12.3.14

regresso aos dias comuns

(de ontem, na caminhada solitária e silenciosa junto ao lado)

Da outra vez saí do hospital após a curetagem, respirei fundo, dormi, e no dia seguinte voltei ao trabalho como se nada fosse. Desta vez achei que merecia dois dias de sossego e descanso para pôr as ideias em ordem. Passei pela curetagem mais uma vez, embora desta vez o meu corpo se tenha encarregado de libertar de tudo o que era já supérfluo. No dia seguinte caminhei muito, parei sempre que me apeteceu e entre as caminhadas e as pausas houve tempo para fotografar. Hoje, dia em casa, almoço no terraço ao sol e limpeza da casa em jeito de limpeza da vida. Amanhã regresso aos dias comuns, volto ao ponto de partida. Mora em mim uma espécie de vazio. Não é um vazio enorme que me ocupa totalmente, mas um desconsolo, um desamparo e muitas dúvidas. Não me deixo consumir por estas dúvidas, mas de vez em quando elas aparecem de mansinho e depois somem. Acredito que um dia vai correr bem, naturalmente ou com acompanhamento médico. Não sei é quão longo será este caminho. Já pensei muitas vezes que o primeiro aborto pode ter sido apenas um passo inicial de uma longa caminhada. Já li muito, muito, muito. Mesmo antes do segundo aborto confirmado li muito sobre perdas consecutivas. Conheço as percentagens, sei de cor a teoria, sei o caminho a seguir. Sou racional o suficiente para reconhecer que há que tentar procurar as razões das perdas, embora saiba também que posso não vir a encontrar resposta para o porquê. Mas o meu lado que corre riscos continua a piscar-me o olho, e apetece-me arriscar mais uma vez e tentar provar que tive azar duas vezes seguidas, apenas isso, mas que à terceira é de vez.

8 comentários:

  1. Sei muito bem o que sente, o que pensa, a análise ás estatísticas, abortei ás 12 semanas à cerca de um mês e doí, doí tanto. Tenho 40 anos e sei que cada dia que passa é mais difícil, mas ainda não vou desistir já.
    Um beijinho e admiro por ter escrito sobre isso, eu nunca consegui !

    ResponderEliminar
  2. Na Província, para mim escrever é libertador. Soltar as palavras faz com que não se acumulem cá dentro e faz com que a dor não cresça tipo bola de neve (daí escrever sempre mais quando os dias são menos felizes). Mas todos somos diferentes e há que agir da forma que melhor nos faz sentir. :)

    Temos que continuar a tentar com todos os meios que tivermos ao nosso alcance. Pode não ser fácil atingirmos o objectivo mas, até prova em contrário, não é impossível.

    Fico a torcer para que tenhamos as duas sucesso :) Beijinho

    ResponderEliminar
  3. Assim como lhe dei os parabéns quando nos fez parte da sua felicidade, quero agora fazer-lhe chegar a minha solidariedade neste momento...Não servirá de muito mas prova que as suas palavras não expressam apenas estados de alma mas que se tornam elos entre pessoas que estão por aí, sem possibilidades físicas de se conhecerem, mas que aprendem a ter saudades do que aqui é publicado...

    ResponderEliminar
  4. um beijinho muito grande, não conheço essa dor que se sente, no meu corpo, mas no corpo de pessoas próximas e queridas. não é um processo fácil, mas a seu tempo, a alegria de um ser vai reinar, tenho a certeza. abraço apertadinho

    ResponderEliminar
  5. Não imagino o que sente, mas queria dizer-lhe que admiro o seu lado que corre riscos, sou cada vez mais pelo risco, embora ainda não tenha tido coragem para o abraçar. Admiro esse lado e estou a torcer por si. Muito.

    ResponderEliminar
  6. d* e regressos, obrigada! :)

    ResponderEliminar