazer força e de terminar o processo são ainda maiores. A enfermeira fez um pequeno corte para ajudar a cabeça do bebé a sair. Senti o corte, mas no meio de tudo o que se estava a passar, foi mais dor menos dor, nada de relevante. Senti a cabeça do Miguel a resvalar para fora e na contracção seguinte senti o resto do corpo a escorregar de dentro de mim. Eram 16.53 e todas as dores desapareceram. Olhei para o lado e o meu marido chorava que se fartava. Tive vontade de rir, ou sorrir. Eu passava pelas dores e ele é que chorava. Homens!

Sempre tive dúvidas sobre a capacidade do pai do Miguel estar ao meu lado até ao momento da expulsão. Aguentou-se firme e, contrariamente às expectativas, cortou o cordão umbilical e não desmaiou!

Imediatamente após o parto colocaram o Miguel em cima de mim, pele com pele. Depois do obstetra fazer uma espécie de ponto de cruz ou macramé (nunca mais se despachava e eu queria mesmo era poder concentrar-me na pequena criatura que tinha acabado de sair de dentro de mim) passei para o cadeirão onde tinha estado antes e dei de mamar pela primeira vez. A equipa médica deixou-nos sozinhos algum tempo. Depois disso, penso que passava pouco das 18, levantei o rabinho da cadeira e voltámos ao quarto já a três. As visitas que estavam no quarto quando saí ainda lá continuavam e olhavam incrédulas para mim, por ter voltado poucas horas depois, pelo meu próprio pé e com um bebé nos braços.

Parto rápido e sem epidural era algo que achava não existir, afinal existe. O meu foi assim.

27.12.14

:)

O Miguel saiu hoje de casa pela primeira vez e hoje nevou pela primeira vez este Inverno.

26.12.14

tanto para contar e tão pouco tempo :)

Estou, naturalmente, quase que absorvida a 100% pelo novo habitante cá de casa. Ainda não parece real agora sermos três. Um dia destes venho-vos cá contar como foi o parto ultra-rápido, tão rápido que não houve tempo para epidural! Penso que dificilmente poderia ter corrido melhor. Este percurso não foi nada fácil, esta gravidez também só me deixou sossegar no terceiro trimestre, mas terminou de forma perfeita: um parto perto do ideal e um bebé perfeito, lindo e sem consequências dos meus diabetes (que felizmente me abandonaram na sala de parto).

Coisas menos relevantes, mas que me fazem bem à alma: três dias depois do parto já tinha voltado ao meu peso pré-gravidez e a barriga diminui de dia para dia. A firmeza naturalmente que ainda não regressou, mas o volume quase que sumiu na totalidade e não há sinais de estrias.

Estamos incomensuravelmente felizes, pouco mais há a dizer.

22.12.14

Miguel


A terra tremeu ontem

não mais do que anteontem
pressenti-o
O ventre de que falo como um rio
transbordou
e o tremor que anunciava
era fogo e era lava
era a terra que abalava
no que sou



Depois de entre os escombros
ergueram-se dois ombros
num murmúrio
e o sol, como é costume, foi um augúrio
de bonança
sãos e salvos, felizmente
e como o riso vem ao ventre
assim veio de repente
uma criança

  

ordem de despejo!

Como até ao prazo definido o mini-inquilino não se decidiu a abandonar o alojamento, vamos dar-lhe ordem de despejo.

21.12.14

de 2014 ainda antes do meu acontecimento do ano

A 10 dias do final do ano sei bem que o balanço feito hoje ficará muito incompleto, mas se não houver balanço hoje o mais certo é não haver.

Gosto muito de mim, apesar da minha forma de ser e da minha forma de agir me trazerem muitas vezes situações menos boas. 2014 confirmou-o. Tive aborrecimentos de sobra a nível profissional, cortei relações com algumas pessoas, mas para mim o balanço é claramente positivo: fui fiel a mim própria e à minha forma de ser. Não posso estar em completo desacordo com uma situação e fazer de conta que concordo ou que não quero saber. Tenho sangue a correr dentro de mim e não água. Para muitos seria mais fácil não tomar posição, ignorar e ser politicamente correcto, eu não sei (nem quero saber) ser assim. Tenho perfeita noção que ter esta postura me torna um alvo a abater, é o preço a pagar por ter coluna vertebral.

Em 2013 fui vítima de assédio sexual, em 2014 o assédio transformou-se em assédio moral, fruto da não cedência às investidas no final do ano anterior. Nunca pensei ver-me envolvida em algo deste género e hoje teria tido uma postura diferente no primeiro momento em que me senti assediada. Ficou-me a lição para o futuro, se bem que espero que esta tenha sido uma experiência única em toda a minha vida. 

Este ano afastou-me de algumas pessoas que eu achava estarem lá de pedra e cal, e confirmou que há outras com quem poderei contar para sempre. A primeira parte da frase anterior deixou-me triste, mas agora centro-me na segunda parte, que é efectivamente a mais importante. Quem se foi não merece tempo de antena, quem se mantém merece-me de todas as formas.

2014 trouxe-me mais um aborto. Houve um momento, a altura em que ambos fizemos dezenas e dezenas de análises para tentarmos encontrar a causa do não desenvolvimento dos embriões, em que tive um medo enorme que este fosse apenas o início de uma longa caminhada. Tive noção que a ser assim muita coisa mudaria em mim e em nós. Ninguém consegue fazer uma longa caminhada no mundo da infertilidade sem mudar as suas prioridades e sem se centrar no seu principal objectivo de vida. E eu não sabia se queria centrar a minha vida num objectivo que poderia nunca atingir. Mas 2014 trouxe-me uma terceira gravidez inesperada e hoje já ultrapassámos as 38 semanas do M. 

Sei bem que há quem tenha passado por situações incomparavelmente mais difíceis, mas gosto da forma como consegui lidar com tudo o que aconteceu. Lembro-me de ter contado a algumas pessoas próximas que estava grávida pela terceira vez e vi no olhar delas uma descrença enorme, li naqueles olhos um vamos lá ver quantas semanas dura desta vez. E não quis saber, porque apesar de todos os receios acreditei que era possível. E foi. Gostei da forma como consegui encarar a situação com humor, mesmo nos momentos mais negros. Todas as decisões que tomei foram baseadas num misto de razão e intuição e não me arrependo de nada. Ficam-me imagens na memória de momentos sem grande significado aparente, mas que se ficaram vincados é porque representam algo especial:
  • recordo-me perfeitamente do segundo aborto, quando estava sentada no terraço ao sol, num ambiente aparentemente idílico e de vez em quando corria para a casa de banho para, entre contracções, expulsar o que restava daquela gravidez; depois voltava ao terraço e ligava para a TAP a desmarcar os voos que seriam para aquele dia, se tudo tivesse corrido bem;
  • lembro-me do teu olhar de desespero naquele corredor do hospital quando se confirmou que a segunda gravidez tinha chegado ao fim, lembro-me de chorarmos juntos; sei que até hoje aquele corredor te traz más memórias, embora depois do menos bom já lá termos passado momentos de alegria (e outros sustos, é verdade);
  • lembro-me da foto que tirei ao cisne, enquanto caminhava para me libertar dos maus momentos que tinha acabado de viver - o fim da segunda gravidez - e de ter pensado que o cisne estava com ar de fénix, e que eu também iria renascer;
  • e, obviamente, não me esqueço da sensação que tive antes do teste de gravidez, aquela estranha certeza de que estava grávida e que se veio a confirmar; a intuição andou certeira em 2014, sempre achei que seria um menino e é mesmo.

2014 levou-nos a muitos sítios, inicialmente a dois, e depois já a três. Está prometido que assim que o M. for crescido o suficiente o vamos levar ao sítio onde duas células deram origem a uma que não mais parou de se multiplicar, e vamos levá-lo também a Macau que, no meio duma suposta brincadeira, acaba por ter um significado especial para os três.

2014 juntou-nos para sempre, num casamento só a dois. O nosso casamento foi aquilo que para mim um casamento deve ser: um compromisso de união para sempre, sem aspectos acessórios sem interesse nenhum. O nosso casamento fomos nós, mais nada nem mais ninguém. 

Faltam 10 dias para 2014 terminar e ainda há tanto para acontecer.

20.12.14

um ano depois

Casa limpa, roupa passada, tudo no sítio. E agora dou aqui comigo a pensar que esta é a última noite em que poderei dormir até quando me apetecer...

Exactamente há um ano estávamos em trânsito. Mais uma horas e voávamos para Portugal, onde passaríamos o Natal. Quando levantámos voo tinha uma amiga em trabalho de parto, quando cheguei a Aveiro o bebé já tinha nascido. Exactamente um ano depois o puto já caminha sozinho e a minha amiga casou-se hoje. 

Num ano aconteceu tanta coisa.

Este ano devemos ser dos poucos estrangeiros que ficaram por cá. Não seria o nosso Natal de sonho não fosse a chegada do pequeno M. que mudará para sempre a nossa forma de sentir o Natal e imagino que a nossa forma de sentir seja o que for. É um pouco estranho ter a perfeita noção de que estamos a poucas horas de uma mudança tão grande nas nossas vidas.

o Natal por estes lados