Talvez seja egoísmo, talvez seja perfeitamente normal. A verdade é que agora que me começo a sentir eu de novo, agora que me voltei a envolver em projectos que me agradam e que me fazem pensar que trabalhar pode ser mesmo um grande prazer, dou comigo a pensar se quero mesmo ter outro filho. Talvez esteja a ressacar destes 9 meses em casa num país que não é o meu, longe de tudo e todos. Talvez inconscientemente eu quisesse engravidar logo de seguida porque sabia que quando voltasse a sentir o sabor das outras facetas da vida não teria vontade de tornar a hibernar. O mais certo é isto passar-me em três tempos, mas hoje, no dia em que o Miguel faz 9 meses, sinto esta interrogação no ar.
22.9.15
14.9.15
consegui, consegui!
Supostamente estou em casa apenas a tomar conta do bebé. Mas, na verdade, divido-me em várias. Uma trata do Miguel, a outra escreve artigos e capítulos, há ainda uma outra que se candidata a tudo o que lhe parece relevante, e ainda há a dona de casa. Às vezes pergunto-me em silêncio se esta correria desenfreada em que vivo vale a pena. Depois há dias, como hoje, em que acordo e tenho uma resposta positiva a um tipo de trabalho que perseguia há algum tempo e só não dou pulos de contente porque tenho que ir deitar o pequenote e arranjar um esquema qualquer que me permita fazer efetivamente este trabalho e continuar a tomar conta da pequena criatura. Esta correria vale a pena, vale tanto a pena. Consegui, pá! Consegui! Sempre achei que o difícil era conseguir o primeiro contrato deste tipo e que a seguir seria bem mais fácil conseguir mais. Agora vou poder testar! Oh yeah!
10.9.15
3-1, resultado que espero não ser o final
O primeiro aborto surgiu do nada, de forma inesperada, tão inesperada quanto a primeira gravidez. Depois de saber que estava grávida nunca pensei que poderia abortar. Claro que conhecia casos de mulheres que tinham passado por isso, mas para mim, nessa altura, esses casos eram excepções que não me mereciam atenção nem preocupação. Depois veio o balde de água fria. Desfizeram-se os sonhos e os planos. Eu, que nem era suposto engravidar, imaginei que o meu acaso improvável e feliz tinha terminado desta forma e o mais certo era nem se vir a repetir. Ainda assim não pensei duas vezes para voltar a tentar. Recordo-me que na mesma consulta em que a ecografia me mostrou um coração que já não batia, perguntei quando poderia voltar a tentar engravidar. Acho que eu própria me surpreendi com a pergunta e acho que foi ali que percebi que queria engravidar. Ironias do destino, descobri que gostava de ser mãe no dia em que descobri que a gravidez tinha deixado de evoluir. Assumi que este tinha sido um acaso infeliz e segui em frente.
O segundo aborto congelou-nos as esperanças e colocou sobre nós a nuvem negra do medo. Receio de que algo nos impedisse de ter filhos. O segundo aborto dói tanto como o primeiro. Não há o factor surpresa que há da primeira vez, mas já não há como achar que tivemos azar. Ter azar duas vezes seguidas é demasiado azar junto.
O Miguel fez-nos olhar para traz com outros olhos. Podíamos efetivamente ter tido muito pouca sorte das duas primeiras vezes. Afinal as dezenas de análises e testes que fizemos não encontraram nenhum motivo para as duas perdas sucessivas. Ou talvez eu tivesse algum problema menor, não detectado, que a cardioaspirina, tomada religiosamente desde o início até quase ao final da gravidez, tivesse resolvido.
O terceiro aborto não surgiu do nada, sempre houve uma ténue sombra que se reflectia em "ses" quando pensávamos no futuro. "Se tudo correr bem." Mas, na verdade, não queríamos desperdiçar muito tempo com essa possibilidade. Já tínhamos o Miguel, por que haveria de correr mal desta vez? Mas correu. A cardioaspirina não foi a solução. O terceiro aborto mostrou-nos que se calhar não tivemos azar das duas primeiras vezes, mas tivemos antes muita sorte na terceira. Temos connosco um bebé vivaço e sorridente e isso faz-nos ver a realidade com outros olhos, mas o terceiro aborto doeu tanto como os anteriores, ainda que de forma diferente. Como já disse antes, depois de se ter um filho sabemos o que estamos a perder. Esta foi a primeira vez em que parei para pensar se queria continuar a tentar engravidar. Agora estou claramente a perder o jogo e imagino que o mais certo é a minha desvantagem aumentar. Ainda assim o meu gosto por correr riscos não se perdeu. Façamos figas e lancemos os dados.
a mudança dos ritmos
Tarefa importantíssima para terminar e um bebé para cuidar 24 horas por dia. Isto de não ter apoio familiar não é complicado quando o bebé tem 2 dias, é complicado quando o bebé já tem vários meses e nós queremos voltar a ter alguma vida. Convenço-me que só se consegue com muito jogo de cintura e muita habilidade para sermos o artista de circo que mantém vários pratos a rodar em cima de pauzitos sem deixar cair nenhum. A dada altura achei que não ia conseguir terminar este trabalho, que era impossível conseguir pensar, reflectir, tomar decisões e escrever enquanto troco fraldas, faço sopas, faço o aviãozinho porque não quer comer a sopa, passo horas a tentar adormecê-lo porque dormir é coisa que não lhe assiste alegremente. A poucos dias do prazo-limite posso dizer que superei a prova. É possível. Estava habituada a fugir do mundo durante dias, semanas ou meses e centrar-me no trabalho do momento. Agora trabalho na meia hora em que dorme, ou nos 10 minutos em que se distrai sozinho e à noite, depois de ele adormecer, quando já tenho os olhos semi-fechados. É outro ritmo, é todo um outro universo, mas é possível. Agora vou ali dar os últimos retoques no trabalho e ver se despacho isto de vez, para depois poder ter uns dias de paz e sossego para me dedicar à pequena criatura.
25.8.15
tudo é relativo
Não me recordo do nome do blog, mas lembro-me de há um ano ou dois me ter cruzado com ele. Eram relatos de uma mulher que tentou engravidar durante 20 anos. A dada altura conseguiu, mas acabou por abortar. Não desistiu, continuou a fazer tratamentos e 20 anos depois conseguiu finalmente ter uma filha nos braços. Perante casos destes o meu terceiro aborto, depois de ter um filho saudável, é nada. Eu consigo engravidar, mas tenho dificuldade em que o embrião se continue a desenvolver para além das 7 semanas. Mas, de uma forma racional, tenho todos os meses uma nova janela de oportunidade. Não preciso de tratamentos e isso é uma vantagem sem tamanho. Mas tudo é relativo. Engravidar para mim não é necessariamente sinónimo de vir a ter um filho, enquanto que para muitas amigas e conhecidas ver as duas riscas no teste é garantia de que passados 9 meses a família cresce. Tenho amigas que planificam tudo de modo a que o rebento nasça no mês X ou Y. Eu dar-me-ia por contente por engravidar numa altura qualquer e saber que a gravidez não teria um fim antecipado. Tudo é relativo e há situações que dificilmente conseguiremos entender até termos de as viver.
23.8.15
a 3ª vez
Já ter um filho não atenua a dor, mas diminui a ansiedade. Depois do primeiro aborto achei que tinha tido azar. Depois do segundo achei que seria demasiado azar seguido e a ideia de que poderia haver algo de errado connosco ganhou força. Seguiu-se uma gravidez com alguns sustos, mas um final feliz. Acreditei que tinha tido muito azar nas duas primeiras vezes, mas que poderia não ter passado disso: azar. Ao terceiro aborto deixei de acreditar no factor azar (talvez tenha começado a pensar que tive muita sorte por hoje termos o Miguel connosco). A verdade é que estar próxima dos 40 não abona a favor da qualidade dos meus óvulos e talvez o meu historial não seja assim tão estranho. Mas é certo que há muitas mulheres da minha idade que engravidam sem problemas, assim como é verdade que há muitas mulheres mais novas que lidam com o mesmo tipo de problemas. Voltamos ao factor sorte/azar aos olhos do comum mortal, como eu.
A dada altura tive vontade de fazer de novo a análise à HCG (a ausência de sintomas andava a fazer-me espécie), depois pensei de novo e achei que estava a ser um pouco paranóica. O mais certo seria nessa altura os valores já não serem os mais normais para a fase em que estava. Na prática ter repetido essa análise e ter obtido um valor preocupante só me deixaria ansiosa sem poder fazer absolutamente nada. Conheço bem esta fase inicial da gravidez e sei que não há curas milagrosas, nem há como evitar um aborto que se adivinha. Por esse motivo não corri para o hospital quando percebi o que se poderia estar a passar. É também nesta forma de agir que me sinto menos ansiosa e muito mais ponderada. Há situações em que não adianta ser control freak, e esta é claramente uma delas.
22.8.15
3-1
Este é um jogo que já não posso empatar nem ganhar. O terceiro aborto bateu-me à porta na já muito minha conhecida sétima semana. Estas 7 semanas passaram mais depressa do que as 7 semanas das gravidezes anteriores. Desta vez tive um bebé de quase 8 meses a ocupar-me todos os minutos dos dias. A dada altura dei comigo a pensar "Oh diabo, estou na semana fatídica", mas o pensamento não foi muito além disso porque a falta de tempo não o permitiu. Até que se tornou impossível ignorar que estava na tal semana.
Quatro gravidezes: um filho e três abortos.
Pela primeira vez dou comigo a pensar que não sei se quero continuar a tentar engravidar. Não sei se me apetece correr o risco de voltar a chegar à sétima semana e voltar ao ponto de partida. Não ponho a ideia totalmente de parte, mas não tenho a postura que tive nas perdas anteriores, em que sabia que assim que pudesse voltaria a tentar.
Não tinha pensado sequer como seria a reacção a uma perda depois de já ter um filho, mas teoricamente imaginei que deveria ser mais fácil. Não é. Não é uma dor maior nem menor, é uma dor diferente. É a dor de se saber exactamente o que se perde, de já ter imaginado isto e aquilo não a três, mas a quatro, e já com conhecimento de causa e experiência. É a dor de planos desfeitos, como foi de todas as vezes.
16.8.15
Maio 2013 | Hoje
Estávamos em Maio de 2013 e a última coisa em que pensava era em ser mãe. Pensava em viagens, pensava no emprego novo, pensava no que aconteceria connosco quando mudasse de país, pensava em como seria viver uma vida nova num país novo. Não poderia imaginar que a tal vida nova que me esperava incluiria mini-pessoas e desejos que não sabia existirem em mim. Em Maio de 2013 tinha chegado há poucos meses de uma viagem alucinante do outro lado do mundo, tinha passado o ano no calor do Cambodja e poucas horas depois passeava os braços destapados nos muitos graus negativos da China. Em Maio de 2013 já tinha decidido que o meu amor por Timor ficaria em standby e tinha a certeza que tinha tomado a decisão certa. Tinha razão, mas por motivos que não poderia imaginar.
Em Maio de 2013 era só eu, era uma pessoa no singular. Hoje somos três, com perspectivas de virmos a ser quatro. Hoje não há viagens loucas decididas em cima do joelho. Hoje há decisões muito pensadas a dois, mas pensando nos três (ou quatro). Hoje o meu sono é interrompido inúmeras vezes por noite e a cada manhã sou brindada com o sorriso mais bonito e sincero. Hoje sou muito diferente de quem era há dois anos e tal e sou feliz de uma forma muito diferente.
14.8.15
quase 7 semanas
Sintomas é coisa que não abunda por estes lados, a não ser o cansaço no degrau acima do habitual. De resto nada de nada. Não sei se está tudo bem ou tudo mal, porque consulta só daqui a pouco mais de uma semana. Os obstetras, não obstante a minha gravidez, decidiram ir de férias, que grande lata! Já me passou pela cabeça inventar uma desculpa qualquer e ir ao hospital só para ver se há embrião com batimento cardíaco. Poucos segundos depois a pessoa equilibrada que sou normalmente baixou sobre mim e mandou-me ter juízo e bom senso. Durante as gravidezes anteriores tornei-me cliente habitual das urgências do hospital cá do sítio e sempre fui atendida de forma célere. Isto também porque não havia lá grávidas com desculpas esfarrapadas para fazerem uma ecografia. De modo que se não há evidências para preocupação não vale a pena inventá-las. Esperarei mais uma semana para saber que novidades esconde o meu útero.
Deve ser dos meus olhos (aliás, espero que seja dos meus olhos!), mas acho-me mais pançuda!
7.8.15
os testes de gravidez
Dois anos e muitos poucos meses e vou na quarta gravidez. A gravidez actual tem um pouco da primeira: não surgiu tão inesperadamente como a primeira, mas foi uma grande surpresa. Só fiz um teste de gravidez, tal como na primeira, e já numa altura em que não havia grandes dúvidas.
Na segunda e terceira vezes fartei-me de fazer testes de gravidez. Acho que posso dizer que era aquilo que vejo frequentemente designado nos fóruns internacionais como POAS addicted (pee on a stick!). Da segunda vez aconteceu algo que me deixou alerta (e depois vim, infelizmente, a confirmar que com razão): depois de 4 ou 5 testes de gravidez, feitos diariamente, em que a linha ia ficando mais escura, a linha deixou de escurecer. Li muito sobre isto e tentei acreditar que os testes só nos dão uma indicação qualitativa (ou seja, ou há HCG no organismo e estamos grávidas - linha rosa, ou não há HCG, não estamos grávidas e não aparece linha nenhuma), como li em muitos sítios. Mas continuava a achar estranho que à medida que a concentração de HCG aumentava, a linha não ia ficando mais escura. Não precisei de muitos dias para perceber que a linha não ficava mais escura porque os meus valores de HCG tinham deixado de aumentar.
Ainda guardo o teste de gravidez que fiz na primeira gravidez (foi feito tão tarde que a linha de controlo é mais clara que a outra!) e todos os testes que fiz da gravidez do Miguel: uma sucessão de testes feitos todos os dias em que se vê claramente a linha rosa a escurecer. Não sei porque os guardo, mas sou incapaz de me separar deles. Ou melhor, talvez até saiba porque os guardo: o primeiro foi a descoberta não só da minha primeira gravidez, mas foi mais que isso, foi a descoberta de que eu conseguia engravidar, apesar de tudo indicar o contrário. Os testes que fiz na gravidez do Miguel lembram-me aquela fase de receio e incerteza, mas com um final feliz, e as histórias com final feliz merecem que todos os seus momentos e detalhes sejam guardados.
Desta vez fiz apenas um teste. Primeiro nem a linha de controlo aparecia, achei que o teste não estava em bom estado. Pus o teste no bolso da carteira e umas horas depois encontrei duas linhas feitas de esperança.
os 7 meses e algumas semanas do Miguel
Descobriu já em Portugal que gosta de comer. As primeiras vezes que comeu sopa e fruta correram bem (talvez pelo efeito novidade), mas depois tudo se complicou. Fazia cara feia, fechava a boca, cuspia e era muito difícil que comesse alguma sopa. Com a fruta foi tudo muito mais simples, mas a sopa foi um pequeno suplício. Durante as férias, num novo ambiente e rodeado de pessoas novas, ganhou o gosto a comer. Começou a comer muito mais (muitas vezes de forma sôfrega), seja sopa, fruta ou papa.
Continua a não gostar de estar de barriga para baixo, mas já vai ficando nesta posição alguns bocados sem reclamar. Para já gosta mesmo é de estar sentado. Senta-se na perfeição, abana-se, salta sentado e não cai.
Noto que desde que viemos para Portugal está mais atento a tudo e todos, nada lhe escapa. Vira constantemente a cabeça para ver quem chega e quem está a falar. Começou a dizer "da da da" e tem 3 dentes já bem visíveis.
6.8.15
5 semanas e poucos dias
Esta deve ser a maior loucura da minha vida, e consigo contar várias de dimensão razoável! Continuo pouco consciente da nova realidade. Preciso de mais tempo para enraizar a novidade que, a correr bem, virará as nossas vidas de novo do avesso.
Porque na segunda gravidez tudo começou a correr mal logo de início, e tenho quase a certeza que se tivesse feito análises à HCG na altura teria percebido de imediato que o desfecho nunca poderia ser feliz, desta vez fui mesmo fazer esta análise por iniciativa própria. Valores de HCG medidos num dia e medidos de novo após 48 horas. Aparentemente tudo OK, os valores duplicaram como é normal nesta fase. As 7 semanas continuam a provocar-me algum receio, mas a verdade é que agora não me sobra tempo para nada, o que acredito que fará com que o tempo passe com muito mais ligeireza. Agora estou de férias, mas daqui a poucos dias voltarei a ser mãe a tempo inteiro do pequeno panda. Para além disso terei vários trabalhos exigentes para fazer em casa, quando ele me permitir, de modo que não há tempo para devaneios.
Se tudo correr bem tenho mil e uma coisas para re-equacionar, tenho que me re-formatar para uma realidade a quatro, tenho que ultrapassar receios e esclarecer dúvidas, mas ainda tenho muitos meses pela frente.
Esta é a maior loucura da minha vida, mas eu quero muito que se concretize.
Se tudo correr bem tenho mil e uma coisas para re-equacionar, tenho que me re-formatar para uma realidade a quatro, tenho que ultrapassar receios e esclarecer dúvidas, mas ainda tenho muitos meses pela frente.
Esta é a maior loucura da minha vida, mas eu quero muito que se concretize.
2.8.15
as duas riscas... de novo!
Disse há uns tempos que gostava de engravidar de novo rapidamente. A verdade é que por diversos motivos esse desejo ficou esquecido. Convenci-me que o pequeno Miguel seria filho único como eu e o pai. Habituei-me à nossa realidade a três. Não foi imediato nem fácil, mas agora nós somos três e é nesse número que penso em todas as equações do nosso dia-a-dia. Andava tão embrenhada em trabalhos pontuais e nos preparativos para as férias que não me apercebi que algo andava sumido este mês. Até que um dia, em pleno sossego alentejano, nos poucos segundos que tive para mim, encostada no limite da piscina, se fez luz. Somei os dias, recordei ciclos anteriores. Este estava a ser demasiado longo, o que poderia não significar nada, já que depois da gravidez o meu corpo se transformou numa espécie de relógio ligeiramente avariado. Mas comecei a juntar a constipação sem motivo e as dores de cabeça vindas não se sabe de onde e não tive dúvidas. No dia seguinte fiz o teste e, sem surpresa, duas riscas bem visíveis a olharem para mim.
Estou grávida!
Não tomo o teste positivo como um sinal de uma gravidez de 40 semanas, porque o meu historial não mo permite. Tenho os pés assentes no chão, e estou preparada para todos os desfechos. Mas o mais relevante é que agora estou grávida.
Estou grávida!
Não tomo o teste positivo como um sinal de uma gravidez de 40 semanas, porque o meu historial não mo permite. Tenho os pés assentes no chão, e estou preparada para todos os desfechos. Mas o mais relevante é que agora estou grávida.
trabalhei fora de casa (2 dias, já é um ponto de partida!)
Em Portugal trabalhei dois dias inteiros fora de casa. Significa isto que trabalhei longe da pequena criatura que me preenche os dias. Ele ficou com o pai, e provavelmente foi isso que me sossegou e me fez estar aqueles dois dias efectivamente a trabalhar. Soube-me bem ser trabalhadora, para além de mãe. 7 meses depois a vida continua, em todas as suas dimensões.
19.7.15
voltei ao meu estado normal
Não sei como cheguei a este ponto, mas a verdade é que apesar de estar em casa, supostamente sem trabalhar, estou cheia de trabalho. Tenho 4 dias para terminar uma série de coisas e mesmo depois disso, até Setembro, tenho muito com que me entreter. Se as coisas corressem pelo melhor (ou pior, se pensar no tempo livre que não tenho) até Outubro seria um fartote de tarefas novas, desafiantes e daquelas que ficam bem no CV. Continuo a roubar tempo às noites e, às vezes, a acordar como se tivesse sido atropelada por um camião, mas é mais forte que eu. Confirmo que o meu ideal de vida não seria ser mãe a 100%, mas seria poder estar 100% do meu tempo com o meu filho e poder trabalhar a partir de casa. A maternidade anestesiou-me durante uns meses, mas agora voltei ao meu estado normal. Desconfio que estou a trabalhar mais do que se estivesse no meu trabalho habitual, com o pequeno pormenor de agora ter um pequeno ser que me merece grande parte do tempo e da atenção. É possível, inspira, expira, é possível!
15.7.15
cão ou gato?
Eu sei que há por aí umas redes para pôr pedaços de comida dentro para os bebés poderem comer sem haver o perigo de se engasgarem. Entendo as vantagens da coisa, mas aquilo parece-me um bocado contra natura. Talvez seja demasiado descontraída, mas eu sou por lhe pôr pedaços de comida na mão e deixá-los explorar os alimentos em todas as suas vertentes. Assim, mal o puto pode comer glutén comecei a pôr-lhe pedaços de pão na mão. Até agora tudo tem corrido bem. Tudo, salvo seja… Estou a ponderar arranjar um cão ou um gato para me resolver o problema documentado na foto abaixo.
Itália, as transportadoras e eu
De novo a longa saga das transportadoras italianas…
Comprei uma Bimby, aliás, paguei uma Bimby. Já vos explico o resto.
Tinham-me feito a demonstração em Portugal já há uns bons anos. Na altura não fiquei nada convencida, mais pela falta de jeito da vendedora, do que pelo desempenho do robot. Na verdade na altura vivia sozinha e não precisava de uma Bimby para nada. Agora também não é nada que me seja essencial, mas é um robot, tem botões, e é sabido que os homens gostam de maquinetas com botões. O de cá de casa não varre com vassoura, mas se for para aspirar não lhe custa nada. Há que juntar tecnologia às tarefas domésticas e é ver o sexo masculino a juntar-se às lides da casa. Pois que eu estou a precisar de ajuda na cozinha e o homem cá de casa foge a 7 pés do fogão. Compre-se uma Bimby para que ele se mexa. Homem convencido, robot pago e diz a vendedora que a entrega é feita por transportadora umas 6 a 8 semanas depois do pagamento recebido. Isto é maquineta para ser muito requisitada e não as há assim disponíveis do pé para a mão. Seja. Imaginei-me a fazer papas para o puto no dito aparelho e pesquisei receitas para nós. Passaram-se 3 meses e nada. A transportadora diz sempre que até ao final da semana entrega, mas até agora não chegou nada cá a casa. Pronto, já não quero Bimby nenhuma, resigno-me às actividades solitárias na cozinha e agradeço que me devolvam o dinheiro.
Já disse que Itália me cansa?
isto passa, não passa?
Há uns tempos o mini-panda dormiu várias noites seguidas sem interrupções. Nós sorrimos, dormimos tudo o que conseguimos e pensámos que a saga do acordar a meio da noite estava a terminar, ou tinha já terminado. Um amigo com experiência nestas lides riu-se e disse-nos para esperarmos pelos 6 meses. Nós achámos que ele se estava a meter connosco e ignorámos. Pois que agora o que nos ocorre é perguntar-lhe quando é que esta fase miserável que estamos a viver acaba. Aos 3 meses o puto dormia a noite toda ou acordava uma ou outra vez e agora, ultrapassados os 6 meses, nunca nos levantamos menos de 5 vezes por noite. Batemos o record há poucos dias quando nos levantámos 11 vezes na mesma noite.
Está um calor a rasar os 40ºC, o que só por si já me deixa em estado semi-vegetativo. Agora juntemos a isso alçar o rabinho da caminha uma meia dúzia de vezes por noite. Sim, esta que vos escreve não sou bem eu, mas uma espécie de 50% de mim, que a outra metade partiu para parte incerta e desconfio que tão cedo não regressa.
12.7.15
eu agora
Tenho dificuldade em distinguir as consequências da maternidade e de ser emigrante. A primeira gravidez aconteceu exactamente na altura em que saí do país, o que dificulta perceber qual é causa de quê. Bom, isto também não é propriamente o topo das minhas preocupações. A verdade é que mudei, que me tornei mais tolerante e menos explosiva, que comecei a relativizar o acessório, que deixei de perder tempo com o que não é relevante, que comecei a valorizar algumas coisas que antes ignorava. Mudei de país, mudei de contexto de trabalho, fui vítima de assédio sexual e moral, casei, fui mãe, muito estranho seria se me mantivesse igual.
11.7.15
não foi fácil, mas está feito
Tarefa do post ali de baixo terminada. Corpo dorido a queixar-se das poucas horas de sono dos últimos dias. Se consegui fazer isto nos minutos em que o mini-panda dormiu, consigo fazer tudo. É que o rebento nos últimos dias decidiu reduzir as sestas ao mínimo dos mínimos e eu vi a vida a andar para trás e o prazo limite a andar para a frente em passo de corrida. Está feito.
Agora vamos lá ver se aproveito o ritmo dos últimos dias e avanço com o livro do blog que está para ali a ganhar pó no fundo de uma gaveta.
10.7.15
dormir, essa actividade sobrevalorizada
Digo eu um ou dois posts abaixo que trabalho só no próximo ano e agora venho para aqui queixar-me porque ando a deitar-me às tantas para terminar uma tarefa que me comprometi a fazer. Parece contradição, mas não é (é a minha vida no seu estado habitual de normalidade, ou de falta dela!).
Há umas semanas (meses? a minha noção do tempo anda um pouco tremida) convidaram-me para fazer um trabalho engraçado. Engraçado não é bem a palavra certa, mas digamos que é um trabalho que fica bem ter no CV. Bom, vai daí fiz de conta que eu era o eu de há um ano e disse que sim feliz da vida. Na verdade não me esqueci que agora cá em casa mora um bebé, mas achei que por esta altura a pequena criatura já seria relativamente independente e me deixaria trabalhar alegremente. Pois que o moço com 6 meses e tal parece que ainda não come sozinho nem prepara as suas refeições, não vai sozinho para a cama, quer companhia para a brincadeira e quer passeio no exterior. Quer isto dizer que o meu tempo para trabalhar é bastante reduzido (basicamente quando o pequenote dorme, e há que agradecer aos céus por finalmente o rebento fazer umas sestas decentes) e resta-me ir roubar tempo aonde me é possível para concluir o raio do trabalho que aceitei alegre(e inconsciente)mente: pois que se dorme muito pouco por estes lados nos últimos dias. Isto já não era novidade porque a mini-criatura anda a acordar de hora a hora (às vezes mais), mas agora para além disto deito-me de madrugada. Houve uma altura na minha existência em que eu punha a vida em standby, vestia o pijama, punha a música a tocar e trabalhava o que tinha que trabalhar sem distracções. Pois que agora a minha vida tem fome, tem sono e precisa de mudar a fralda, o que me impede de repetir o procedimento antigo. Isto amanhã tem que estar pronto e depois durmo daqui a uns anos hei de pôr o sono em dia.
4.7.15
adeus com tempo e detalhe
A maioria das minhas decisões é pensada com tempo, embora muitas vezes pareça não ser assim. O "sim", o "não" ou o "vamos fazer isto" podem parecer aparecer de um momento para o outro, o que não significa que não estivessem a ser fermentados há dias, semanas ou meses. Nisto de ir ou voltar preciso de tempo. Preciso de me sentir segura do caminho a seguir. Preciso de me despedir dos sítios, de fazer uma espécie de luto e dizer adeus muitas vezes. Preciso passar nos sítios e absorver cores, detalhes e formas e respirar fundo, porque se foi aquela a última vez que lá passei, já levo comigo tudo o que queria levar. Apercebi-me há dias que me ando a despedir de Itália há já algum tempo, ainda que não tivesse noção de que o estivesse a fazer. A minha experiência italiana tem partes difíceis e muito más, mas Itália será sempre o país onde confirmei o amor e tive o meu filho. Itália merece um adeus com tempo. Não sei quando partirei, mas a despedida já anda a ser feita.
2.7.15
28.6.15
ficar em casa até a mini-criatura ter 1 ano
Pesámos vantagens e desvantagens a vários níveis e chegámos à conclusão que me parece sabermos desde o início que seria esta: vou tentar ficar em casa com o mini-panda até ele ter 1 ano. Agora é preciso que a hierarquia concorde. Lado complicado da coisa: o chefe mudou desde que eu vim para casa, o que significa que o chefe actual não me conhece de lado nenhum, o que pode não jogar muito a meu favor quando esta "estranha" lhe disser que quer ficar em casa até final do ano.
Esta decisão tem a forma de um rombo orçamental considerável, mas tem um sabor doce, tão doce, que não é possível para nós tomar outra decisão nesta fase. Agora é torcer para que o mundo penda para o nosso lado.
26.6.15
8 anos
Acho que foi a primeira vez que não me lembrei do aniversário do doutoramento. Passaram 8 anos no final do mês passado e à hora a que defendi a tese devo ter estado a tentar adormecer a pequena criatura (é o que mais faço durante o dia, dadas as longas lutas contra o sono do pequenote). 8 anos, valha-me Deus! 8! Estava com a vida pessoal virada do avesso. Escuso-vos aos pormenores, mas que bastariam para uma pequena comédia romântica (sem final feliz), bastariam! Ainda hoje me rio quando me lembro que separei dois marmanjos que decidiram chegar a vias de facto supostamente por minha causa. Devia tê-los deixado digladiar-se e assistir da bancada. Enfim, aquela já não sou eu.
coisas boas cá do sítio
O sítio onde vivo tem muita coisa má (as transportadoras e as entregas estão no cimo da minha lista de desgraças locais), mas há que admitir que também há coisas bem boas. Não vou falar dos gelados, vou passar logo para o lado mais sério da coisa: a saúde. Tenho razão de queixa de muita coisa, mas a verdade é que a parte dos cuidados de saúde funciona. Bom, o que se paga paga-se e muito bem (análises que em Portugal faço por menos de 10 euros aqui custam quase 100), mas os profissionais de saúde são competentes e atenciosos (a parte da simpatia é coisa rara na zona de Itália onde vivo). Durante a gravidez tornei-me cliente habitual do hospital cá do sítio e fui sempre atendida de imediato, nada de filas de espera. E agora o pequeno urso tem direito a pediatra gratuito escolhido por nós, disponível todos os dias da semana (se for preciso telefono de manhã e pouco depois tenho consulta), com excepção do fim-de-semana. Para o médico de família nem precisamos marcar, é aparecer e esperar uns minutitos. E também não se paga. Vá, nem tudo é mau!
25.6.15
a parede
Antes, quando morava na minha casa (aonde agora vou de visita e vou sentindo cada vez menos minha) sentia falta de uma varanda. Na verdade essa minha casa tem uma varanda minúscula onde devo ter estado uma meia dúzia de vezes, porque é mais um devaneio de arquitecto do que uma verdadeira varanda. Agora, em Itália, tenho uma varanda a sério (tive uma em cada uma das quatro casas onde já vivi desde que mudei de país), e sinto falta de algo que tenho e não tenho (sim, sim, isto anda bonito!). Queria uma parede para poder furar à vontade e pôr fotos das viagens e do mini-urso. Sim, tenho aqui duas paredes a piscar-me o olho e tenho umas molduras que comprei antes do bebé nascer e outras que se mudaram cá para casa já depois do nascimento. Tenho tudo, até berbequim, mas estas paredes não são minhas. Daqui a uns meses arrumamos as tralhas, pegamos em nós e vamos sabe-se lá para onde. Não me apetece furar as paredes todas para daqui a pouco tempo termos o trabalhão de tapar os buracos todos, tentar deixar tudo bonitinho, não acertar com o tom de branco e deixar as paredes às bolinhas brancas amareladas. Ainda antes do pequenote nascer agarrei-me ao berbequim e foi um fartote de furos: o quarto do mini-urso está furado tipo passador e ainda tem um vinil gigante. Meti na cabeça que o miúdo havia de ter um quarto mais ou menos normal, ainda que numa casa temporária. Nessa altura parece-me que ainda não tinha bem noção que o tempo por estes lados tem os dias meses contados. Ou então nessa altura não tinha tanta vontade de sair daqui, também é possível que seja isso. De modo que tenho ali fotografias e molduras à espera de serem penduradas, mas falta-me uma parede mais permanente.
raro momento caseiro de silêncio
Um dia e um momento atípicos: oito da noite e reina silêncio em casa. Dormem os dois. Sobro eu de olhos abertos e olheiras ainda mais acentuadas que o normal: o pequenote na noite passada decidiu acordar já não sei quantas vezes (não é forma de dizer, é que me perdi mesmo nas contas na madrugada, tantas foram as vezes em que os meus pés saltaram da cama e tocaram o chão). Ser mãe tornou-me menos explosiva e mais ponderada, apesar do cansaço. Antes disparava a torto e a direito se algo não me agradava. Agora raramente me queixo e quando isso acontece não é sob a forma de uma explosão vulcânica, fico-me pelo arremesso de uma única farpa certeira. Comecei a engolir os momentos de fúria e explosão quando estava grávida. Não me apetecia que culpassem as hormonas quando os culpados eram outros. Depois do Miguel se juntar a nós essa forma mais recatada de reagir apoderou-se de mim de uma forma suave. Não me apetece gastar energia com o que não a merece, é a conclusão a que chego. Não é uma resolução intencional, nem um ponto de partida, é uma forma intuitiva de valorizar o que é relevante. Tenho os meus momentos de fúria interior, em que em silêncio grito tudo o que me mói a alma, mas até agora esses gritos nunca chegaram a ecoar realmente. Ainda estou em processo de mudança (nunca se deixa de estar, certo?) e a tentar perceber o que quero e o que não quero e como lidar com decisões futuras. Continuo a não querer estar onde estou e a sentir que neste momento não pertenço a lado nenhum (parece que dois anos depois sou mesmo emigrante), mas ainda não encontrei o meu poiso futuro e isso neste momento provoca-me alguma angústia.
marido em estado comatoso
Diz a Guilhim, e muito bem, que as mulheres são um bicho do caraças. Concordo com todas as minhas forças e hoje com um sorriso no rosto. No quarto ali ao lado tenho um marido em estado comatoso. Estive uns dias sozinha com o rebento e superei bem a tarefa. Ainda assim fiquei feliz quando ontem o vi entrar em casa, por todos os motivos e também porque isso significava ter uns minutinhos só para mim. Qual quê! Entrou-me porta a dentro um marido enjoado. Está ali metido na cama com ar de quem tem só mais meia dúzia de segundos de vida, mas já estamos nisto desde manhã. Decidi que o nem o pai morre nem a gente almoça não é para mim e almocei mesmo. De vez em quando ouço uns gemidos de sofrimento e depois segue-se o silêncio. Para confirmar se ainda respira tenho entrado no chat do FB e verifico que ou está ligado ou esteve há poucos minutos. Desconfio que não será grave!
6 meses
O pequeno grande Miguel fez 6 meses. Já passou meio ano desde aquelas duas horas em que descobri o que eram contracções, e desde aqueles 15 minutos na marquesa a fazer força até que o rebento fosse lançado no seu novo mundo. Tão pouco tempo e tanto ao mesmo tempo. Desde que descobri que estava grávida que o tempo deixou de ter um valor absoluto, tudo é muito e pouco, dependendo da perspectiva. O bebé passou do ovo para a cadeira do carrinho, ultrapassou os 9 quilos e os 70 centímetros e tem 2 dentes a espreitar. Parece-me crescido e enorme, embora aos olhos dos outros seja apenas um pequeno bebé. Já se senta e já me permite ter vida. Já voltei a escrever (coisas de trabalho) e já me meti em mais isto e aquilo (também coisas de trabalho). Os dias não chegam, estico as noites até onde posso e consigo. Descobri que era isto que idealmente faria: trabalhar a tempo parcial e poder dedicar-me ao Miguel a tempo inteiro. Parece que o mundo não é perfeito e que não poderá ser assim por muito mais tempo. Ainda não consigo conceber a minha vida com um bebé e a trabalhar o dia todo fora de casa. Sei que sobreviverei (não sobrevivem todas?), mas ainda não sei o que me vai custar.
9.6.15
2 semanas
2 semanas num sítio diferente. Voltamos a Itália e o pequeno panda come melhor, consegue estar mais tempo acordado sem ficar resmungão, faz sestas maiores (louve-se o criador!), consegue brincar sozinho por alguns instantes, já quase se senta e já dorme sozinho no quarto dele. Mais 2 ou 3 idas a Aveiro e temos aqui um adulto!
8.6.15
dos reajustes
Duas semanas em Aveiro. Estive na minha casa, senti-me em casa em alguns momentos, noutros nem por isso. Há alturas em que me sinto a viver num acampamento de ciganos, e isso faz-me ter vontade de voltar a Itália. Em Itália temos a casa preparada para viver com um bebé. Em Aveiro tenho a casa que deixei há dois anos quando, sozinha, me mudei. Rio-me sempre que vejo no cesto da roupa suja roupa que lá deixei nessa altura. Que desmazelo, pensarão vocês. Eu vejo aquela roupa e sorrio, e propositadamente lavo a roupa mais recente e aquela fica ali a marinar. Se me perguntarem por que razão o faço talvez não saiba responder, ou talvez seja uma forma (parva, eu sei) de manter viva por mais uns tempos a pessoa que era há dois anos. Gosto muito da minha nova vida e gostava muito da anterior. Sim, tenho saudades de sair de casa à hora que bem me apetecia e fazer o que bem queria. Nesta ida a Aveiro descobri que já é possível sair de casa à hora a que antes saía, de máquina fotográfica na carteira… e com um carrinho de bebé. Aos poucos junto o melhor da minha vida anterior com o melhor da minha vida actual. Aos poucos reencontro-me ou encontro-me de novo, de uma forma diferente, mas é um processo difícil e nada imediato. Actualmente há tantas decisões a tomar, tantos prós e contras a pesar. Às vezes sinto que me falta uma hora de silêncio, só comigo, para respirar fundo e encontrar o caminho acertado. Não vale a pena sonhar com o que não terei, tenho de me habituar ao novo ritmo dos dias e continuo a achar que isso é o que mais me está a custar. Aos poucos chego lá, espero eu!
18.5.15
2 anos em Itália
Já vivi em 4 casas diferentes e perdi a conta ao número de viagens que fiz, fora e dentro do país. Vim para cá grávida sem saber e sem uma relação sólida. Entretanto a relação ganhou raízes e vários andares. Engravidei mais duas vezes. Casei-me. Tive um filho. Soube na primeira pessoa o que de animalesco tem um parto. Vim sozinha e agora somos três. Passaram só dois anos e eu sinto-me a viver outra vida, e sinto que o Eu de hoje é tão diferente do de há dois anos.
Sinto que o que Itália tinha para me dar já me foi dado (e, ao contrário do que supunha quando me mudei, nada tem a ver com trabalho), agora é tempo de seguir em frente.
há uns meses nem eu me imaginava a dizer isto
É a coisa mais improvável de ouvir vinda de mim, mas se pudesse, e apesar do cansaço, dizia adeus ao trabalho por uns anitos e dedicava-me a 100% à pequena criatura que agora dorme aqui ao lado. Em que ser me estou eu a tornar?
13.5.15
regresso a 2001
O portátil ficou sem bateria e quando voltou à vida acordou a 1 de Janeiro de 2001. Há várias vida atrás. Dei comigo a pensar quem era no início de 2001. Tinha acabado o curso há dois anos e tinha-me iniciado a dar aulas no ensino superior há poucos meses. Morava em Leiria e a minha paixão por São Pedro de Moel nasceu naquela altura. Tinha sido operada há pouco tempo e tinham-me dito que dificilmente poderia ter filhos. Era apaixonada por um amigo que continua a ser amigo e que nunca passou disso. Estava a começar a explorar o mundo da internet. Daí a pouco tempo haveria de passar horas e horas num chat (o meu único vício até hoje, felizmente superado há muitos anos) e aí iria conhecer duas pessoas que tiveram um papel fundamental na minha vida. Uma delas mantém-se na minha vida até hoje, apesar da distância e do afastamento, a outra sumiu. Houve alturas em que tive curiosidade em saber o que seria feito dele, hoje tenho mais em que pensar e com que me entreter.
E agora vou regressar a 2015, que a minha realidade chama literalmente por mim.
12.5.15
o vento
O Miguel sentiu o vento na cara pela primeira vez no Domingo. Estava calor e uma brisa quente. Gostou da sensação: riu-se muito. Eu sorri. Nunca tinha pensado nestas pequenas grandes coisas: quando é que sentimos o vento pela primeira vez? Quando é que sentimos a chuva a molhar-nos pela primeira vez? Como reagimos? É um privilégio poder acompanhar todas estas primeiras vezes do meu pequeno ser.
já come
A pediatra recomendou começarmos a alimentação complementar ao quinto mês. Acaso dos acasos, no dia em que completa 5 meses vamos para Portugal. As rotinas vão ficar viradas do avesso. Achei que juntar sopas e frutas a uma altura já de si tão diferente não seria uma ideia brilhante. Segui a minha intuição: começou a experimentar os sólidos duas semanas antes do previsto. Estou a fazer isto de uma forma aparentemente pouco organizada, mas mais uma vez sigo a minha intuição. Ou talvez siga mais do que isso: li sobre as várias possibilidades de introdução dos sólidos e vou tentar seguir o caminho que me parece mais sensato. Para já só uma refeição diária de sólidos, o almoço. Começámos com fruta e hoje experimentámos a sopa. Para já não se fez de esquisito, embora pela expressão me pareça que a fruta (mais doce!) lhe conquistou mais as papilas gustativas. A seguir vamos experimentar uma papa caseira (vou tentar fugir às papas de compra). Assim que tiver mais desenvoltura nas mãos vou tentar dar-lhe pedaços de alimentos (maçã, cenoura, ...) para que possa explorar o alimento na sua totalidade. Já consigo imaginar o olhar horrorizado das avós a achar que a criança se vai engasgar e que a mãe é uma desnaturada!
o terceiro e o quarto meses
Todas me disseram que o mais complicado eram as primeiras semanas. Eu acreditei e preparei-me mentalmente para o pior. Passou o primeiro mês e passou o segundo e eu dei comigo a achar que se o pior já tinha passado isto afinal não era o bicho de sete cabeças que me tinham pintado.
Errado, tão errado!
Talvez seja de mim que lido relativamente bem com a privação de sono, mas os primeiros dois meses não me custaram por aí além. O que eu não imaginava era que ao terceiro e ao quarto não ia conseguir fazer NADA DE NADA a não ser tomar conta do meu pequeno rebento. Passei a acordar menos vezes durante a noite, mas durante o dia a pequena criatura não estava sem chorar se não estivesse ao colo ou eu não estivesse a brincar com ele - atenção que isto não significa que ele não chorava se estivesse ao colo ou se estivesse a brincar! Ah, descansavas quando ele fazia as sestas!, diziam-me as iluminadas profundas da maternidade. Pois que não dormia, não! A pequena criatura não é dada ao sono e numa sesta daquelas mesmo boas dormia uns 15 minutos. Recapitulemos: não estou em Portugal, não tenho família nem amigos chegados por perto. Quer isto dizer que não há a quem deixar a cria nem que seja por meia hora (isto é assunto para outro post, mas entre não ter a quem o deixar e não ter que ouvir palpites a toda a hora a primeira ganha!, continuo muito feliz por estar longe). O terceiro e o quarto meses foram de uma exaustão profunda, sem tempo para respirar e muito menos para me dedicar a candidaturas a empregos - esta tarefa teve que ser adiada uns meses, parece que finalmente o pequeno Miguel decidiu colaborar na empreitada de deixar Itália o quanto antes.
Portanto, tudo é mesmo muito relativo. Os primeiros dois meses foram cansativos, mas os dois seguintes foram terríveis e houve alturas em que dei comigo a achar que não tinha sido talhada para isto. Acho que me disseram tantas coisas ruins dos primeiros dois meses que eu me preparei para viver uma catástrofe… que veio nos meses seguintes, quando eu esperava uma espécie de bonança. Agora, ainda antes do quinto mês, sinto que o mini-panda está um pouco mais autónomo, chora menos, dorme sestas mais longas e… rufem os tambores… até já me deixa escrever posts e concorrer a empregos! Talvez tivesse vivido estes meses de forma mais serena se não quisesse mudar de emprego e não stressasse de cada vez que deixava um prazo passar porque simplesmente não tinha tido tempo nem disponibilidade mental para me candidatar.
Escrevo-vos agora com ele a dormir no meu braço esquerdo. E agora… enviar uma candidatura! Torçam por mim, para que rapidamente o nome do blog possa mudar!
4 meses e tal
Há umas boas semanas o Miguel fez uma sestas mais longas e eu dei pulos de felicidade. Foi sol de pouca dura. Rapidamente voltou às sestas de 10 ou 15 minutos: uma desgraça para mim. Num quarto de hora não faço quase nada e, para além disso, tinha um bebé acordado quase o dia inteiro. E convenhamos que não é fácil entreter um bebé de 3 ou 4 meses durante horas a fio. O rebento sozinho chorava baba e ranho, tinha mesmo que ter companhia a interagir com ele sempre que estava acordado.
Agora, mais crescidito, parece que começou mesmo a dormir mais tempo seguido durante o dia, o que só traz vantagens. O rapaz dorme mais, logo acorda mais bem-disposto. Brinca sorridente e já vai estando alguns minutos entretido só a olhar em redor, mas especialmente a olhar para mim. Parece que ver-me a fazer as tarefas domésticas rotineiras é a sua maior fonte de entretenimento por estes dias. Ora, isto dá um jeitão, porque finalmente consegui começar a tratar decentemente das tarefas da casa. Também já é possível sair de casa sem que o pequenote desate num pranto. Começo a vislumbrar uma possibilidade de vida compatível com a maternidade.
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