28.6.15

ficar em casa até a mini-criatura ter 1 ano

Pesámos vantagens e desvantagens a vários níveis e chegámos à conclusão que me parece sabermos desde o início que seria esta: vou tentar ficar em casa com o mini-panda até ele ter 1 ano. Agora é preciso que a hierarquia concorde. Lado complicado da coisa: o chefe mudou desde que eu vim para casa, o que significa que o chefe actual não me conhece de lado nenhum, o que pode não jogar muito a meu favor quando esta "estranha" lhe disser que quer ficar em casa até final do ano.

Esta decisão tem a forma de um rombo orçamental considerável, mas tem um sabor doce, tão doce, que não é possível para nós tomar outra decisão nesta fase. Agora é torcer para que o mundo penda para o nosso lado.

26.6.15

8 anos

Acho que foi a primeira vez que não me lembrei do aniversário do doutoramento. Passaram 8 anos no final do mês passado e à hora a que defendi a tese devo ter estado a tentar adormecer a pequena criatura (é o que mais faço durante o dia, dadas as longas lutas contra o sono do pequenote). 8 anos, valha-me Deus! 8! Estava com a vida pessoal virada do avesso. Escuso-vos aos pormenores, mas que bastariam para uma pequena comédia romântica (sem final feliz), bastariam! Ainda hoje me rio quando me lembro que separei dois marmanjos que decidiram chegar a vias de facto supostamente por minha causa. Devia tê-los deixado digladiar-se e assistir da bancada. Enfim, aquela já não sou eu.

coisas boas cá do sítio

O sítio onde vivo tem muita coisa má (as transportadoras e as entregas estão no cimo da minha lista de desgraças locais), mas há que admitir que também há coisas bem boas. Não vou falar dos gelados, vou passar logo para o lado mais sério da coisa: a saúde. Tenho razão de queixa de muita coisa, mas a verdade é que a parte dos cuidados de saúde funciona. Bom, o que se paga paga-se e muito bem (análises que em Portugal faço por menos de 10 euros aqui custam quase 100), mas os profissionais de saúde são competentes e atenciosos (a parte da simpatia é coisa rara na zona de Itália onde vivo). Durante a gravidez tornei-me cliente habitual do hospital cá do sítio e fui sempre atendida de imediato, nada de filas de espera. E agora o pequeno urso tem direito a pediatra gratuito escolhido por nós, disponível todos os dias da semana (se for preciso telefono de manhã e pouco depois tenho consulta), com excepção do fim-de-semana. Para o médico de família nem precisamos marcar, é aparecer e esperar uns minutitos. E também não se paga. Vá, nem tudo é mau!

25.6.15

a parede

Antes, quando morava na minha casa (aonde agora vou de visita e vou sentindo cada vez menos minha) sentia falta de uma varanda. Na verdade essa minha casa tem uma varanda minúscula onde devo ter estado uma meia dúzia de vezes, porque é mais um devaneio de arquitecto do que uma verdadeira varanda. Agora, em Itália, tenho uma varanda a sério (tive uma em cada uma das quatro casas onde já vivi desde que mudei de país), e sinto falta de algo que tenho e não tenho (sim, sim, isto anda bonito!). Queria uma parede para poder furar à vontade e pôr fotos das viagens e do mini-urso. Sim, tenho aqui duas paredes a piscar-me o olho e tenho umas molduras que comprei antes do bebé nascer e outras que se mudaram cá para casa já depois do nascimento. Tenho tudo, até berbequim, mas estas paredes não são minhas. Daqui a uns meses arrumamos as tralhas, pegamos em nós e vamos sabe-se lá para onde. Não me apetece furar as paredes todas para daqui a pouco tempo termos o trabalhão de tapar os buracos todos, tentar deixar tudo bonitinho, não acertar com o tom de branco e deixar as paredes às bolinhas brancas amareladas. Ainda antes do pequenote nascer agarrei-me ao berbequim e foi um fartote de furos: o quarto do mini-urso está furado tipo passador e ainda tem um vinil gigante. Meti na cabeça que o miúdo havia de ter um quarto mais ou menos normal, ainda que numa casa temporária. Nessa altura parece-me que ainda não tinha bem noção que o tempo por estes lados tem os dias meses contados. Ou então nessa altura não tinha tanta vontade de sair daqui, também é possível que seja isso. De modo que tenho ali fotografias e molduras à espera de serem penduradas, mas falta-me uma parede mais permanente.

raro momento caseiro de silêncio

Um dia e um momento atípicos: oito da noite e reina silêncio em casa. Dormem os dois. Sobro eu de olhos abertos e olheiras ainda mais acentuadas que o normal: o pequenote na noite passada decidiu acordar já não sei quantas vezes (não é forma de dizer, é que me perdi mesmo nas contas na madrugada, tantas foram as vezes em que os meus pés saltaram da cama e tocaram o chão). Ser mãe tornou-me menos explosiva e mais ponderada, apesar do cansaço. Antes disparava a torto e a direito se algo não me agradava. Agora raramente me queixo e quando isso acontece não é sob a forma de uma explosão vulcânica, fico-me pelo arremesso de uma única farpa certeira. Comecei a engolir os momentos de fúria e explosão quando estava grávida. Não me apetecia que culpassem as hormonas quando os culpados eram outros. Depois do Miguel se juntar a nós essa forma mais recatada de reagir apoderou-se de mim de uma forma suave. Não me apetece gastar energia com o que não a merece, é a conclusão a que chego. Não é uma resolução intencional, nem um ponto de partida, é uma forma intuitiva de valorizar o que é relevante. Tenho os meus momentos de fúria interior, em que em silêncio grito tudo o que me mói a alma, mas até agora esses gritos nunca chegaram a ecoar realmente. Ainda estou em processo de mudança (nunca se deixa de estar, certo?) e a tentar perceber o que quero e o que não quero e como lidar com decisões futuras. Continuo a não querer estar onde estou e a sentir que neste momento não pertenço a lado nenhum (parece que dois anos depois sou mesmo emigrante), mas ainda não encontrei o meu poiso futuro e isso neste momento provoca-me alguma angústia.  

marido em estado comatoso

Diz a Guilhim, e muito bem, que as mulheres são um bicho do caraças. Concordo com todas as minhas forças e hoje com um sorriso no rosto. No quarto ali ao lado tenho um marido em estado comatoso. Estive uns dias sozinha com o rebento e superei bem a tarefa. Ainda assim fiquei feliz quando ontem o vi entrar em casa, por todos os motivos e também porque isso significava ter uns minutinhos só para mim. Qual quê! Entrou-me porta a dentro um marido enjoado. Está ali metido na cama com ar de quem tem só mais meia dúzia de segundos de vida, mas já estamos nisto desde manhã. Decidi que o nem o pai morre nem a gente almoça não é para mim e almocei mesmo. De vez em quando ouço uns gemidos de sofrimento e depois segue-se o silêncio. Para confirmar se ainda respira tenho entrado no chat do FB e verifico que ou está ligado ou esteve há poucos minutos. Desconfio que não será grave!

6 meses

O pequeno grande Miguel fez 6 meses. Já passou meio ano desde aquelas duas horas em que descobri o que eram contracções, e desde aqueles 15 minutos na marquesa a fazer força até que o rebento fosse lançado no seu novo mundo. Tão pouco tempo e tanto ao mesmo tempo. Desde que descobri que estava grávida que o tempo deixou de ter um valor absoluto, tudo é muito e pouco, dependendo da perspectiva. O bebé passou do ovo para a cadeira do carrinho, ultrapassou os 9 quilos e os 70 centímetros e tem 2 dentes a espreitar. Parece-me crescido e enorme, embora aos olhos dos outros seja apenas um pequeno bebé. Já se senta e já me permite ter vida. Já voltei a escrever (coisas de trabalho) e já me meti em mais isto e aquilo (também coisas de trabalho). Os dias não chegam, estico as noites até onde posso e consigo. Descobri que era isto que idealmente faria: trabalhar a tempo parcial e poder dedicar-me ao Miguel a tempo inteiro. Parece que o mundo não é perfeito e que não poderá ser assim por muito mais tempo. Ainda não consigo conceber a minha vida com um bebé e a trabalhar o dia todo fora de casa. Sei que sobreviverei (não sobrevivem todas?), mas ainda não sei o que me vai custar. 

9.6.15

2 semanas

2 semanas num sítio diferente. Voltamos a Itália e o pequeno panda come melhor, consegue estar mais tempo acordado sem ficar resmungão, faz sestas maiores (louve-se o criador!), consegue brincar sozinho por alguns instantes, já quase se senta e já dorme sozinho no quarto dele. Mais 2 ou 3 idas a Aveiro e temos aqui um adulto!

8.6.15

dos reajustes

Duas semanas em Aveiro. Estive na minha casa, senti-me em casa em alguns momentos, noutros nem por isso. Há alturas em que me sinto a viver num acampamento de ciganos, e isso faz-me ter vontade de voltar a Itália. Em Itália temos a casa preparada para viver com um bebé. Em Aveiro tenho a casa que deixei há dois anos quando, sozinha, me mudei. Rio-me sempre que vejo no cesto da roupa suja roupa que lá deixei nessa altura. Que desmazelo, pensarão vocês. Eu vejo aquela roupa e sorrio, e propositadamente lavo a roupa mais recente e aquela fica ali a marinar. Se me perguntarem por que razão o faço talvez não saiba responder, ou talvez seja uma forma (parva, eu sei) de manter viva por mais uns tempos a pessoa que era há dois anos. Gosto muito da minha nova vida e gostava muito da anterior. Sim, tenho saudades de sair de casa à hora que bem me apetecia e fazer o que bem queria. Nesta ida a Aveiro descobri que já é possível sair de casa à hora a que antes saía, de máquina fotográfica na carteira… e com um carrinho de bebé. Aos poucos junto o melhor da minha vida anterior com o melhor da minha vida actual. Aos poucos reencontro-me ou encontro-me de novo, de uma forma diferente, mas é um processo difícil e nada imediato. Actualmente há tantas decisões a tomar, tantos prós e contras a pesar. Às vezes sinto que me falta uma hora de silêncio, só comigo, para respirar fundo e encontrar o caminho acertado. Não vale a pena sonhar com o que não terei, tenho de me habituar ao novo ritmo dos dias e continuo a achar que isso é o que mais me está a custar. Aos poucos chego lá, espero eu!


18.5.15

2 anos em Itália

Já vivi em 4 casas diferentes e perdi a conta ao número de viagens que fiz, fora e dentro do país. Vim para cá grávida sem saber e sem uma relação sólida. Entretanto a relação ganhou raízes e vários andares. Engravidei mais duas vezes. Casei-me. Tive um filho. Soube na primeira pessoa o que de animalesco tem um parto. Vim sozinha e agora somos três. Passaram só dois anos e eu sinto-me a viver outra vida, e sinto que o Eu de hoje é tão diferente do de há dois anos.

Sinto que o que Itália tinha para me dar já me foi dado (e, ao contrário do que supunha quando me mudei, nada tem a ver com trabalho), agora é tempo de seguir em frente.

há uns meses nem eu me imaginava a dizer isto

É a coisa mais improvável de ouvir vinda de mim, mas se pudesse, e apesar do cansaço, dizia adeus ao trabalho por uns anitos e dedicava-me a 100% à pequena criatura que agora dorme aqui ao lado. Em que ser me estou eu a tornar?

13.5.15

fato de apicultor precisa-se!

Ao segundo dia a pequena criatura descobriu como cuspir a sopa.

regresso a 2001

O portátil ficou sem bateria e quando voltou à vida acordou a 1 de Janeiro de 2001. Há várias vida atrás. Dei comigo a pensar quem era no início de 2001. Tinha acabado o curso há dois anos e tinha-me iniciado a dar aulas no ensino superior há poucos meses. Morava em Leiria e a minha paixão por São Pedro de Moel nasceu naquela altura. Tinha sido operada há pouco tempo e tinham-me dito que dificilmente poderia ter filhos. Era apaixonada por um amigo que continua a ser amigo e que nunca passou disso. Estava a começar a explorar o mundo da internet. Daí a pouco tempo haveria de passar horas e horas num chat (o meu único vício até hoje, felizmente superado há muitos anos) e aí iria conhecer duas pessoas que tiveram um papel fundamental na minha vida. Uma delas mantém-se na minha vida até hoje, apesar da distância e do afastamento, a outra sumiu. Houve alturas em que tive curiosidade em saber o que seria feito dele, hoje tenho mais em que pensar e com que me entreter. 

E agora vou regressar a 2015, que a minha realidade chama literalmente por mim.

12.5.15

o vento

O Miguel sentiu o vento na cara pela primeira vez no Domingo. Estava calor e uma brisa quente. Gostou da sensação: riu-se muito. Eu sorri. Nunca tinha pensado nestas pequenas grandes coisas: quando é que sentimos o vento pela primeira vez? Quando é que sentimos a chuva a molhar-nos pela primeira vez? Como reagimos? É um privilégio poder acompanhar todas estas primeiras vezes do meu pequeno ser.

já come

A pediatra recomendou começarmos a alimentação complementar ao quinto mês. Acaso dos acasos, no dia em que completa 5 meses vamos para Portugal. As rotinas vão ficar viradas do avesso. Achei que juntar sopas e frutas a uma altura já de si tão diferente não seria uma ideia brilhante. Segui a minha intuição: começou a experimentar os sólidos duas semanas antes do previsto. Estou a fazer isto de uma forma aparentemente pouco organizada, mas mais uma vez sigo a minha intuição. Ou talvez siga mais do que isso: li sobre as várias possibilidades de introdução dos sólidos e vou tentar seguir o caminho que me parece mais sensato. Para já só uma refeição diária de sólidos, o almoço. Começámos com fruta e hoje experimentámos a sopa. Para já não se fez de esquisito, embora pela expressão me pareça que a fruta (mais doce!) lhe conquistou mais as papilas gustativas. A seguir vamos experimentar uma papa caseira (vou tentar fugir às papas de compra). Assim que tiver mais desenvoltura nas mãos vou tentar dar-lhe pedaços de alimentos (maçã, cenoura, ...) para que possa explorar o alimento na sua totalidade. Já consigo imaginar o olhar horrorizado das avós a achar que a criança se vai engasgar e que a mãe é uma desnaturada! 

o terceiro e o quarto meses

Todas me disseram que o mais complicado eram as primeiras semanas. Eu acreditei e preparei-me mentalmente para o pior. Passou o primeiro mês e passou o segundo e eu dei comigo a achar que se o pior já tinha passado isto afinal não era o bicho de sete cabeças que me tinham pintado.

Errado, tão errado!

Talvez seja de mim que lido relativamente bem com a privação de sono, mas os primeiros dois meses não me custaram por aí além. O que eu não imaginava era que ao terceiro e ao quarto não ia conseguir fazer NADA DE NADA a não ser tomar conta do meu pequeno rebento. Passei a acordar menos vezes durante a noite, mas durante o dia a pequena criatura não estava sem chorar se não estivesse ao colo ou eu não estivesse a brincar com ele - atenção que isto não significa que ele não chorava se estivesse ao colo ou se estivesse a brincar! Ah, descansavas quando ele fazia as sestas!, diziam-me as iluminadas profundas da maternidade. Pois que não dormia, não! A pequena criatura não é dada ao sono e numa sesta daquelas mesmo boas dormia uns 15 minutos. Recapitulemos: não estou em Portugal, não tenho família nem amigos chegados por perto. Quer isto dizer que não há a quem deixar a cria nem que seja por meia hora (isto é assunto para outro post, mas entre não ter a quem o deixar e não ter que ouvir palpites a toda a hora a primeira ganha!, continuo muito feliz por estar longe). O terceiro e o quarto meses foram de uma exaustão profunda, sem tempo para respirar e muito menos para me dedicar a candidaturas a empregos - esta tarefa teve que ser adiada uns meses, parece que finalmente o pequeno Miguel decidiu colaborar na empreitada de deixar Itália o quanto antes.

Portanto, tudo é mesmo muito relativo. Os primeiros dois meses foram cansativos, mas os dois seguintes foram terríveis e houve alturas em que dei comigo a achar que não tinha sido talhada para isto. Acho que me disseram tantas coisas ruins dos primeiros dois meses que eu me preparei para viver uma catástrofe… que veio nos meses seguintes, quando eu esperava uma espécie de bonança. Agora, ainda antes do quinto mês, sinto que o mini-panda está um pouco mais autónomo, chora menos, dorme sestas mais longas e… rufem os tambores… até já me deixa escrever posts e concorrer a empregos! Talvez tivesse vivido estes meses de forma mais serena se não quisesse mudar de emprego e não stressasse de cada vez que deixava um prazo passar porque simplesmente não tinha tido tempo nem disponibilidade mental para me candidatar.

Escrevo-vos agora com ele a dormir no meu braço esquerdo. E agora… enviar uma candidatura! Torçam por mim, para que rapidamente o nome do blog possa mudar!

4 meses e tal

Há umas boas semanas o Miguel fez uma sestas mais longas e eu dei pulos de felicidade. Foi sol de pouca dura. Rapidamente voltou às sestas de 10 ou 15 minutos: uma desgraça para mim. Num quarto de hora não faço quase nada e, para além disso, tinha um bebé acordado quase o dia inteiro. E convenhamos que não é fácil entreter um bebé de 3 ou 4 meses durante horas a fio. O rebento sozinho chorava baba e ranho, tinha mesmo que ter companhia a interagir com ele sempre que estava acordado.

Agora, mais crescidito, parece que começou mesmo a dormir mais tempo seguido durante o dia, o que só traz vantagens. O rapaz dorme mais, logo acorda mais bem-disposto. Brinca sorridente e já vai estando alguns minutos entretido só a olhar em redor, mas especialmente a olhar para mim. Parece que ver-me a fazer as tarefas domésticas rotineiras é a sua maior fonte de entretenimento por estes dias. Ora, isto dá um jeitão, porque finalmente consegui começar a tratar decentemente das tarefas da casa.  Também já é possível sair de casa sem que o pequenote desate num pranto. Começo a vislumbrar uma possibilidade de vida compatível com a maternidade.

24.4.15

o segundo

São muito poucos os que sabem que estou a tentar engravidar de novo. Desses poucos devem sobrar 1 ou 2 que não me acham doida varrida. Uns acham que já tenho sarna mais do que suficiente para me coçar, os outros simplesmente não entendem. É verdade, nunca quis ter filhos. Aliás, sabia que dificilmente poderia ter filhos, de modo que foi algo que foi sempre colocado no fundo da minha lista de prioridades. Por outro lado, demorei muito a encontrar um homem que pudesse ser o pai dos meus filhos. Num golpe certeiro do destino dei comigo acidentalmente grávida com a pessoa certa. E a partir daí a minha vida nunca mais acalmou. Passei a ter uma vida muito mais agitada do que quando pegava em mim e viajava por aí. À terceira tentativa veio o pequeno Miguel e descobri que aquela pequena criatura que me condiciona os passos e me retirou liberdade, me dá muito mais do que me tira. Lá mais para o final da gravidez a ideia de alargar a família começou a fazer sentido para mim. A idade não me dá grande margem de manobra e, para além disso, não quero perder a minha liberdade de novo daqui a uns anos. Gostava de ter outro filho já, para que esta fase mais limitativa passe de uma vez só. Ter o primeiro não foi tarefa fácil, de modo que o mais certo é não haver segundo, mas não será por não tentar.

1 ano depois

Faz amanhã um ano que soube que o Miguel existia. Na verdade já tinha feito um teste no dia anterior, mas a risca era tão ténue que me escapou. Só no dia 25 quando vi uma espécie de sombra no teste voltei a olhar para o de dia 24 e vi o que no dia anterior me tinha passado ao lado. Ainda morava na casa junto ao lago. Subi as escadas e disse-lhe que parecia uma loucura, que a risca era muito muito clara, mas que estava lá. Tinha abortado no mês anterior. Ele ainda adormecido achou que era maluquice minha, que isto de ter passado por dois abortos em poucos meses me deveria estar a afectar. Não me disse nada disto, mas eu vi-o bem nos seus olhos. Tenho jeito para ler pessoas, nada a fazer. Virou-se para o lado e continuou a dormir. Não me lembro se continuei na cama se me levantei (se soubesse o que sei hoje teria ficado na cama a aproveitar cada segundo de sorna a que me podia permitir na altura). Sei que rebentei de felicidade por haver uma segunda risca cor-de-rosa e senti-me descansada por estar realmente grávida. Sentia-me grávida há já alguns dias. É estranho, não comentei com ninguém, não fossem achar que estava doida varrida, mas sentia-me grávida. E foi essa sensação de ter outra vida dentro de mim que me fez fazer o teste de gravidez uns dias antes do que era suposto. Um ano depois tenho um bebé de 4 meses em casa, noutra casa. Falta-me tempo e sobra-me felicidade e cansaço. 

Onde estarei daqui a um ano?

17.4.15

arranjou um amigo


corpo e mente

Quase quatro meses depois o balanço é o seguinte:
- menos 4 quilos e meio do que quando engravidei;
- nem uma estria;
- barriga no seu estado pré-gravidez.

Não é uma forma de me vangloriar de nada, são apenas constatações, porque engravidar não significa necessariamente dizer adeus ao corpo que se tinha antes. Tinham-me feito relatos tão medonhos quando engravidei que eu quase fiz o luto ao meu corpo. Suponho que a ausência de estrias é obra da genética e que os quilos a menos foram o lado positivo dos diabetes. 

Fisicamente estou bem e em equilíbrio. Mentalmente ainda me estou a adaptar à revolução que se deu na minha vida a partir de dia 22 de Dezembro. A vida muda mesmo radicalmente de um momento para o outro, e quatro meses não são suficientes para assimilar tudo e para me adaptar a todas as novidades. Ter o pequeno Miguel comigo é o maior e o melhor acontecimento da minha vida, mas as mudanças são tantas que é como se um tremor de terra tivesse abalado a minha vida. O retorno a um novo equilíbrio exige o seu tempo. Ainda estou em fase de adaptação ao novo ritmo da minha vida. Sim, continuo a querer engravidar o mais rápido possível, o que só significa que o sismo que se abateu sobre mim não causou grandes estragos, apenas alterou rotinas e prioridades.

16.4.15

sai à mãe, não é dado a meios termos

O puto não é de meios termos, ou bem que não dorme nada durante o dia (diz quem sabe que nesta fase deve dormir 5 horas durante o dia) ou bem que dorme horas e horas seguidas (e lá vou eu a toda a hora ver se respira).

Como bem se vê por ter tempo para vir ao blog, hoje é dia de dormir como se não houvesse amanhã!

9.4.15

Finalmente silêncio

Fomos a Portugal e regressámos ontem. Depois de tanto passeio e colo, a mini-criatura está insuportável: chora porque tem fome, chora porque comeu, chora porque tem sono, chora assim que acorda, chora deitado, chora sentado, chora com o brinquedo favorito. Conclusão: chora de qualquer maneira. Pego no puto, meto-o no carrinho e vamos lá passear até ao lago. Escrevo-vos sentada num banco de jardim enquanto a mini-criatura finalmente dorme! Sossego!

30.3.15

3 meses e tal

Rumámos a Portugal por uns dias. Custa-me escrever que são dias de férias, porque não os sinto assim. Tenho os dias ligeiramente menos pesados porque estamos a três, e não a dois como estou habitualmente durante quase todo o dia. Mas a verdade é que mantenho as tarefas de todos os dias, apenas com mais dois braços livres para dar colo à mini-criatura de vez em quando. Gostava de poder dizer que o pai da casa troca fraldas com cocó, veste o rebento, dá-lhe banho e não mo passa sempre para as mãos quando bolça ou chora, mas não posso. Mentir não é comigo.

A vida mudou sem volta no dia 22 de Dezembro. Deixei de ter tempo para mim. Passei a ter banhos com uns minutos contados, passei a jantar a desoras e passei a visitar sítios em função da presença ou ausência de fraldário. Há momentos em que é sufocante e de uma exaustão sem tamanho, mas, e lá vamos cair no lugar comum, vale tanto a pena. 

Já não sou de morrer de amores num abrir e piscar de olhos e assumo que me apaixonei pelo meu filho aos poucos. Foi extraordinário senti-lo pele com pele naqueles primeiros momentos, mas não senti aquele amor avassalador instantâneo sobre o qual tanto li. Esse amor chegou devagarinho e foi-se entranhando aos poucos. Pouco mais de 3 meses depois posso afirmar que  sou completamente apaixonada por aquela pequena criatura que me limita a liberdade e os movimentos. Por outro lado, e apesar de terem passado apenas 3 meses, aquele pequeno ser já me mudou sem possibilidade de voltar ao ponto de origem. Redescubro-me a cada dia que passa porque o tenho na minha vida. Mudou-me as prioridades e as vontades e torna doce cada segundo de cansaço. Para já é esta a minha definição de maternidade.

26.3.15

finalmente o dia chegou!


O bebé dormiu finalmente uma noite inteira. Ferrou no sono às 20:30 e deu sinal às 7:00. Eu fartei-me de acordar por achar estranho o silêncio da mini-criatura. Parece que ser mãe também é isto!

23.3.15

:(

Não é um pensamento feliz, mas é impossível não o ter. Olhando para o passado e para o presente sinto-me usada. Descobri-o há muito tempo e confirmo-o agora: os desgostos nas amizades doem muito mais do que os desgostos de amor. É como se a dada altura eu tivesse dado jeito como amiga e assim que virei costas tivesse deixado de ter interesse porque nada mais havia a ganhar com a manutenção do contacto. Ah, é efeito da distância... É efeito da distância uma ova! Mantenho contacto com outros amigos que estão longe, e que não têm filhos, nem pretendem vir a ter. Assim salvaguardo já a questão do ah, os interesses mudaram e agora não há pontos em comum. Ou se calhar nunca houve genuinamente interesses comuns. Bom, é a vida. Nesta fase já não me devia surpreender, mas de vez em quando o meu coração de Bambi vem à tona.

dias bons

2 convites excelentes numa semana: 1 fica bem no CV, o outro vai para além disso, é exactamente aquilo que me dá gozo e me enche a alma. 2 convites que me bateram à porta quando estou longe de tudo e todos. Às vezes a vida é simpática.

17.3.15

então e tu?

Eu? Tive outro teste negativo. Só vos digo que se algum laboratório me põe a mão em cima fico lá como cobaia.

o puto e as vacinas

Fomos às vacinas com o puto. Tinha lido testemunhos de outros pais e estava pronta para sofrer tanto ou mais que a criança quando a visse a chorar baba e ranho e a contorcer-se com dores. Pois que o rebento fez uáa uáa, pôs o seu melhor sorriso e terminou com um arrrr, som que faz quando está feliz da vida. Ficámos meia hora no centro de saúde, não fossem as vacinas provocar alguma reacção inesperada. Dormiu o tempo todo. Chegados a casa tudo normal: berra se não está ao colo, dorme feliz da vida no quentinho do colinho. Não são duas vacinas que derrubam um mini-urso.

16.3.15

testar o teste

Perguntava-me Ele, completamente perdido nesta gravidez que ora é ora não é, E se os testes não estão bons? Verifiquei a data de validade - tudo OK, e são do mesmo lote dos que usei na gravidez anterior. À partida  não seria esse o problema, mas tudo bem, testa-se o teste. Afinal havia outro no fundo da gaveta (no meio dos testes de ovulação - para quem desconhecia, sim, isto existe mesmo) e usei-o... com água. Informo que a água não está grávida.

há que ter muita paciência para aturar esta mãe


15.3.15

só a mim mais uma vez

Já não sei o que pense, se bem que o melhor é mesmo não pensar, bem sei. Ontem estive toda a manhã enjoada como um perú. Não me lembro de alguma vez ter estado enjoada assim, nem quando estive grávida. Pois que as ideias de uma mulher podem ser demoníacas e hoje de manhã dei comigo com o último teste de gravidez que ainda morava cá por casa desde a gravidez anterior (sim, compro de empreitada no ebay). E fiquei sem palavras, coisa pouco comum por estes lados: positivo, daqueles claros, sem ter que estar quase a encostar a tirita aos olhos para vislumbrar a segunda risca. É isto, teste positivo - teste negativo - teste positivo. Pés assentes no chão com clara noção de que isto de normal tem pouco e, logo, desfecho sem grandes alternativas. Mas há sempre aquela réstia de loucura e de esperança.

tentativa de regresso à normalidade - a verdade dos factos

Sim, conseguimos sair de casa a 3. O sítio ficava a uns 40 minutos de carro e desencantámos um fraldário, que acabou por não ser necessário. Na verdade estamos a descobrir que o puto não gosta de fazer cocó fora de casa (o que nos deixa verdadeiramente felizes). Já é a segunda vez que saímos de casa por umas horas e assim que pomos os pés em casa o rebento faz cocó até meio das costas. Cá p'ra mim vai ser daqueles seres estranhos incapazes de fazer o seu número dois em casas de banho partilhadas!

Bom, mas voltando à saída de casa. Saímos, mas para aí umas 3 horas depois do que era suposto. O rebento decidiu alimentar-se vagarosamente, demorou que tempos a arrotar e quando eu estava serenamente a tentar acalmá-lo (porque entretanto desatou aos berros) decidiu bolçar. Devia ter feito um vídeo, seria mais fácil de perceber. Decidiu bolçar como nunca antes havia feito, uma espécie de cena de filme de terror: várias golfadas generosas de leite com um alcance considerável. Resultado: fomos parar os dois de novo ao banho.

Depois desta cena assustadora saímos os 3 de casa para mostrarmos ao puto que a população do globo não somos só nós os dois. Pois que a mini-criatura não viu nada: fechou os olhos desde que entrou no carro e só os tornou a abrir já depois de estarmos em casa.

E foi isto. Confirma-se que quando sai à rua é o mais sereno dos seres, e quando está em casa tem , de vez em quando, ataques severos de mau humor. 

14.3.15

retomar a normalidade

Vamos hoje tentar retomar os nossos hábitos de fim-de-semana em Itália: pegar no carro e ir conhecer algum sítio relativamente perto, mas desta vez com um bebé com quase 3 meses acoplado. A ver vamos como corre. No fim-de-semana passado fomos pela primeira vez com o rebento a Milão e ele portou-se muito bem, nada de birras nem choros no carro, no metro ou na cidade. Estou a torcer para que repita a façanha. Espero que aos poucos consigamos voltar aos nossos velhos hábitos com ligeiras adaptações, como pesquisar fraldários antes de sair de casa (coisa que em Itália é pouco comum e que nos condiciona os passos).

Deus existe!

Esta noite só acordou uma vez às 3 e pouco da manhã! É certo que fez uma birra monumental e esteve acordado mais de uma hora, mas são agora quase 9 horas e eu estou a tomar serenamente um pequeno-almoço solitário no meio de silêncio. 

13.3.15

decisões alucinadas e morrer na praia

O bebé ainda não tem 3 meses e eu dei comigo a olhar para um teste de gravidez positivo. Acalmem-se os ânimos que eu avanço já com o desfecho: não estou grávida.

Ainda eu estava grávida e ainda longe de chegar ao fim da aventura e já cá em casa se falava de um segundo filho. Eu e Ele somos filhos únicos. Ele não gostou da experiência e defendia que o bebé que aí vinha não devia ser filho único. Eu admito que só já na idade adulta senti falta de um irmão. Ele muito a favor de um segundo filho e eu ainda sem saber muito bem se o primeiro chegaria mesmo. A verdade é que quando a meta da gravidez se começou a avistar a ideia de ter um segundo filho começou a fazer sentido para mim. Provavelmente isto aconteceu quando eu comecei a gostar de estar grávida e a desfrutar verdadeiramente do estado sem medos. Ainda antes do pequenote nascer a decisão estava tomada, apenas com uma condicionante: a minha experiência do parto podia fazer-me fugir a sete pés de uma segunda tentativa. Não foi o caso. De modo que, apesar de sabermos que poderia vir a ser uma empreitada difícil dado o meu histórico, decidimos que iríamos tentar... logo após a mini-criatura nascer. Ah, é uma loucura!, pensam vocês. Pois é, confirmo eu, mas eu tenho a vida preenchida de loucuras, por que não mais uma?

Achava eu que a obstetra me iria lançar um olhar lancinante quando lhe falasse sobre isto. Pelo contrário, mandou-me aproveitar o pico de fertilidade pós-gravidez. Coisa fácil de dizer, mas mais difícil de fazer quando se tem uma pequena criatura em casa que nos condiciona as energias, os passos e outros tipos de movimentos. Segundo a obstetra seria esperar o primeiro período após o parto e passar à acção. 

A verdade é que antes disso, o período ainda não deu sinal por estes lados, dei comigo a aperceber-me de sintomas meus conhecidos (já o disse e repito, isto de ter engravidado 3 vezes num ano deu-me um conhecimento profundo do meu corpo). Passou um dia, passaram dois e eu não resisti: teste de gravidez por descargo de consciência. Negativo, nada que me causasse espanto ou tristeza. Uns bons minutos depois pego no teste para o pôr fora e eis que lá vejo uma pequena sombra que olhando bem era uma risca cor-de-rosa do mais ténue que possam imaginar (mas ainda assim mais visível que a que encontrei no primeiro teste que fiz da gravidez do Miguel). Fiquei sem pio e sem movimentos. Poderia ser? Tive um filho há menos de 3 meses e ainda não tive período e tenho um testes com duas riscas cor-de-rosa à frente? Inspira, expira e decide fazer novo teste no dia seguinte. Teste esse que também me pareceu negativo, até que depois lá vejo uma risca ainda mais clara que a do dia anterior. Aqui não consegui guardar isto só para mim e falei com ele. Os dois espantados, mas serenos, e a antever o desfecho breve da história. Faço novo teste e morava lá uma risca solitária. Teste digital para provar que os nossos olhos estão a funcionar bem e "não grávida".

Na altura em que os abortos me bateram à porta li muito e li também sobre gravidez química. Neste tipo de gravidez há fecundação, mas a gravidez termina pouco depois. Muitos estudos referem que numa situação destas o ovo é libertado aproximadamente na altura em que se daria o período, pelo que grande parte das mulheres não se apercebe sequer que esteve grávida. Não sei ainda ao certo se foi isto que me aconteceu (caso tenha sido o período deve dar sinal de si nos próximos dias), mas a verdade é que tive um teste positivo que em dois dias se transformou em negativo, e não consigo encontrar outra explicação.

Diz-me Ele que nunca teve uma vida tão agitada como depois de se juntar a mim. É um facto que não faltam emoções fortes nos nossos dias, umas melhores que as outras. Há um ano esta situação deixar-nos-ia de rastos e a maldizer a sorte. Agora é claramente diferente. Temos junto a nós uma mini-criatura que nos preenche os sonhos e sabemos que, apesar de querermos ter um segundo filho, se este objectivo não for atingido a nossa felicidade não será ceifada, apenas não será aumentada. De qualquer forma fica um sentimento muito ténue de morte na praia.

8.3.15

2 meses e 13 dias

Duplicou o peso do nascimento. Temos uma pequena lontra com mais de seis quilos em casa.

Tenho escrito pouco. Ele cresce a olhos vistos e agora começa a haver novidades todos os dias - diz arrr quando está feliz e descobriu que pode tocar objectos com os pés, e eu tomo decisões aparentemente loucas, mas que a intuição me incita a tomar. Tenho os dias cheios de tudo o que não é fácil colocar em palavras. Um dia destes digiro tudo e volto a escrever diariamente.

4.3.15

como é que isto aconteceu?

É ainda estranho pensar em mim como uma mulher que tem um marido e um filho. É como se de um momento para o outro me tivesse tornado verdadeiramente adulta sem dar conta e sem saber muito bem como. 

1.3.15

2 meses


Passaram 2 meses e poucos dias desde que passámos a ser três cá em casa. Estás mais crescido e já deixaste de parecer um recém-nascido. Continuas a gostar de tomar banho na floreira, continuas a ter uma cabeleira que provoca comentários e tens agora umas bochechas rechonchudas que só apetece beijar. As tuas pernas deixaram de parecer pernitas esqueléticas de rã e as mãos são papudas. Estás mais independente. Dormes mais tempo seguido durante o dia, mas durante a noite é raro dormires mais de 2 horas seguidas (pobre de mim!). Começaste a sorrir. Continuas a não gostar da chupeta e és obviamente o bebé mais bonito que já conheci!

Eu estou bem e recomendo-me, mas não me importava de dormir um bocadito mais, ou pelo menos dormir mais algum tempo seguido. Isto de acordar de hora a hora (nos últimos dias tem sido assim) não é coisa que se deseje a ninguém. Mas isto é um pequeno pormenor, o que há a assinalar destes dois meses é o bom que é ter-te connosco, e a forma como sinto que me estás a mudar apenas por existires.